QUEM SOU

sábado, 21 de janeiro de 2017

PRIMEIRAS CONSTITUIÇÕES DOS FRADES MENORES CAPUCHINHOS - 1536


EM NOME DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO COMEÇAM AS CONSTITUIÇÕES DOS FRADES MENORES CHAMADOS CAPUCHINHOS

    Para que a nossa Congregação, como a vinha do Filho de Deus, persevere na observância espiritual da Regra evangélica e seráfica, o nosso Capítulo Geral, celebrado na Cidade de Roma na nossa sede em Santa Eufémia, no ano do Senhor de 1536, julgou dever estabelecer alguns estatutos para protecção dessa Regra.
    Como a inexpugnável Torre de David, deve ter fortificações com as quais nos  poderemos defender de todos os inimigos do espírito vivo de nosso Senhor Jesus Cristo e de todos os compromissos contra o zelo mais fervoroso e seráfico do nosso Pai S. Francisco.

    Os estatutos são os seguintes:
  
    Em primeiro lugar, no que diz respeito ao primeiro capítulo da regra onde se estabelece que o justíssimo Filho de Deus nos trouxe o mais puro, celestial,  supremamente perfeito e divino ensinamento evangélico, que Ele promulgou e ensinou por meio da acção e da palavra, e só isto nos ensina e nos mostra o caminho directo para ir até Deus.
    Além disso, o Seu Eterno Pai aprovou e autenticou este ensinamento no rio Jordão e no Monte Tabor, quando disse: "Este é o meu Filho muito amado, no Qual pus toda a Minha complacência. Escutai-O".
    Portanto, todos os homens são obrigados a observar este ensinamento, especialmente os cristãos que o prometeram no sagrado Baptismo.

    E nós, frades, temos uma obrigação ainda maior, porque S. Francisco foi explícito, no início e no fim desta Regra, acerca da observância do Santo Evangelho.
    Na verdade, a Regra não é outra coisa senão a medula do Evangelho.
    Por isso diz no seu Testamento que lhe foi revelado que deveria viver de acordo com a forma do santo Evangelho.
    Portanto, para que os frades possam manter sempre diante dos olhos a doutrina e a vida do nosso Salvador Jesus Cristo, conforme o exemplo da virgem Cecília, tragam sempre no coração o Sagrado Evangelho, em cada comunidade, os quatro Evangelistas, que em reverência à Santíssima Trindade devem ser lidos três vezes por ano, isto é, um em cada mês.

"...os quatro Evangelistas... devem ser lidos três vezes por ano..."

    Dado que a Regra de S. Francisco é como um pequeno espelho que reflecte a perfeição evangélica, ordenamos que todas as sextas-feiras, em cada comunidade, a Regra seja lida com clareza e com devida reverência e devoção.
    Para que a Regra, impressa na nossa mente, possa ser melhor observada, seja
também lida aos frades alguma leitura devota, exortando-os a seguir a Cristo crucificado.  
    Os frades devem também tentar sempre falar sobre Deus, pois isso pode ajudá-los a ser realmente inflamados pelo Seu amor e assim o ensinamento do Evangelho possa dar fruto nos nossos corações.  
    Para arrancar qualquer joio que isto possa sufocar, ordenamos que em nenhuma das nossas comunidades tenha, por qualquer motivo, livros factuosos ou vãos, tão prejudiciais ao espírito de Cristo nosso Senhor e Deus.
"...a Regra seja lida com clareza e com devida reverência e devoção."
    Porque as chamas do Amor Divino se originam da luz das coisas divinas, ordenamos que haja alguma leitura das Sagradas Escrituras, explicando-as através dos santos e devotos Doutores.
    Embora a Divina Sabedoria seja insondável e elevada, desceu tanto em Cristo Nosso Salvador que, sem qualquer outro meio, os simples e os ignorantes podem compreendê-la com o olhar puro, columbino e fresco da Fé.  

    Portanto, todos os frades estão proibidos de ousar ensinar ou estudar ciências impróprias e irrelevantes, mas apenas as Sagradas Escrituras, na verdade o próprio Santíssimo Jesus Cristo, em Quem, segundo Paulo, "... estão todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento de Deus".
"...ordenamos que haja alguma leitura das Sagradas Escrituras..."
    Não foi só a vontade do nosso Pai São Francisco, mas também a de Cristo, nosso Redentor, que a Regra devesse ser observada de forma simples, literal e sem brilho, tal como a observaram os nossos primeiros e seráficos pais.
    Uma vez que a nossa Regra é muito clara, e para que possa ser observada de forma mais pura, espiritual e santa, rejeitem-se todas as glosas e explicações carnais, inúteis e comprometedoras.
    Estas desarreigam a Regra da mente piedosa, justa e santa de nosso Senhor Jesus Cristo, que falou através de S. Francisco.
    Aceitamos as declarações dos Sumos Pontífices, bem como a vida santíssima, ensinando e exemplificando o nosso Pai S. Francisco, como único comentário válido acerca da nossa Regra.



