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domingo, 23 de novembro de 2014

COISAS DA ARCA DO VELHO - CONFEITARIA SHELLTOX – MATA QUE SE FARTA! - ESPECIALIZADA EM PASTÉIS PARA AS SOGRAS



COISAS DA ARCA DO VELHO

CONFEITARIA SHELLTOX – MATA QUE SE FARTA!

ESPECIALIZADA EM PASTÉIS PARA AS SOGRAS


Não fora haver a lamentar uma morte, e este triste facto, ocorrido há meio século, por altura dos Fiéis de 1964, até dava para rir!
Por razões óbvias, não vou aqui mencionar nomes nem de outra forma criar pistas que levem à identificação dos intervenientes no caso. Quem disto for contemporâneo e ler esta crónica com certeza que se me substituirá numa narrativa mais pormenorizada.
Antes de tudo, e passe a publicidade, «Shelltox» era um insecticida em aerossol, dos primeiros comercializados em Portugal, em embalagem pressurizada, e produzido pela petroquímica holandesa «Shell», de cujos combustíveis com certeza todos nós nos lembramos e nos abastecemos nos nossos veículos.
O «slogan» mais divulgado na publicidade deste insecticida era “Shelltox Aerossol – Mata que se farta” (os insectos, bem entendido)...
No dia 1 de Novembro de 1964 o tema geral das conversas era a morte de uma jovem que tinha comido uns pastéis «mil-folhas» comprados na Confeitaria x, e, a seguir, como se tivesse começado a sentir mal, tinha tomado um copo de leite, o que teria acelerado o efeito do hipotético veneno.
Estava-se, portanto, perante uma fatal intoxicação alimentar.
Mas devida a quê?
Evidentemente que iria haver uma autópsia, e, enquanto os resultados oficiais desta não fossem divulgados, teriam lugar as inevitáveis, incríveis e imaginativas especulações.
O funeral da rapariga teve lugar daí a um ou dois dias. Esperei-o no cemitério e assisti à última abertura do caixão: estava vestida de noiva, e as extremidades dos dedos estavam cianosadas.
O cadáver foi recolhido no «depósito», um barraquito no canto Nordeste da parte antiga do cemitério, onde ficaria a aguardar autópsia, que se realizaria nas caricatas e habituais condições: vinha um agente da Polícia de Segurança Pública evacuar o recinto, o corpo era retirado da urna e colocado, ao ar livre, sobre uma improvisada mesa de madeira, e os respeitáveis magistrados, oficiais, escrivães e peritos do Tribunal procediam ao trabalho.
Entretanto corriam as mais diversas versões acerca da causa das intoxicações. Sim, intoxicações, porque houve mais vítimas, embora não tão graves.
A referida Confeitaria x, nesse tempo, situava-se num edifício velho, e por isso infestado de ratos. Não faltavam testemunhas a terem visto os roedores deliciarem-se com o conteúdo das montras. Como tal, a gerência tinha raticidas que... ou os ratos levaram consigo para os bolos ou... Um determinado empregado, julgando a quantidade de açúcar em pó ser pouca para dar uma aparência apetitosa aos «mil-folhas» teria, por engano, polvilhado os mesmos com... ARSÉNICO! Imagine-se! Arsénico usado como raticida!
Ora para nem tudo se perder o zeloso funcionário teria sacudido todo o pó e substituído por açúcar verdadeiro, só que isso não teria evitado que uma dose letal tivesse permanecido no pastel.
Mesmo ainda antes da chegada dos resultados da autópsia já se afirmava, peremptòriamente, que as análises toxicológicas tinham acusado arsénico!
Apenas uns dias depois a imprensa divulgou aquilo que seria o resultado final, mas que a todos custou «engolir»: a Confeitaria x recebia os produtos confeccionados pela Fábrica y, onde uma peritagem mais pormenorizada detectara uma salmonelose proveniente de ovos deteriorados.
Mas mesmo assim outra versão tinha corrido, entretanto: que fora uma empregada dessa fábrica que espalhara as salmonella, através da respiração, para cima da massa dos pastéis!
Uma empregada da confeitaria andou, então, pelas casas comerciais das vizinhanças a mostrar o jornal. Ninguém acreditava!
E agora a razão de ser do título desta croniqueta:
Logo a seguir à fatal intoxicação a Confeitaria x foi encerrada durante alguns dias, e numa madrugada apareceu este letreiro colado na mesma:

CONFEITARIA SHELLTOX – MATA QUE SE FARTA!

ESPECIALIZADA EM PASTÉIS PARA AS SOGRAS

Aquela terra era profícua em casos estranhos, inexplicáveis: desaparecimentos, culpas a morrer solteiras...
Julgo ter vivido de perto, nos meus 20 anos de residência ali, o último desses casos de contornos ainda hoje mal definidos que a terra cobriu para sempre.

FIM

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