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domingo, 1 de fevereiro de 2015

COISAS DA ARCA DO VELHO - INÍCIOS LITERÁRIOS - 1



Muito pequenino ainda, mal aprendi a escrever, meti-me a "prosas", começando por umas historitas de uma página ou pouco mais.
Como todos os jovens da minha idade, penso eu, pelos meus doze anos vivia o "Mundo de Aventuras", não só na leitura desta publicação como no meu próprio íntimo.
Desde a 4ª classe frequentei o saudoso Colégio de S. Luís, em Espinho, onde tive como condiscípulos os irmãos Viale Moutinho: José, o homem de letras, que dispensa apresentações e a quem abraço desde este "blog", e João Fernando, coleguinha de ano e mais tarde camarada de armas (mais pròpriamente de seringas) no Exército, uma vez que, como eu, era Furriel Miliciano Enfermeiro. Um abraço também para ti, Johny!



Dois aspectos do desaparecido edifício onde
funcionou o Colégio de S. Luís, em Espinho

Sucede que, embora eu nunca o tivesse lido, eu ouvira falar na obra de Robert Michael Ballantyne "Aventuras de um Rapaz nas Florestas do Amazonas". Um título à partida vulgar.
Eu já lera, de Ballantyne, "A Ilha de Coral", outra narrativa que me deixou encantado.
Pòzinhos de uma história, pòzinhos de outra e, um dia, resolvi "escrever um livro". Ilustrado!
Influenciado pelo título acima dei-lhe o epígrafe de "Aventuras de Dois Rapazes nas Florestas Americanas".
O enredo da história, muito resumido, era este: dois irmãos, filhos de um rico banqueiro espanhol, resolveram partir para um imaginário país da América Latina, a Palômbia, em busca de um determinado animal raro.
Porque escolhi os espanhóis como protagonistas? 
Primeiro porque, para os portugueses de há cinquenta anos atrás, a Espanha, apesar do que todos nós sabemos, afigurava-se-nos como uma sociedade onde haviam determinadas vivências aqui desconhecidas ou raras, fossem as touradas de morte, fossem as Semanas Santas, fossem as praias solarengas da Costa Brava (ai as suas frequentadoras…!) quando ainda não se sonhava com o Algarve caótico, etc.
Para os mais modestos, a Espanha eram umas lojas do outro lado da fronteira onde se compravam  caramelos, torrão-de-Alicante/nougat, pão e "Cognac".
Em segundo lugar, talvez tivesse preferido "Nuestros Hermanos" pelo facto de delirar com os filmes do Joselito e da Marisol.


Joselito


Marisol

Já não sei, sinceramente, o que fiz ao manuscrito A5 ilustrado com desenhos a tinta-da-china e guache. Deu-me umas semanitas de trabalho, sempre a ouvir o "recado" de pensar mas era nos estudos e deixar-me dessas fantasias.
Mas a obrinha là ficou concluída, e as folhas fixas com ataches, porque… quem, nesse tempo, tinha um agrafador em casa?
O José Viale Moutinho escrevia algumas coisas na "Defesa de Espinho", semanário regional-nacionalista. Conversávamos sobre as minhas  aspirações "literárias" e ele encorajava-me a prosseguir, ainda que as prosas parecessem disparatadas. 


José Viale Moutinho

A seguir à prosa de aventura e ficção veio-me o desejo de escrever para os jornais.
Pelo Verão de 1964, fez o ano passado, portanto, meio-século, tinha eu concluído o 2º ano dos Liceus, tendo sido dispensado da prova oral com uma média de cerca de 14 valores. Um alívio!
Em Espinho, por essa altura, havia ainda muitíssimas falhas a corrigir, e na "Defesa" iam-se publicando críticas e sugestões.
Passada a época de exames, eu e um colega que passara para o então 5º ano dos Liceus e a quem vou designar por J. M., a fim de preservar a sua privacidade, tornámo-nos muito próximos.
J. M. vivia acima da feira e próximo do colégio, numa casa moderna, e se bem que a sua condição fosse "média-alta" não se rodeava de excessos.
Era assinante de uma revista juvenil chamada "Zorro", e como a ele também mordeu o "bichinho" do jornalismo, começou a escrever pequenas crónicas e reportagens nesta revista, maioritàriamente sobre  actividades ligadas à juventude (lembro-me, acima de tudo, do Circuito Ciclista Infantil de Espinho).


Primeiro exemplar do
"Zorro"

À tarde íamos para a chamada "Praia da Seca", situada a Norte do Rio Largo (o nome desta linha de água soa-me a toponímia do "Far-West"…), ou sentávamo-nos na esplanada do "Avenida", na Avenida 8..
Nas nossas conversas "literárias" ocorreu-me mesmo começar a escrever algo na "Defesa", e para isso foi-me sugerido pelos irmãos Viale Moutinho a encontrar-me com o saudoso director do jornal, Sr. Benjamim Dias, e dar-lhe a conhecer os meus anseios.
E assim fiz.


Sr. Benjamim Dias

O Sr. Benjamim Dias recebeu-me amàvelmente e là me deu umas orientações sobre o que escrever e como escrever.
E assim, para começar, o meu primeiro artigo saíu a público no nº 1690 da "Defesa de Espinho", em 15 de Agosto de 1964:


Enfim… "Português Suave"!
Uns elogiositos da família, amigos e colegas com uma ponita de inveja, e foi tudo.
Considerando que estou a comemorar 50 anos do início de uma fase significativa da minha vida, e que hoje "pus em dia" a última crónica referente ao ano de 1964, pelo facto de motivos alheios à minha vontade não mo terem permitido durante o ano transacto, irei desenvolver mais este tema em crónicas futuras.


O vosso Rob, em Setembro de 1964

FIM

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