    Como verdadeiros e legítimos filhos de Cristo, nosso Pai e Senhor, nascidos de novo por Ele em S. Francisco, participamos da Sua herança.    
    Instruímos todos (os frades) a observarem o Testamento que o nosso próprio Pai S. Francisco ditou quando, marcado com os estigmas sagrados, estava perto da morte.    
    Cheio de fervor e espírito santo, ele ansiou pela nossa salvação.    
    E aceitamos este (Testamento) como uma glosa e exposição espiritual da nossa Regra desde que foi escrita, para que a prometida Regra seja observada da melhor e mais católica maneira.    
    Somos filhos do Seráfico Pai e imitamos a sua vida e ensinamentos.    
    E o nosso Salvador disse aos Hebreus: "Se sois filhos de Abraão, fazei as obras de Abraão".    
    Se somos filhos de S. Francisco, então façamos as obras de S. Francisco.        
    Portanto, ordenamos que cada frade se empenhe em imitar o nosso Pai, que nos deu como Regra, norma e exemplo, ou melhor, nosso Senhor Jesus Cristo através dele, não só na Regra e Testamento, mas em todas as suas ardentes palavras e  amorosas acções.    
    Portanto, sejam lidas frequentemente a sua vida e a de seus companheiros.
"...sejam lidas frequentemente a sua vida e a de seus companheiros."
    O nosso Pai, plenamente santo, contemplava Deus em todas as criaturas, especialmente no Homem e particularmente no cristão, mas sobretudo nos sacerdotes, especialmente no Sumo Pontífice.    
    Na terra, ele é o Vigário de Cristo nosso Senhor e a cabeça de toda a Igreja militante.  
    Portanto, de acordo com o ensinamento apostólico, e por causa do amor d' Aquele que se esvaziou por amor de nós, Francisco queria que todos os seus frades estivessem sujeitos a Deus em toda a criatura.    
    Por isso, chamou-os de Irmãos Menores, e na Igreja Militante reconhecem-se profundamente inferiores a todos os convidados para as bodas do mais santo Esposo, Jesus Cristo.    
    Procurem estar no último lugar, de acordo com o seu conselho e exemplo, considerando que a liberdade tem privilégios e isenções, não só por não estarem sujeitos aos Ordinários, mas também por não estarem próximos do orgulho, inimigo da sujeição minoritária.
    Este tipo de liberdade
perturba muitas vezes a paz e dá origem a escândalo na Igreja de Deus.    
    O humilde Cristo crucificado veio para nos servir e tornou-Se obediente até à amarga morte na cruz.    
    Embora não estivesse sujeito à lei, quis submeter-se a ela e pagar impostos e tributos enquanto era livre.    
    Assim, para melhor nos conformarmos com Ele e evitar o escândalo, o Capítulo Geral renuncia aos privilégios de ser livre e isento dos Ordinários.    
    Com o Pai Seráfico, aceitamos estar sujeitos a todos como privilégio supremo.


    Ordenamos a todos os vigários das províncias que se dirijam aos seus prelados diocesanos e ordinários, que são membros humildemente sujeitos ao Sumo Pontífice Romano, que é chefe e superior de todos.
    Para eles e para todos os seus frades, devem humildemente oferecer-lhes obediência e reverência em todas as coisas divinas e canónicas, renunciando a todo o privilégio em contrário.
    Além disso, tal como foi vontade do nosso Pai, exortamos cada frade a ter sempre a devida reverência para com todos os sacerdotes.
     Exortamos também os frades a obedecer sempre, com toda a reverência possível, ao Sumo Pontífice, pai de todos os cristãos, e a obedecer a todos os prelados de facto a toda criatura que nos mostraria o caminho de Deus; sabendo que quanto mais baixa for a pessoa a quem obedeçam pelo amor do Senhor Jesus Cristo, mais gloriosa e agradável a Deus é a obediência.



    Também instruímos os frades a serem submissos não só aos Vigários, Custódios  e Guardiões, mas também determinamos que, quando o Padre Vigário Geral for eleito, ele se apresente humildemente ou notifique o Reverendo Padre Geral dos Conventuais, por quem deve ser confirmado.
    Para evitar privilégios semelhantes, o Pai S. Francisco ordenou aos frades, no seu Testamento, que não peçam nenhuma carta da Cúria Romana por causa da perseguição aos seus corpos.
    Portanto, o Capítulo Geral renuncia a todos os privilégios que relaxam a Regra e se conformam com a sensualidade, e assim afrouxam o caminho do espírito.




QUANTO AO SEGUNDO CAPÍTULO
  
    Desejamos que a nossa congregação cresça muito mais em virtude, perfeição e espírito do que em números e sabemos como verdade infalível que: "Muitos são chamados, mas poucos são escolhidos".
    E o Pai Seráfico, quando perto da morte, disse: "Nada prejudica
tanto a pura observância da Regra quanto uma multidão de frades inúteis, carnais e brutais".
    Daí instruímos os Vigários a examinar diligentemente as suas condições e a sua qualidade, e não receber aqueles que não demonstrem ter a melhor intenção e a mais fervorosa vontade.
    Além disso, para não atrair as atenções e evitar todo o escândalo, proibimos a recepção aos que não completaram dezasseis anos, ou que ainda têm um rosto infantil, se tiverem passado esses dezasseis anos, para que se saiba, através desta  experiência, o que prometem.


    
    Também ordenamos que ninguém seja recebido como clérigo, a menos que seja devidamente proficiente em letras, para que não falhe ao celebrar os louvores divinos.  
    Pelo contrário, entendendo-se o que diz, pode fomentar esses louvores.


