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terça-feira, 20 de janeiro de 2015

COISAS DA ARCA DO VELHO - SIGA O ENTERRO!

COISAS DA ARCA DO VELHO
SIGA O ENTERRO!

Meu tio-avô Francisco Fernandes Pinto, a quem sempre nos habituámos a tratar por Tio Chico, era irmão de minha avó materna, tendo nascido na freguesia de Fornos, então concelho da Vila da Feira, a 31 de Março de 1883.



Casa de meus bisavós em Fornos, onde 
nasceram o Tio Chico e seus irmãos.
Estas fotografias datam de 1991, com o
prédio já muitíssimo alterado.

Considerando os difíceis tempos de então, uma das saídas para o pequeno Francisco seria a emigração para o Brasil, pelo que foi confiado a uma família de pretensa confiança que o acompanharia nessa viagem pelo Atlântico (consta-se que ainda à vela) até Terras de Vera-Cruz, onde, ao que se julgava, o iriam amparar nos primeiros tempos.
 Pois... Uma vez desembarcados no Rio de Janeiro apenas lhe foi dito isto:
- Meu menino, o Brasil é aqui. Agora governa-te!
E o Tio Chico bem que teve de se desunhar conforme pôde, e assim subiu na vida até ser proprietário de uma agência de câmbios, o que fez dele um próspero “brasileiro de torna-viagem”.
Casou no Brasil por duas vezes: primeiro com uma senhora de origem argentina, de nome Dolores Garcia, e da segunda vez com a tia que eu já conheci, trasmontana de Santa Valha, Valpaços, de nome Adelaide dos Anjos da Mata Pinto.
 De ambas teve filhos, dos quais apenas conheci duas sobreviventes: uma do primeiro casamento (a Prima Antónia) e a outra do segundo casamento (a Prima Madalena). Todos os outros foram ceifados pela tuberculose.

Tio Chico no Rio de Janeiro,
em 1914, com os cinco filhos
mais velhos.

O Tio Chico regressou a Portugal com uma fortuna razoável, que empregou, primeiro, na construção da sua casa um pouco ao estilo “brasileiro”, em Fornos, e, como era costume entre os “brasileiros”, deu-lhe o nome da segunda esposa: “Vila Adelaide”.


Dois aspectos da "Vila Adelaide" de Fornos,
em 2002.

Para além deste prédio, o Tio Chico tinha outros em Espinho, para rendimento, para além da sua residência nesta então vila, onde sempre o conheci, também denominada “Vila Adelaide”, e que hoje serve de Residência Paroquial de Espinho. Este prédio situa-se no ângulo das Ruas 12 e 29.

A "Vila Adelaide"de Espinho, em 2002, 35 
anos após o falecimento do Tio Chico.
Nesta altura encontrava-se em acentuado 
estado de degradação.





A "Vila Adelaide" de Espinho, 
em 2011, já recuperada e 
servindo de Casa Paroquial.

Homem respeitável, profundamente religioso, o Tio Chico foi eleito Presidente da Junta de Freguesia de Fornos.
Certo dia, isto talvez já nos meados do século XX, faleceu na Vila da Feira alguém natural da freguesia de Fornos, e como teria o seu jazigo particular no cemitério desta paróquia, seria para là que se dirigiria o funeral.
Ao que consta, o Sr. Vigário da Vila da Feira à época andava de “candeias avessas”, como costuma dizer-se, com o Sr. Abade de Fornos.
O enterro, depois de ter saído da Igreja Matriz da Vila da Feira, o “Convento”, como ainda é conhecida, dirigiu-se para Fornos.


Igreja Matriz da Vila da Feira, conhecida 
por "Convento", por fazer parte do 
Convento dos Loios, ocupado pelo Tribunal 
da Comarcaapós a extinção das Ordens 
Religiosas.


Ao chegar ao limite das duas paróquias o Sr. Vigário e os acompanhantes da Vila abandonaram o préstito, alegando que o serviço deles terminava ali. Da paróquia de Fornos ninguém estava presente para acompanhar o defunto ao seu destino final. Nem Sr. Abade, nem Cruz, nem ninguém.
 Ninguém quis assumir a responsabilidade de seguir com o funeral para a Igreja Paroquial e para o cemitério de Fornos.


Igreja Paroquial do Divino Salvador
de Fornos.

Então foi alguém procurar o Tio Chico, autoridade civil suprema da freguesia, para desbloquear a situação.
Que fez ele então?
Foi à sacristia, pegou no ritual das Exéquias e deu esta ordem terminante:
- Siga o enterro!
Foi ao encontro do cortejo fúnebre e recitou as orações inerentes ao acto, acompanhando o morto à sua última morada.
Resultado: O Sr. Vigário decretou a excomunhão do Tio Chico, por usurpação de funções. Em relação ao Sr. Abade de Fornos ignoro a atitude do mesmo..
Tudo isto me foi narrado por minha avó materna e pela sua irmã, a nossa querida e inesquecível Tia Rita, e ainda por algumas pessoas de Fornos que se lembram do caso.




Tio Chico com a mãe, a Bisavó Antónia 
(sentada) e as duas irmãs: Maria, minha
Avó materna (à esquerda) e Rita, nossa
saudosa e inesquecível tia (à direita).

Não sei também como foi levantada a excomunhão. Sempre conheci o Tio Chico assíduo aos actos religiosos e comungando.




Tio Chico, em 1964, aos 81 
anos, já viúvo da Tia Adelaide.
Penso ser este o seu último 
retrato.

O Tio Chico faleceu na Arrifana, em casa da Prima Madalena, sua filha, a 8 de Fevereiro de 1967. Está sepultado no Cemitério Paroquial de Fornos, em jazigo próprio.
E, em Fornos, julgo que de geração em geração, ainda se falará nesta ordem do Tio Chico:
- SIGA O ENTERRO!

FIM


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