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quinta-feira, 28 de julho de 2016

AS MADRESSILVAS DE S. PEDRO

AS MADRESSILVAS DE S. PEDRO

Um conto por Alberto Robaleiro

(1º Prémio no 1º Concurso de Desenho e Pintura, Prosa e Poesia da Secção Liceal de Espinho - 1971)

O velho mestre bateu fragorosamente com o ponteiro na secretária.
- Outra vez distraído, hein? Vem cà, José do Aprisco!
O repreendido levantou-se, cabisbaixo, e passou por entre as carteiras ouvindo vaias dos companheiros. O professor olhou-o severamente e ordenou:
- Vais dizer a mim e aos teus companheiros o que têm de especial os campos da Couteira, para estares sempre a olhar para là.
O pequeno nada disse. Com as lágrimas nos olhos esperava, a todo o momento, o contacto brutal do ponteiro com as pernas nuas.
- Vira-te para a parede!
Aplicada esta penalidade a aula prosseguiu normalmente.





Como se originara este incidente?
José do Aprisco nascera há nove anos naquela aldeola de Fornos, metida na cova de uma serra. Seu pai, João do Aprisco, trabalhava nas terras da Senhora Viscondessa, e sua mãe olhava pela casita pobre, pela horta e pelo casal de filhos que ia criando com sacrifícios mas debaixo da maior honestidade.
Todo o trabalho era pouco para a sustentação do lar. O Domingo era aproveitado apenas para ir à Missa e descansar toda a tarde, a fim de descontrair as horas de vigília que muitas vezes tinham durante a semana. Por tal motivo José apenas conhecia, fora da sua freguesia, a Vila sede do concelho, que ficava distante perto de dois quilómetros.
Era esta vila um burgo cujo café principal estava povoado por funcionários sonolentos e pelos párocos das freguesias circumvizinhas. Nas montras das poucas lojas os artigos debotavam com o tempo de exposição à luz.
O pequenito não fazia ideia do que seria uma cidade como as de que falavam os textos do livro de leitura. Muito menos conhecia o mar, pois nem a consolação tinha de o ver de longe, devido às montanhas de que a povoação estava rodeada.
Um dia apareceu em Fornos um homem até ali nunca visto: possuía um farta barba grisalha, fumava um negro cachimbo e usava na cabeça um boné azul já muito desbotado e com uma pequena âncora de latão, muito cheia de verdete, na frente. Trazia às costas um saco de lona e debaixo do braço um canudo muito engraçado. Do bolso do  casacão de trespasse emergia o gargalo de uma garrafa de rum, e a velha camisola de lã, de gola alta, era toda bordada com rodas de leme, âncoras e outros objectos similares.
Entrou na venda do Joaquim Carriço onde pediu comida e um quarto para pernoitar. Os batoteiros que àquela hora enchiam a loja pararam com a jogatina e puseram-se a observar o procedimento do forasteiro.Este parecia ser de poucas falas, pois sentou-se numa mesa afastada a fumar o cachimbo, com os olhos fixos na porta sem nada querer saber.
O taberneiro serviu-lhe o primeiro prato e interrogou-o àcerca da sua proveniência e do seu modo de vida. Aos poucos a língua do velho foi-se destravando e os curiosos começaram a rodear a sua mesa. Neste momento o José do Aprisco entrou.
- Ó sr. Joaquim, venda-me um quilo de sal. Não demore muito porque a minha mãe está à espera.
- Já te atendo, Zé. Deixa-me aviar primeiro este senhor.
O miúdo estava aviado e mais que aviado, mas aconteceu que o velho começou a contar aos presentes o que durante 50 anos vivera nos 7 mares. E falava, falava do mar e dos seus encantos, das terríveis tempestades, dos piratas da China, dos tubarões e de imensas coisas que a criança ia imaginando no seu cérebro febril. E teria ficado ali a ouvir o forasteiro toda a noite se o Carriço lhe não lembrasse a pressa com que viera.
- Então já não  tens pressa?
- É verdade! Adeus, sr. Joaquim. Ai, que a minha mãe mata-me!
E saíu em  disparada. Em casa foi recebido à bofetada e deitou-se sem jantar.
Durante aquela noite nada dormiu. Só pensava no Oceano distante, que agora simbolizava o seu ideal de liberdade. Como seria bom se aquele homem o levasse com ele para onde não houvesse escolas nem professores rabujentos, que para ele pareciam piores que os piratas, os tubarões e as tempestades!
Na manhã seguinte foi para a escola e, no caminho, encontrou o velho das barbas e do cachimbo, com o canudo na mão. Não resistiu mais e dirigiu-se-lhe:
- Ó meu senhor, onde fica o mar?
- Para além, mu rapaz. Para Oeste. - E apontou para os campos da Maria Couteira.
- Como se vai para là?
- Porque queres saber isso rapaz? Queres ir para a Marinha?
- Quero ver o mar. Nunca o vi. No meu livro de leitura diz que é muito bonito.
- Podes tomar o comboio na Vila e vais là ter, ou pedes uma boleia aí na estrada.
- No mar não há "coisas ruins", como  a que aparece na Lage?
- Não sei a que te referes, mas là só os homens é que podem ser ruins.
O rapazito olhava agora para o canudo e reconhecera nele um óculo, igual àquele que aparecia no livro da 1ª classe para aprender a dizer a letra O.
- O senhor… o senhor como se chama?
- Francisco Cara-Linda, capitão da Marinha Mercante.
- Deixa-me ver pelo óculo, sr. Capitão?
- À vontade, rapaz. Pega là e vê o que quiseres.
José olhou através daquele maravilhoso instrumento e, por acaso, focou sua mãe no quintal, dando de comer à criação. Ela parecia-lhe ali mesmo ao pé, mas estava pelo menos a um quilómetro. Como era bom poder ver sem ser visto!
Voltando para outro lado viu o pai a moirejar, de enxada na mão, na propriedade da Srª. Viscondessa. Vários rebanhos nos montes muito pertinho, e podia ver as anilhas das pombas do Dr. Valentim, o médico da Vila, que voavam a muitos metros de altura. Viu ainda o sr. Abade a encaminhar-se para o café e lendo o Breviário pelo caminho.
- Que côr tem o mar?
- Isso é conforme o tempo e o lugar. Vai do azul ao vede, passando por vários cambiantes.
- Se a minha mãe me deixsse ir consigo
- Pois era bom, era, mas não deixa. Se passares de classe com ceteza que no Verão te levrá à praia e então saciarás a tua curiosidade. Vai mas é para a escola, porque senão chegas tarde.
Confortado por esta afirmação deitou a correr para a escola. Mas estava atrasado e o mestre repreendeu-o:
- Tão atrasado!… Vê là se tomas horas. - E fazia carêtas ao velho relógio de bolso.
A ânsia de liberdade era cada vez maior. Sentia que tinha de chegar ao mar, mesmo antes da passagem de classe.