    Também determinamos que aqueles que serão recebidos nesta vida, antes de serem investidos, durante alguns dias devem experimentar, nas nossas comunidades, tudo o que os frades devem observar.    
    Desta forma, pode ser observada a sua boa vontade e podem assumir tal empresa  com maior luz, maturidade e deliberação.    
    Isto também se aplica aos religiosos que desejem seguir a nossa vida.    
    Para melhor isto observar, ordenamos aos Vigários que não recebam ninguém sem o conselho e consentimento da maioria dos frades da comunidade.    
    Cristo, o mais sábio Mestre, impôs ao jovem que demonstrou ser seu desejo ser salvo, que se quisesse ser Seu discípulo, deveria primeiro vender tudo o que tinha e dar aos pobres, e só então segui-Lo.    
    E Francisco, o imitador de Cristo, não só observou isto, mas também o ensinou com o próprio exemplo e com o daqueles a quem recebeu.    
    Consequentemente, também o impôs na Regra.    
    Para nos conformarmos com Cristo, nosso Salvador, e com a vontade do Pai Seráfico, ordenamos, portanto, que ninguém seja investido, a menos que primeiro, se puder, distribua tudo o que é dele aos pobres, como é próprio daquele que voluntàriamente escolhe a vida mendicante.    
    Ao fazer isto, o seu espírito fervoroso ou tépido pode ser parcialmente evidente, e então será capaz de servir a Deus com firmeza e com a maior serenidade.    
    Como não têm ocasião de envolver-se com negócios, os frades permanecem imparcialmente na sua santa paz.    
    Também determinamos que as roupas dos noviços que vêm do mundo devam ser mantidas até o dia da profissão, e as de religiosos por alguns dias.    
    Quanto aos seculares que perseveram, que dêem as roupas aos pobres.    
    As roupas dos religiosos devem ser distribuídas pelos Vigários Provinciais, directamente ou através de uma pessoa espiritual.


    De modo que o que o Santíssimo Cristo disse aos escribas e fariseus não seja dirigido a nós: "Ai de vós que andais no mar e em terra para fazer um único prosélito e depois torná-lo filho da Geenna, muito pior do que vós", determinamos que os noviços de cada província sejam colocados numa ou duas comunidades. 
    Este espírito ser-lhes-á atribuído pelo Capítulo.    
    Os Mestres de Noviços sejam escohidos entre os mais maduros, auto-disciplinados e iluminados no caminho para Deus.    
    Que eles cuidem diligentemente de lhes ensinar não só as cerimónias, mas também as coisas do espírito, as coisas necessárias para imitar perfeitamente a Cristo, nossa Luz, Caminho, Verdade e Vida.  
    Por exemplos e palavras devem mostrar aos noviços o que compõe a vida do cristão e do Frade Menor.    
    Ninguém deve ser aceite à profissão sem que primeiro demonstre perfeitamente o que deve professar e observar.    
    Para sermos fortalecidos no espírito em paz, ordenamos que ninguém lhes fale, excepto o Padre Guardião e o Mestre.    
    Além disso, não deixem ninguém entrar nas suas celas ou nas celas de outros sem autorização especial.
  

     Para que os noviços aprendam a tomar melhor o jugo do Senhor, ordenamos que permaneçam sob a disciplina do Mestre durante, pelo menos, três anos após a profissão, para que não percam fàcilmente o espírito recém-adquirido.
    Mantendo-se assim sempre consolidados, continuem a estabelecer-se e fundamentar-se mais no amor de Cristo, nosso Senhor e Deus.
    De acordo com alguns doutores, quando os noviços fazem a profissão de maneira adequada, são restaurados na inocência baptismal.
    Instruimos que, antes da profissão, os noviços se devam preparar com grande diligência, com confissão, comunhão e muita oração, fazendo uma confissão geral à entrada da Ordem, para se revestirem do homem novo.
   
Ao receber os referidos noviços, tanto na Ordem como à profissão. devem ser observadas as práticas e cerimónias utilizadas e aprovadas na mesma nossa Ordem.
"...devem ser observadas as práticas e cerimónias utilizadas e aprovadas na mesma nossa Ordem."

    Não foi sem razão que Jesus elogiou a austeridade de S. João Baptista quando disse que "...aqueles que se vestem de roupas finas estão nas casas dos Reis".        
    Portanto, instruímos os frades, que escolheram ser abjectos na casa de Deus, a vestirem-se do mais pobre, mais áspero, mais abjecto, austero e inútil pano que se encontre nas províncias onde estão.    
    Que os frades se lembrem de que o saco com que S. Francisco queria que se revestissem e as cordas com que se cingissem não conviessem aos ricos do Mundo.    
    O Capítulo Geral exorta também todos os frades a contentarem-se com um único hábito, sempre que possível, tal como S. Francisco especificou no seu Testamento, para si e para os seus frades. quando disse: "E contentemo-nos com uma túnica, remendada por dentro e por fora."    
    No entanto, se os frades forem fracos em corpo ou espírito, ser-lhes-á permitida uma segunda túnica,  de acordo com a Regra.    
    A segunda túnica e o manto não devem ser concedidos aos frades senão quando  for necessário, e não sem a autorização do Superior, reconhecendo que um frade saudável que usa três peças de roupa é sinal evidente de espírito apagado.
"...a austeridade de S. João Baptista..."

    Para que a pobreza tão amada pelo Filho de Deus e concedida pelo Seráfico Pai como nossa mãe possa brilhar em tudo o que usamos, determinamos que os mantos não vão além das extremidades das mãos nem tenham capuz, excepto em viagem.  
    Estes não devem ser usados, excepto quando necessário.    
    O comprimento do hábito não deve ir abaixo do tornozelo e ter onze palmos de largura, doze para os corpulentos.    
    As mangas não devem ser mais largas do que o necessário para permitir que o braço entre e saia.    
    Devem ter o suficiente para chegar abaixo da mão, ou um pouco mais.    
    As bragas devem ser curtas e grossas, ter oito ou nove palmos de largura e serem pelo menos metade de um palmo mais curtas do que o hábito.    
    O capuz será quadrado, como o de S. Francisco e dos seus companheiros, tal como vemos nas relíquias que ainda perduram.    
    Este capuz também é óbvio nas imagens antigas.    
    Nas Conformidades também está escrito como deve ser o nosso hábito, em forma de uma cruz, para que nos vejamos crucificados para o Mundo e o Mundo para nós.        
    Que o cordão dos frades seja da corda mais pobre, grosseira e não refinada, com nós muito simples.    
    Então, desprezados pelo mundo, teremos oportunidade de nos mortificarmos mais.    
    Que os frades não usem "birettas", chapéus ou duas de quaisquer coisas, nem coisas supérfluas.    
    Em cada uma das nossas comunidades também deve haver uma pequena sala onde a roupa das mesmas seja conservada por um frade dela encarregado.    
    Este conservará as roupas limpas e remendadas, segundo a necessidade dos frades pobres, que as usarão de acordo com a sua necessidade e as tornarão  puras com acções de graças.






