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terça-feira, 16 de julho de 2013

FESTA DE NOSSA SENHORA DE ANTIME - FAFE - DESCALCEZ E / OU DESCALCISMO?

    



    Antes de tudo há que proceder a definições:

   
    Segundo o «Dicionário Geral e Analógico da Língua Portuguesa», da autoria de Artur Bivar:

    Descalcez, s. f.  Qualidade de descalço. || A ordem dos carmelitas descalços.


    Segundo a Real Academia Espanhola:

    1 - Qualidade de descalço.
    
    2 - Regra que devem observar os religiosos que andam com os pés descalços.

    
    Esta mesma Academia define «Descalço»:

    1 - Como adjectivo: aquele que traz os pés nus.

    2 - Como substantivo: um frade ou uma monja que professa a descalcez.



Frades Carmelitas Descalços


Ordenação de um Frade Menor (Franciscano)


Frades Menores

Frade Menor da Renovação


Filho da Pobreza
do 
Santíssimo Sacramento
(«Toca de Assis»)





Fraternidade Missionária
«O Caminho»

Religiosa de ordem não 
identificada







Irmãs Capuchinhas de Nazaré


Monja Clarissa

Monjas Clarissas Coletinas

Fraternidade «Arca de Maria»

Profissão ao ar livre, no Uganda

Missionária da Caridade


    Temos, pois, o vocábulo descalcez conotado com uma forma de vida religiosa, ainda praticada em algumas comunidades de ambos os sexos, sobretudo Franciscanas e Carmelitas.
    
    Os anglo-saxónicos separam o discalced (discalced carmelites - carmelitas descalços, por exemplo) do barefooted, hoje em dia já simplificado para barefoot, que se traduz por alguém que anda descalço por outras razões que não religiosas.
    
Descalcista (barefooter)

    Resumindo: no mundo anglo-saxónico, um discalced one é alguém que, por razões espirituais ou religiosas, pratica descalcez, o discalceament, permanentemente (caso dos religiosos/as) ou apenas ocasionalmente (aqueles que o fazem em cumprimento de uma promessa ou de uma tradição, como no tema de hoje), enquanto que um barefooter é alguém que por outras razões (conforto, filosofia, estilo de vida, respeito pela natureza, contestação ao consumismo) pratica o barefooting, vocábulo este que se tem procurado introduzir na língua portuguesa com a tradução de descalcismo, designando-se então os seus adeptos como descalcistas.

     

    Resolvi publicar este preâmbulo antes de me alargar acerca da Festa de Nossa Senhora da Misericórdia ou «do Sol», que se festeja em Fafe, sob a invocação mais comum de Nossa Senhora de Antime, porque a descalcez (e em parte também o descalcismo) estão fortemente relacionados com este evento religioso que talvez seja a cristianização de um ritual pré-cristão.
    A primeira referência a esta celebração remonta ao ano de 1736. 
    É possível que, muito antes de Portugal ser cristão, ela já se realizasse como um culto solar ou um ritual de fecundidade, sempre celebrado no segundo fim-de-semana de Julho. 
    Uma tradição mais recente relata o aparecimento de uma imagem de Nossa Senhora no Monte de S. Jorge, um local disputado pelas freguesias de Fafe e de Antime.



    Fafenses e antimenses chegaram a um acordo quanto ao local onde a imagem deveria 


Igreja paroquial de Antime.

permanecer: ficaria na igreja paroquial de Antime durante todo o ano, e no dia da festa, ao 

romper da aurora, os homens de Antime, descalços, enfaixados com fortes tiras de pano vermelho e revestidos de opas brancas, trá-la-iam na sua charola (o conjunto de imagem e 









charola pesa mais de 350 Kg.!) até à Ponte de S. José, limite das duas freguesias, onde seria entregue aos homens de Fafe, e estes, ataviados de igual maneira, levá-la-iam então para a Igreja Matriz da vila.

Igreja Matriz (nova) de
Fafe

    A imagem de Nossa Senhora com o Menino Jesus reclinado no braço esquerdo, de 1, 10 m. de altura, é esculpida em pedra-ançã (proveniente das pedreiras calcárias situadas na freguesia de Ançã, concelho de Cantanhede), e remonta talvez ao século XIV, período gótico.



    Outra tradição também diz que era esta a forma de os rapazes solteiros mostrarem às namoradas a sua força física, bem necessária para os árduos trabalhos agrícolas dessas épocas. 
    É aí, na Ponte de S. José, que se dá um dos momentos mais significativos:. o encontro da imagem de Nossa Senhora de Antime e da imagem de Nossa Senhora das Dores, vinda de Fafe aos ombros dos bombeiros voluntários. 


Imagem de Nossa Senhora 
das Dores.



Ponte de S. José, local de encontro das 
duas Senhoras

    As imagens ficam frente a frente e fazem uma pequena vénia uma à outra, em sinal de saudação. Este gesto, no limite das duas freguesias, é a afirmação de um protocolo de recepção e boas vindas por parte de Fafe à sua convidada de Antime.  Desde este momento até ao regresso a Senhora é de Fafe.     
    Ao pôr-do-sol, impreterìvelmente (hoje tem hora marcada: 18 horas), a imagem regressa a Antime, sua residência habitual. Caso anoiteça e a pesadíssima imagem ainda esteja em Fafe, só regressará a Antime no ano seguinte!
    O préstito é impressionante, pois são milhares de romeiros a incorporá-lo. 























































   A Fé e a devoção são visíveis e contagiantes: crianças vêem os seus familiares irem descalços e querem ir como eles, apesar de ser extremamente penoso fazê-lo com o chão escaldante, durante este dia que quase sempre se apresenta extremamente tórrido (não o caso deste ano de 2013, em que terminou em violenta trovoada e grandes aguaceiros)! 




    Há pessoas que, prometendo ir sem falar, selam a sua boca mordendo uma flor ou um raminho.



    Gente de todas as idades e de todos os estratos sociais, nivelada pela descalcez!


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