Agora ele estava no canto da sala, chorando numa febre de evasão. os sinos tocarm ao meio-dia. O professor mandou os rapazes embora e, a sós com José do Aprisco, perguntou-lhe:
- Ouve là, pequeno, que se passa contigo nos últimos tempos? O teu aproveitamento está a piorar e vejo-te sistemàticamente distraído.
O rapazito nada respondeu.
- Tem pena de teus pais, José. Não fazes ideia do sacrifício que fazem para te sustentar e comprar-te livros e cadernos. O teu pai já foi meu aluno e nunca tive razão de queiza dele. A tua irmã sempre foi aplicada e hoje já vai ajudando a tua mãe là em casa. Segue-lhes o exemplo e lembra-te que um dia também serás pai.
Fez-se silêncio entre os dois.
- Vai-te embora e vê se daqui para diante melhoras a tua situação.
O miúdo encaminhou-se para casa, tristonho. O  castigo sofrido foi o último golpe a cortar os laços que o prendiam àquela terra, e seria mesmo naquela tarde que iria ver o mar. 
- Que andas a fazer por aí, Zé? - perguntou a mãe. - O sr. Alves diz que tu não sabes as lições e que estás sempre na Lua.
O pai não deu tempo a uma eventual resposta:
- Estás é a precisar de levar com o rabo da enxada por esse lombo abaixo. Se continuas neste andar vais comigo para o campo e vês o que é bom.
José nunca revelou a ambição de que a sua alma estava possuída. Apenas dava lágrimas como resposta.
- Metes-me nojo com tanta choradeira! Marcha já para a escola! Sai daqui antes que te desfaça essa cara!vE vê se vens à hora da ceia, senão já sabes o que te acontece.
Antes que a ameaça chegasse a vias de facto o pequeno pegou na sacola e saíu. João quedou-se, pensativo.
- Ó Cordália!
- Que é que queres, homem?
- Estou cà a desconfiar que aquele barbaças do óculo que esteve aqui no mês passado andou a meter macaquinhos na cabeça do Zé
- Olha que esta!… Coitado d velhote! Quase nem dois dias aqui esteve. Ó João, tu sempre tens cada uma!
- Ah, sim? Mas não sabes que quando mandaste o catraio ao Carriço para cmprar sal e ele veio tardíssimo foi porque esteve a ouvir o homem a contar dispartes? E nos dois dias que là esteve hospedado fez uma limpeza nas garrafas de aguardente e de anis. O Joaquim não é homem para mentir.
- Homem, se ele lúcido não seduzia o nosso filho muito menos bêbado.
- Podes dizer o que quiseres, mas que daí até agora o Zé mudou muito é uma grande verdade.
- Não me enerves mais, João. Vai mas é trabalhar porque são horas. Todas as crianças sofrem modificações durante a vida. Não ouviste o que o Abade disse na Missa de Domingo passado?
João do Aprisco não respondeu. Enrolou um cigarro, pôs o chapéu na cabeça, o casaco ao ombro e saíu, resmungando:
- Trabalhar, só trabalhar e depois chega-se ao fim e leva-se um pontapé… 