Hábito de Frade Menor Capuchinho.

    Para que as nossas camas sejam semelhantes àquela em que morreu Aquele que disse: "As raposas têm as suas tocas e as aves do céu os seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde descansar a cabeça", e estarmos ainda mais vigilantes nas habituais orações e mais conformes com o nosso Pai S. Francisco, cuja cama era a terra nua, e a Cristo, o Santo dos Santos, especialmente no deserto, ordenamos aos frades, a menos que já estejam doentes ou muito fracos, que não durmam sobre outra coisa senão tábuas nuas, esteiras, giestas, fetos ou num pouco de palha ou feno.
    Não os deixar dormir com cobertores.

"As raposas têm as suas tocas e as aves do céu os seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde descansar a cabeça"

    A exemplo de Cristo, instruímos os frades jovens, e todos os que puderem, a andarem descalços, como sinal de humildade e testemunho de pobreza, e como mortificação da sensualidade e bom exemplo para o próximo.
"...instruímos os frades jovens, e todos os que puderem, a andarem descalços..."

    Se eles não o puderem fazer, com autorização do Superior calcem sandálias, de acordo com o ensinamento do Evangelho e à imitação dos nossos primeiros padres.
    Estas sandálias devem ser simples, rasas e naturais, sem qualquer adorno.


"Estas sandálias devem ser simples, rasas e naturais, sem qualquer adorno."
    Para que os frades possam elevar-se ao epítome da mais alta Pobreza, rainha e mãe de todas as virtudes, esposa de Cristo nosso Senhor e do nosso Seráfico Pai, e nossa mãe também, exortamos todos os frades a não terem afeição terrena, mas que o seu amor esteja sempre no Céu.
    Quase que como sob coacção, deixem-nos usar as coisas humildes tão pouco quanto a fragilidade humana o permita.
    Considerando-se enriquecidos pela sua pobreza, sejam os frades felizes com um pequeno livro espiritual, de preferência sobre Cristo crucificado, assim como dois lenços e dois pares de bragas.
    Que sempre se lembrem que, de acordo com o Seráfico Pai, o frade menor não deve ser senão um espelho de todas as virtudes, especialmente da Pobreza.

"...sejam os frades felizes com um pequeno livro espiritual, de preferência sobre Cristo crucificado..."
    Para que possamos andar mais prontamente pelo caminho dos preceitos divinos, determinamos que não hajam bestas em nenhuma das nossas comunidades, nem os frades devem montar a cavalo.
    Em caso de necessidade, no entanto, de acordo com os exemplos de Cristo e Francisco, Seu imitador, podem montar um jumento, para que a nossa vida sempre assim  pregue o humilde Cristo.
    A cada vinte dias ou uma vez por mês faça-se a tonsura, à tesoura.
    Não hajam bacias, mas sòmente uma navalha para sangria.
    A exemplo de Cristo Santíssimo e de todos os nossos primeiros santos, usem barba, porque é viril, natural, áspera, desprezível e austera.
"...usem barba, porque é viril, natural, áspera, desprezível e austera."

