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sábado, 28 de março de 2015

COISAS DA ARCA DO VELHO - SÒZINHO NO PORTO

Suponho que também foi aí por 1965 que, pela primeira vez, andei sòzinho no Porto.
Naqueles tempos em que nem todos os cidadãos eram beneficiários de um sistema de saúde e segurança social, a minha saudosa Tia Rita, diabética de há longa data, era consumidora habitual do medicamento NADISAN (N1-sulfanilyl-N'-butyl urea).
A Tia Rita vivia do rendimento das suas duas casas: a da Rua 2 nº 935:



e a da Rua 4 nº 1136, em cujos anexos residia, tendo arrendada a casa pròpriamente dita:


Eu e a Tia Rita, em 1964

Como ainda muitos doentes crónicos de hoje, mesmo cobertos pelos sistemas de saúde, a Tia Rita passava sérias dificuldades para ter certinhos os seus tratamentos, pelo que, sempre que possível, se recorria a um subterfúgio ilegal:
Um grande amigo da nossa família, de nacionalidade belga, tinha a sua residência e o seu estabelecimento comercial próximo de algumas importantes farmácias e distribuidores de medicamentos da cidade do Porto.
Quando se proporcionava oportunidade de alguém da família ir ao Porto, ia cumprimentar o grande amigo e este encarregava um dos seus empregados de confiança de ir a uma determinada drogaria distribuidora de medicamentos levantar o NADISAN ou qualquer outro que eventualmente também fosse necessário e.. as droguinhas vinham nos bolsos, às escondidas e pagas a preço para revenda.
Certo dia tocou-me a mim essa tarefa, e meu avô, um obcecado pelo arroz-de-forno, aproveitou para me pedir que lhe trouxesse 100 gramas de açafrão-macho.
Là fui. 
Só que nessa drogaria não tinham o açafrão-macho. Meti o NADISAN ao bolso, agradeci ao nosso amigo belga e despedi-me. 
Procurei o açafrão-macho numa conhecida ervanária, onde pela primeira vez fui tratado por "senhor", e a resposta foi igualmente negativa.
Acabei por ir a uma confeitaria da Rua de Santa Catarina e trouxe o açafrão na apresentação que era então habitual: uns envelopezinhos com uns quantos estames da especiaria mas que nunca perfaria, nem de longe, a quantidade pretendida.
Não era bem aquilo que meu avô queria, mas… Contra factos não podia haver argumentos.
A Tia Rita teve o seu NADISAN e meu avô ficou com açafrão para mais uns alguidares de arroz-de-forno.
As vezes que se seguiram nas minhas deambulações a sós pela minha cidade-natal foram devidas ao problema cutâneo a que já me referi numa crónica anterior.
Uma vez que minha mãe, na qualidade de beneficiária da "Caixa Sindical de Previdência dos Profissionais do Comércio", me proporcionava também direito a assistência médica, fui a algumas consultas do saudoso Dr. Joaquim Moreira da Costa, que me foi receitando umas pomadas e uns comprimidos anti-alérgicos, que de nada me resultaram, pelo que me encaminhou para a consulta de Dermatologia dos Serviços Médico-Sociais, que nesse tempo funcionavam num palacete da Rua de Santa Catarina, onde hoje se encontra instalada a Administração Regional de Saúde do Norte:


As duas ou três primeiras vezes fui acompanhado por minha mãe, tendo sido seguido pelo Dr. Mário Castro, que continuou com a terapêutica de comprimidos anti- alérgicos (lembro-me do ALERCUR) e uns tópicos, como o SYNALAR-N e o CORTICIL-T.


Por fim, minha mãe, para não faltar tanto ao trabalho e tendo chegado à conclusão de que eu já tinha tino para andar sòzinho no Porto, condescendeu em que eu começasse a "treinar" naquele percurso entre a estação de S. Bento e o cimo da Rua de Santa Catarina.
Por fim, o Dr. Mário Castro receitou-me uma pomada manipulada na farmácia, que, tempos depois, acabou por ser o "remédio santo". Mas não só a pomada...
E, por uns tempos, pararam as minhas solitárias deslocações ao Porto.
Com isto, desejo aos meus queridos leitores uma Santa e Feliz Páscoa!


FIM





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