O filho de João começou a assobiar um improvisado hino à liberdade. Quando passou pela escola ainda faltava muito tempo para começarem as aulas da tarde, motivo pelo qual não estava là ninguém.
Aquela tarde quente de Maio convidava qualquer um a procurar uma sombra fresca para repousar. Mas José não estava disposto a parar um segundo. Seguiu pela estrada adiante, passou por detrás da Igreja, para que às vezes não fosse avistado da Residência Paroquial, e cortou por um pinhal para não atravessar a Vila, onde fàcilmente seria reconhecido. Já afastado do povoado viu uma estrada pouco movimentada de automóveis. Era aquela a que o marinheiro se tinha referido. Meteu por ela e foi contando os marcos quilométricos: 20, 19, 18
Quando algum carro vinha em sentido oposto virava a cara para o lado o mais que podia. As suas pernitas, arranhadas pelos tojos e silvas, despertavam a atenção dos que por ele passavam, mas ali já não era conhecido, e portanto podia continuar, sem perigo, a sua jornada.
A estrada contornava a serra, sobranceira a grandes precipícios mal vedados por pequenos muros brancos. Como o calor apertava o pequeno viandante via-se obrigado a parar em todas as fontes para se refrescar. Passou num sítio ermo e lembrou-se dos lobos. Teve medo e começou a procurar em pensamento um santo a quem pudesse invocar protecção. Depois de cuidada escolha optou por S. Pedro, pois também tinha andado no mar e, portanto, devia simpatizar com quem gostasse do seu elemento de trabalho. Começou a rezar o Terço, mas quando acabou a Salvé-Raínha pensou que a oração talvez não tivesse sido suficiente e rezou quantas orações, Ladaínhas e Jaculatórias aprendera desde pequeno.
Estava-se em plena Primavera e as madressilvas floriam ao longo da estrada. Colheu algumas e fez um ramalhete, atando-as com um pedaço de faniqueira que andava esquecido no bolso dos calções. A quem as ofereceria? à mãe? à irmã? Talvez là chegassem tão murchas que só a cabra as apreciaria… no estômago. Não desistiu, contudo, de levar consigo as flores e continuou o seu caminho, confiante que S. Pedro o ouvira e o tinha nas malhas protectoras das suas redes.
Havia agora uma subida íngreme, e quando atingiu a lomba ficou extasiado com o que via: a seus pés uma povoação gigantesca junto de uma grande extensão de água cujo limite a vista não atingia. Ouviam-se ali milhares de ruídos desconhecidos, centenas de veículos enveredavam por largas auto-estradas com destino a outras grandes metrópoles. Só aquela estrada por onde viera continuava a ser solitária.
- Uma cidade! O mar!
Correu pela cidade abaixo, com os livros a saltar dentro da sacola. Nas movimentadas ruas esteve muitas vezes prestes a ser atropelado. Passou por um local onde máquinas gigantescas carregavam e descarregavam navios como os que apareciam nas figuras dos livros da escola. Lentamente caminhou até um grande largo onde muitos homens e mulheres vendiam muitas qualidades de peixe e mariscos que nunca vira em Fornos. No centro desse largo havia uma capela onde, sobre o pórtico, com os olhos fitos no Oceano que lhe ficava em frente, duas chaves na mão esquerda e uma rede de pesca na direita, S. Pedro parecia sorrir e divertir-se com todo aquele burburinho. Ao lado da porta da capela uma placa de bronze dizia:

A S. PEDRO

GRATIDÃO DA GENTE DO MAR

MCMLXIV

O rapazito sorriu e disse baixinho:
- Oh, S. Pedro, como estou contente!
Correu para a praia e atirou-se para a areia. Pousou as madressilvas sobre a sacola, descalçou-se e correu para a água, dando espectaculares cabriolas. Pinchou, brincou, até que sentiu que os calções estavam muito chapinados. Sentiu um alívio enorme das dores musculares nas pernas e das bolhas nos pés. Pôde, enfim, brincar num local perto de água onde não houvesse cobras-de-água nem lacraus.
Sentou-se na areia, contemplando o disco vermelho do Sol a ocultar-se lentamente no Atlântico. Como era diferente do riacho de Fornos, onde quase sempre se encontrava ao crepúsculo, e onde a monotonia imperava! Como era diferente o bater das vagas na areia e nas rochas do cântico fúnebre da água na azenha do Manuel dos Moinhos!
Começou a aperceber-se que o dia ia findar e que havia que voltar para casa, pois s não chegasse à hora da ceia iria para a cama com o estômago vazio. Subiu para a rua e preparou-se para o regresso.
Mas como?
Eram outras quatro horas de caminho. Nunca là chegaria a tempo e além disso tinha medo de passar a serra de noite. As empôlas nunca o deixariam andar muito ligeiro, além do que outras novas poderiam rebentar. Queria calçar-se, mas as dores avivaram-se, fazendo-o gemer. Absorto em terríveis pensamentos, com o ramo das flores numa mão e as sandálias na outra encaminhou-se para a capela.
Ajoelhou-se na soleira da porta e pediu a S. Pedro, que tão bem o trouxera até ali,  levasse da mesma forma para casa. Depois sentou-se e pensou que talvez outra coisa pior do que uma tareia ou um jejum lhe acontecesse como castigo indirecto da sua desobediência. Sabia muito bem como sua mãe o amava e como era fanática; com certeza que se ele não aparecesse a tempo ficaria aflita e faria uma promessa, como acontecia quando algum deles se encontrava em má situação. Já se via atrás da Procissão da Senhora da Saúde, junto da mãe e da irmã, descalço como elas, passando diante dos olhares compadecidos dos conterrâneos, pelos caminhos ensaibrados por onde o préstito habitualmente passava. Temia-o porque ficou a saber quanto magoavam aquelas pedrinhas desde que um dia dissera à sua mãe que ia jogar a bola e ela lhe retorquira: "Livra-te de apareceres aqui com os sapatos rotos"; e fora jogar a bola com "sapatos de cinco pontas", que por sinal também romperam. Como era fina e suave aquela areia da praia, onde se podia brincar sem haver ferimentos nenhuns!
Nada mais restava fazer senão chorar. E chorou muito, até que uma voz se fez ouvir junto dele:
- Que tens, menino? Porque choras tanto?
Ergueu os olhos e a princípio pensou que o Santo tivesse descido do seu nicho para o consolar, mas logo reconheceu que as barbas eram as do velho capitão que aparecera no mês anterior na aldeia.
- Deixa ver donde é que eu te conheço… Ah, já me lembro. Tu não és de Fornos?
- Sou, sim, sr. Capitão.
- E que fazes aqui a estas horas, tão triste?
- Vim ver o mar. Não pude resistir mais e meti-me ao caminho. Mas agora é tarde e eu não posso andar depressa.
- Estás a ver? Se em vez de vires para aqui tivesses ido para a escola e depois fosses ajudar a tua mãe não estarias agora tão aflito. Bem te disse que esperasses pela passagem de classe.
O miúdo continuava a chorar. Francisco Cara-Linda acendeu o cachimbo e disse:
- Vamos resolver este problema. Vem comigo.