SOBRE O TERCEIRO CAPÍTULO

    O nosso Seráfico Pai, totalmente católico, apostólico e divino, teve sempre uma reverência especial para com a Igreja Romana, como juiz e mãe de todas as outras igrejas.
    Na Regra, ordenou aos clérigos que recitassem o Ofício de acordo com a ordem da Santa Igreja Romana, e no seu Testamento proibiu alterar isto sob qualquer pretexto.
    Portanto, determinamos que os frades, unidos em espírito sob o mesmo padrão e chamados a um propósito nos louvores divinos, observem os mesmos ritos tanto quanto possível, de acordo com o Missal, o Breviário e o calendário que a Santa Igreja Romana observa e usa.
    Que tanto clérigos como leigos recitem os cinco Ofícios de Defuntos, de acordo com o que está no calendário.
    Os clérigos e sacerdotes menos alfabetizados devem preparar o que têm de ler publicamente na Missa e no Ofício Divino, para não desconcertar aqueles que ouvem, ofendendo as coisas divinas, nem indignando contra si mesmos os santos anjos que estão presentes nos louvores divinos.
"...ordenou aos clérigos que recitassem o Ofício..."
    Tanto nas Missas como no Ofício Divino nada seja pronunciado senão o que está nos Missais e Breviários, e com o devido cerimonial.    
    Além disso, exortamos os frades sacerdotes a que, quando celebram, não tenham a atenção focada no favor na e glória humanos, ou em qualquer coisa temporal.    Com um coração simples e puro considerem a honra divina, celebrando apenas por caridade e com humilde reverência, fé e devoção.    
    Prepararem-se tanto quanto a fragilidade humana o permita, porque será amaldiçoado aquele que pratica descuidadamente as obras de Deus.    
    Uma vez que essa acção é divina e acima de todos as outras, é supremamente desagradável se for feita irreverentemente.    
    Não devem querer receber uma recompensa terrena por celebrar, mas sigam o exemplo de Cristo, o Sumo Sacerdote que, sem qualquer recompensa dos Seus, se ofereceu por nós na cruz.    
    Pelo contrário, devem saber que, por causa disso, aumenta a obrigação para com Deus.    
    Exortamos os outros frades, que estejam presentes com os sacerdotes a celebrar os Mistérios Divinos, a que os assistam na presença de Deus com suprema reverência e mente angélica.    
    Celebrem espiritualmente e recebam a Comunhão, oferecendo a Deus este muito  agradável Sacrifício.    
    Celebrar é algo de suprema importância.    
    Portanto, determinamos que nenhum clérigo seja ordenado sacerdote se não tiver atingido a idade de vinte e quatro anos, como exigem as normas canónicas.    
    Os ordenados devem abster-se de celebrar até que tenham atingido essa idade.    Também determinamos que nenhum clérigo seja promovido ao sacerdócio se, além de um bom espírito, não tiver inteligência média para poder saber como bem  pronunciar e entender as palavras que pronuncia quando celebra.    
    Em todas as Missas e orações lembrem-se dos benfeitores, orando a Deus para que os recompense abundantemente nesta vida e na vida futura.    
    Determinamos que os clérigos e sacerdotes não legìtimamente impedidos que se reunam o mais rápido possível no coro ao primeiro som da sineta, a fim de preparar os corações para o Senhor.    
    Lá, com devoção, lembrança, mortificação, e silêncio, lembrem-se que estão diante de Deus, onde devem assumir o ofício angélico de entoar os louvores divinos.
"Tanto nas Missas como no Ofício Divino nada seja pronunciado senão o que está nos Missais e Breviários, e com o devido cerimonial."
    Também instruímos que o Ofício seja recitado com devida devoção, atenção, maturidade, uniformidade de voz e em harmonia com o espírito, sem floreios ou distraìdamente, e com a voz nem muito alta nem muito baixa, mas média.
    Os frades devem esforçar-se por cantar salmos a Deus mais com o coração do que com a boca, para que o nosso justo Salvador não diga de nós o que disse dos Hebreus: "Este povo honra-Me com os lábios, mas o seu coração está longe de Mim".
    Determinamos que os frades leigos se reúnam no começo das Matinas, Vésperas e Completas, e no "Te Deum laudamus".
    Depois de fazerem a preparação em comum podem retirar-se para um lugar de acordo com a sua devoção, enquanto o Ofício começa, e rezar os Pai-Nossos, como a Regra lhes impõe.
"...que o Ofício seja recitado com devida devoção..."



    Também determinamos que em todas as festas os frades leigos e clérigos não impedidos por justa razão se reúnam para as Vésperas e para todas as Missas que puderem.
"...em todas as festas os frades leigos e clérigos...
se reúnam para as Vésperas e para todas as Missas..."


    Para evitar o que possa ofender a maior pobreza, a quietude espiritual e a humildade tranquila; e para preservar a paz com os outros clérigos e sacerdotes, e para evitar toda a impureza, que com o tempo poderia manchar a nossa congregação, também determinamos que os defuntos não sejam sepultados nas  nossas comunidades, a menos que se trate de alguém que, por causa da sua pobreza, não tenha ninguém que o enterre.
    Nesse caso, as profundezas da caridade devem ser abertas.    

    Fora disso, os enterramentos de seculares e até mesmo dos nossos frades são proibidos nas nossas comunidades.    
    Em verdade, não queremos isto nas nossas igrejas, que devem estar completamente impecáveis, por causa da presença de Cristo mais que imaculado.        
    No entanto, sejam os defuntos sepultados num lugar adequado, perto da igreja, ou mesmo no claustro.
"...sejam os defuntos sepultados num lugar adequado, perto da igreja..."
    Quando os frades visitarem os doentes, devem abster-se de persuadi-los a serem sepultados nas nossas comunidades.    
    Se os doentes isso quiserem, os frades não devem de forma alguma consenti-lo.      
    Porque isto é algo novo, e para que não seja ocasião de escândalo para os que não sabem as razões sólidas para tal impedimento, os doentes devem ser informados de tais razões e ajudados a compreendê-las.    
    Quando um dos nossos frades falecer, os outros esforçar-se-ão por recomendar a Deus a sua alma, com piedosa caridade.    
    Cada sacerdote da província onde o frade faleceu deverá celebrar uma Missa por ele.    
    Os clérigos devem recitar a Vigília de nove leituras, e os frades leigos cem Pai-Nossos.    
    Que também cada padre celebre semanalmente uma Missa por todos os nossos frades falecidos.
"Quando um dos nossos frades falecer, os outros esforçar-se-ão por recomendar a Deus a sua alma..."




    Como a oração é o mestre espiritual dos frades, e para que o espírito de devoção neles não arrefeça, mas arda contìnuamente e cada vez mais intensamente no altar do coração, e como o Seráfico Pai desejou que o verdadeiro frade espiritual orasse sempre, sejam designados dois momentos especiais para a oração pelos tíbios.
    Um será após as Completas, durante todo o ano.    
    Desde a Páscoa até à Exaltação da Santa Cruz, a outra hora será imediatamente depois de Noa, excepto em dias de jejum, ou depois de Matinas, entre a Exaltação da Santa Cruz e a Páscoa.    
    Que os Frades se lembrem que a oração não é outra coisa senão falar a Deus com o coração.    
    Portanto, aquele que fala com Deus sòmente com a boca não está a orar.    
    Logo, cada um deve esforçar-se por fazer oração mental e, de acordo com o ensinamento de Cristo, o melhor Mestre, adore o Pai em espírito e em verdade.             
    Cada frade deve cuidar diligentemente de iluminar a mente e inflamar a afeição, mais do que proferir palavras.    
    Antes da oração, após Noa ou Matinas - ou em dias de jejum, depois de Sexta - devem ser recitadas as Litanias, invocando todos os santos, para que roguem a Deus connosco e por nós.    
    Nenhum outro ofício pode ser acrescentado ao coro, excepto o de Nossa Senhora, a fim de que que os frades tenham mais tempo para orações mentais particulares, muito mais frutíferas que as orações vocais.
"...cada um deve esforçar-se por fazer oração mental..."
    Como o nosso Pai queria que houvesse uma reverência especial para com o Sumo Pontífice, Vigário de Cristo nosso Deus, e da mesma forma para com todos os prelados e sacerdotes, instruímos cada frade a que, além das orações em comum, na oração particular rezem à Divina Bondade pelo feliz estado da Igreja militante, para que a graça lhe seja efectivamente dada a conhecer com clareza, e para que opere poderosamente tudo aquilo que for para honra e glória de Sua Divina Majestade, para a saúde do povo cristão e para a conversão dos infiéis.
    O mesmo se aplica em relação a todos os reverendos cardeais, bispos e prelados sujeitos ao Sumo Pontífice, ao sereníssimo imperador, a todos os reis e príncipes cristãos e a todas as pessoas, especialmente àquelas a quem somos obrigados.
    Também determinamos que os cinco ofícios pelos benfeitores sejam celebrados  de acordo com o calendário, como acima já foi dito.

"...os cinco ofícios pelos benfeitores sejam celebrados  de acordo com o calendário..."
    O silêncio é o guardião do espírito adquirido.
    De acordo com S. Tiago, é fútil a religião de quem não controla a língua.
    Portanto, ordenamos que
seja observado o silêncio evangélico, na medida em que a nossa fragilidade humana o possa suportar, cientes de que Jesus Cristo, a Verdade infalível, disse que teremos de explicar cada palavra ociosa.
    Tal é a infusão das coisas divinas que,
para um frade dedicado ao culto divino, não é pequeno erro falar sobre as coisas do Mundo com a sua boca consagrada.
"O silêncio é o guardião do espírito adquirido."
    Seja o silêncio regular, na igreja, no claustro e no dormitório.
    No refeitório, no entanto, desde o primeiro sinal na mesa até à Acção de Graças, e, em todas as outras ocasiões, desde as Completas até ao toque para Prima.
    E, desde a Páscoa até a Exaltação da Santa Cruz, seja dado o sinal de silêncio desde o fim de Sexta terminar Noa.
    Quem quebrar o silêncio diga cinco Pai-Nossos e cinco Avé-Marias no refeitório,  com os braços estendidos em forma de cruz.
    Os frades devem esforçar-se por falar com Deus, sempre e em todos os lugares, com voz humilde e submissa, modéstia e caridade.

"Seja o silêncio regular... No refeitório..."
    Além disso, ordenamos aos frades que não andem sòzinhos, mas com um companheiro, segundo o exemplo dos santos discípulos do Santíssimo Salvador.
    Se alguém não se corrigir com correcção evangélica, os frades devem denunciá-lo  aos superiores.
    Nem podem ausentar-se ir sem autorização escrita do superior, selada com o selo do Padre Vigário ou da comunidade.
   Portanto, ordenamos que cada comunidade tenha selo próprio, de acordo com a antiga prática dos Religiosos.
  
Os frades não devem, ao longo do dia, separar-se nem discutir.
   Com toda humildade e caridade, a exemplo de Cristo Bendito, cada um deve esforçar-se por obedecer espiritualmente e servir o companheiro, considerando-se como irmãos em Cristo.

"...ordenamos aos frades que não andem sòzinhos, mas com um companheiro..."
    No seu Testamento S. Francisco afirma que lhe foi revelado pelo Senhor que, quando cumprimentamos as pessoas, devemos dizer: "O Senhor te dê a Paz".
    Instruímos os frades, portanto, a usarem sempre esta saudação evangélica.
"O Senhor te dê a Paz"
    Porque os verdadeiros frades, de Fé viva, devem depender do bondoso Pai, supremamente bom e celestial, ordenamos que pelo caminho não levem cantil, carne, ovos nem outros alimentos delicados ou finos.
    Deste modo abandonem-se todos aos cuidados de Deus, que alimenta não só os animais, mas até mesmo os que sempre O ofendem. 

    Os frades não devem parar para dormir ou comer nas cidades ou castelos perto das nossas comunidades, a menos que haja grande necessidade.
"...pelo caminho não levem cantil, carne, ovos nem outros alimentos delicados ou finos..."
    Considerando que quem gosta das festividades do Mundo é fàcilmente contaminado, instruímos os frades a não comparecerem em tais festas, a menos que preguem a Palavra de Deus, a exemplo de Cristo, nosso único Mestre.
    Quando convidado para a festa não quis aceitar, mas foi lá mais tarde para pregar.

    Lembrando que, de acordo com o apóstolo Paulo, eles se tornaram um espectáculo diante de Deus, dos anjos e dos homens do Mundo, os frades devem esforçar-se por dar o exemplo pelo qual Deus pode ser glorificado e não blasfemado.
    Porque a abstinência, a austeridade e o rigor são altamente louvados nos santos; e como escolhemos viver uma vida dura segundo o exemplo de Cristo nosso Senhor e de S. Francisco, exortamos os frades a fazerem as santas Quaresmas que o mesmo S. Francisco costumava fazer, embora o frade penitente jejue sempre.
    Os frades não devem comer de modo excessivo nem supérfluo, nem mesmo refeições comuns. 