Com as sandálias desapertadas a arrastarem, o rapazito seguiu o lobo-do-mar. Entraram num café muito maior que o da Vila e dezenas de vezes mais barulhento que a taberna do Carriço em dia de Romaria. Aproximou-se de uma mesa onde quatro marinheiros jogavam as cartas com entusiasmo e perguntou:
- Eh, marujos, algum de vocês tem carro?
- Para quê o carro, Capitão?
- Para levar com toda a urgência esta criança a Fornos.
- Onde fica essa ilha, Ti' Chico? Nunca a vi assinalada em nenhuma carta.
- Não é nenhuma ilha, é uma aldeia. E que eu saiba para as ilhas vai-se de barco e não de automóvel.
- Temos muita pena, Capitão, mas nenhum de nós tem carro. Olhe! Vem aí o seu sobrinho, que talvez lhe possa valer.
Um jovem oficial  da Armada, impecável na sua farda branca, chegou-se ao grupo.
- Há algum problema, tio Chico?
- Ah, Américo, caíste mesmo do céu! Estás de folga?
- Estou, sim, tio. Precisa de mim?
- Eu não, mas este maroto precisa. Vê là tu que veio a pé, desde Fornos até aqui, para ver o mar e agora, além de ter os pés cheios de bolhas, tem medo de andar de noite. Depois são os pobres dos pais em cuidados e todas as consequências inevitáveis. Tens aí o carro?
- Tenho-o junto à capela.
-Então leva-me là o miúdo e eu pago-te a gasolina.
Ora, tio, nem pense em tal! É para já. Anda embora, menino. Vais ver o que é andar depressa.
O capitão ergueu José do Aprisco nos braços e depois abraçou-o e beijou-o com afecto. O pequeno chorou, mas desta vez de alegria.
- Nunca mais desobedeças. Imagina se não te tinha encontrado!…
- O senhor capitão é muito bom! Obrigado!
O oficial e a criança saíram do café. Como José mostrasse que caminhava com dificuldade o sobrinho do capitão levou-o nos braços até junto dum aerodinâmico carro de desporto. O povo admirou-se de ver o 1º tenente Américo Cara-Linda, comandante da vedeta que patrulhava aquele porto, levar consigo aquele menino tão pobremente vestido.
- Para que são as flores, camarada?
Ia dá-las a alguém… Oh! Espere um pouquinho, sr. Tenente. Não é tarde, pois não?
- São sete horas. Se lhe meter os cento e vinte estamos là antes da ceia.
Américo viu o pequenito atravessar o largo, de sacola ao tiracolo e com as flores na mão, e dirigir-se para a capela. José não mais ficaria distraído a olhar para os campos da Maria Couteira, pois agora já nada valiam. Olhou mais uma vez para aquelas águas onde dentro das quais ele já sabia que haviam milhares de formas de vida, e colocou na soleira do pórtico o ramo de madressilvas. Depois olhou para a imagem do Príncipe dos Apóstolos e murmurou:
- Obrigado, S. Pedro!
Voltou para junto do tenente, que o aguardava sem compreender o motivo de tal atitude. Aquela aventura seria guardada em segredo, e ouviria apenas uma descompostura por não estar em casa, se tivesse sido necessário fazer algum recado. Não faltaria, naquela noite, à Novena do mês de Maria, o que poderia implicar uma repreensão do sr. Abade quando se fosse confessar. Dali em diante seria sempre um bom filho, e pensou também que se seu pai se orgulhasse dos seus êxitos escolares o deixaria ir para a Marinha, para usar uma farda bonita como a do senhor Tenente Cara-Linda. Mesmo sem fazer nenhuma promessa complicada, como a mãe e a irmã costumavam fazer, o milagre dera-se; o automóvel atingiu os cento e vinte quilómetros horários em poucos segundos, e daí a pouco estaria em casa.
Ninguém melhor que S. Pedro merecia aquele ramo de madressilvas!


FIM

Este texto está conforme o manuscrito original, datado de 1971 - N. A.

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