    Não devem comer carne às quartas-feiras.
"Os frades não devem comer de modo excessivo nem supérfluo, nem mesmo refeições comuns."
    Para pôr fim à insaciabilidade do estômago, deve apenas ser servido à mesa um tipo de sopa. 
    Durante os tempos de jejum deve ser adicionado um prato cozido ou não cozido.        
    Que os frades se lembrem de que uma pequena quantidade é suficiente para satisfazer a necessidade e que nada satisfaça a sensualidade. 
    De acordo com o ensinamento do nosso santíssimo Salvador, para que os corações não sejam sobrecarregados ​​pela gula e pela embriaguez,  e para que as mentes estejam sintonizadas e os sentidos mortificados, instruímos que não seja posto sobre a mesa nenhum vinho sem primeiro estar bem aguado.
    Além disso, tal deve ser considerado como um prazer sensual, dado que, de acordo com o seráfico S. Boaventura, o Pai S. Francisco não ousou beber água fria suficiente para mitigar o ardor da sede. 
    S. Francisco costumava dizer que é difícil satisfazer a necessidade sem obedecer à auto-desculpa. 
    Isto será agradável para os frades, se eles se lembrarem que foi negada água a Cristo, na Cruz, e Lhe foi dado vinho com mirra ou vinagre com fel. 
    No seu tempo, S. Jerónimo escreveu que era considerado como depravação, mesmo para os monges enfermos, beber água fria ou comer algo cozido. 
    Assim, determinamos que não seja feito para ninguém nenhum prato especial, excepto para os enfermos, para os viajantes e para os velho ou muito fracos, tal como exige a caridade. 
    Se algum frade se quiser abster de vinho, carne, ovos e outros alimentos, ou jejuar mais frequentemente, o Superior não o poderá impedir, desde que veja que o frade não será prejudicado por demasiado jejum. 
    Pelo contrário, o Superior incentive-o a continuar, desde que o frade coma juntamente com os outros.
    Como sinal de pobreza, não devem ser usadas toalhas de mesa, excepto um simples guardanapo por frade. 
    Determinamos que seja sempre lida à mesa uma leitura espiritual, de modo que não só o corpo possa ser alimentado, mas também o espírito, e muito mais.
"...deve apenas ser servido à mesa um tipo de sopa."
    Determinamos aos frades que não peçam nem recebam iguarias, impróprias para o nosso estado.    
    Além disso, não pode ser usadas especiarias, excepto quando necessárias aos enfermos.     
    Deve ser-lhes mostrada toda a caridade possível, tal como ordena a Regra e todos os Mandamentos da justa Lei, e de acordo com o exemplo do Pai Seráfico, que não se envergonhava de procurar publicamente carne para os enfermos.    
    Se for trazida alguma comida supérflua, rejeitem-na os frades, enquanto humildemente agradecem aos doadores.    
    Ou, com o seu consentimento, distribuam-na pelos pobres.    
    E porque alguns dos antigos patriarcas, pela sua hospitalidade, mereceram receber Anjos, ordenamos que em cada comunidade seja um frade designado para cuidar diligentemente de receber convidados com toda a caridade possível.    
    De acordo também com o exemplo do humilde Filho de Deus, estes frades lavarão os pés dos convidados, enquanto todos os outros frades se reúnem para esse acto de caridade.    
    Durante a lavagem dos pés, os frades cantarão um hino devoto ou um salmo.            
    Embora nos consideremos sempre servos inúteis, façamos, no entanto, tudo o que nos for possível.
"...estes frades lavarão os pés dos convidados..."
    Para que nossos corpos não desafiem o espírito, mas a ele sejam completamente obedientes, e lembrando a Paixão mais cruel do nosso Justíssimo Salvador, especialmente a agonia da flagelação, ordenamos as costumeiras disciplinas, ou seja, às segundas, quartas e sextas-feiras, e nunca sejam omitidas, mesmo em grandes solenidades.
    Devem ter lugar depois das Matinas.
    No entanto, quando estiver muito frio no, devem ser praticadas ao fim da tarde.
    Durante a Semana Santa pratiquem-se todas as noites.
    Enquanto se disciplinam, com um coração devoto, os frades pensem no justo Cristo, Filho de Deus, amarrado à coluna.
    Esforcem-se por sentir uma pequena parte da Sua aguda dor.
    Depois da Salvé-Rainha devem ser recitadas cinco orações devotas.
"...ordenamos as costumeiras disciplinas..."
QUANTO AO QUARTO CAPÍTULO

    O Pai S. Francisco sabia que, de acordo com o ensinamento dos Apóstolos, a cupidez é a raiz de todo mal.    
    Querendo erradicá-la dos corações dos seus filhos, ordenou aos frades que, segundo a Regra, não recebessem moedas ou qualquer dinheiro, nem eles próprios nem através de um intermediário.
    Repete-o três vezes na Regra, para melhor impressionar as mentes dos frades e  estar muito próximo dos seus corações.    

    E Cristo nosso Senhor disse: "Guarda-te de toda avareza".    
    Portanto, desejando satisfazer total e plenamente a piedosa intenção e a memória  do nosso Pai, inspirados pelo Espírito Santo, ordenamos aos frades que não tenham qualquer tipo de agente, procurador ou qualquer pessoa na Terra - qualquer que seja o título concedido a essa pessoa - que possa manter ou receber dinheiro ou moedas para os próprios frades; nem com a sua insistência, pedido ou petição, nem em seu nome, nem por causa de qualquer deferência para com eles, nem por qualquer motivo.    
    Em vez disso, seja Jesus Cristo nosso Deus o nosso procurador e defensor, e Sua formosa Mãe a nossa advogada e defensora.    
    Que todos os anjos e santos sejam nossos amigos espirituais.
"...seja... Sua formosa Mãe a nossa advogada e defensora."
    Porque a mais alta pobreza era a amada Esposa de Cristo, Filho de Deus, e do Pai S. Francisco, Seu humilde servo, os frades devem ter em mente que ela não pode ser violada sem desagradar extremamente a Deus.    
    Aquele que ofende a pobreza ofende a menina dos Seus olhos.    
    O Seráfico pai estava acostumado a dizer que os verdadeiros frades não deveriam valorizar o dinheiro e as moedas mais do que o pó.    
    Deveriam fugir deles e considerá-los, com terror, como uma serpente venenosa.    Quando alguns frades ficaram frouxos de espírito ao receberem legados, heranças e esmolas supérfluas, e abandonaram esta pérola evangélica, aquele Pai piedoso e zeloso chorou muitas vezes por causa da sua condenação.    
    Ele dizia que o frade que tinha maior respeito pelo dinheiro do que pela lama estava próximo da perdição.    
    A experiência pode demonstrar isto a qualquer um.    
    Assim que um frade afasta a pobreza para longe de si mesmo, cai em qualquer outro tipo de enorme vício.    
    Portanto, segundo o exemplo do Salvador do Mundo e de Sua amada Mãe, os frades devem esforçar-se por serem pobres nas coisas do Mundo, para que sejam ricos em Graça Divina, nas santas virtudes e nas riquezas celestiais.    
    Acima de tudo, ao visitar alguém doente, os frades devem abster-se de encorajar os doentes, directa ou indirectamente, a deixar-nos qualquer coisa temporal.    
    Em vez disso, quando os enfermos quiserem isso, os frades não devem concordar, mas recusar tão justamente quanto possível, tendo em mente que a riqueza e a pobreza não podem ser possuídos em conjunto.    
    Não podem ser aceites legados.    
    Assim, para possuir com mais segurança o precioso tesouro da pobreza, ordenamos que não haja recurso aos amigos espirituais, mesmo para as coisas necessárias, quando é possível tê-los oportunamente de outra maneira permitida na Regra.
"...ao visitar alguém doente, os frades devem abster-se de encorajar os doentes, directa ou indirectamente, a deixar-nos qualquer coisa temporal."
    E para que possamos ser menos um fardo para nossos amigos, nenhum frade pode ter qualquer coisa de preço elevado, comprado ou pago sem a permissão do Padre Vigário Provincial.
    No entanto,
é permitido o recurso a amigos para coisas verdadeiramente necessárias e que não podem ser tidas de qualquer outra forma, mas sempre com a  autorização dos superiores, de maneira que, para cada pedido, haja sempre uma real  necessidade e a respectiva autorização.
    
    Para vivermos no espírito, desde que fomos chamados a esta vida que mortifica o nosso homem externo, exortamos os frades a acostumarem-se a sofrer a falta das coisas do Mundo, seguindo o exemplo de Cristo que, sendo Senhor de todos, escolheu ser pobre e sofrer por nós.
"...sendo Senhor de todos, escolheu ser pobre e sofrer por nós."
    Que os frades se defendam do demónio do meio-dia, que se transforma em Anjo da luz. 
    Acontece isto quando o Mundo nos é devotado, nos aplaude, celebra para nos honrar e nos dá as suas riquezas, que muitas vezes têm sido a causa de muitos males na Religião.
    Os frades não devem querer ser aqueles falsos pobres sobre quem S. Bernardo fala.  

    Há alguns pobres que desejam ser pobres de tal maneira que não querem nada.
S. Bernardo



CAPÍTULO CINCO


    Dado que Deus é o nosso objectivo final de Quem todos deveriam cuidar e desejar ver-se transformado n' Ele, exortamos todos os frades a dirigirem todos os seus pensamentos para tal.
    Com todo o impulso de amor possível, concentramos todas as nossas intenções e desejamos unir-nos
supremamente ao nosso bom Pai com todo o nosso coração, pensamento e alma, com a nossa força e virtude, com amor real, contínuo, intenso e puro.
"...desejamos unir-nos supremamente ao nosso bom Pai..."
    Como um fim não é alcançado sem um meio, cada um deve esforçar-se, portanto, por deixar de lado tudo o que é nocivo e pernicioso que nos afasta de Deus ou nos  bloqueia o caminho para Ele.
    Embora não se preocupem com coisas estranhas, os frades escolham o que é útil ou necessário para ir até Deus e escolher nisso o que for mais útil, como a maior pobreza, a mais pura castidade e a mais humilde obediência, bem como as outras virtudes do Evangelho ensinado pelo Filho de Deus por meio da palavra e do exemplo, por Si mesmo e pelos Seus santos.

 
"...deixar de lado tudo o que é nocivo e pernicioso que nos afasta de Deus ou nos  bloqueia o caminho para Ele."

    No entanto, é difícil para o Homem permanecer sempre voltado para Deus, e para evitar o ócio, raiz de todo o mal, e para bom exemplo ao nosso próximo e sermos menos um fardo para o Mundo, a exemplo do Apóstolo Paulo, que trabalhava enquanto pregava, assim como outros santos, e a fim de observar a advertência dada na Regra do Pai S. Francisco e o conformarmos com a sua vontade expressa no seu Testamento, fica decidido que, quando os frades não estiverem ocupados em exercícios espirituais, devem trabalhar manualmente nalguma actividade apropriada.    
    No entanto, não devem descurar, na medida em que a fragilidade humana o permita, ocupar esse tempo com alguma meditação espiritual.    
    Portanto, instruímos que, enquanto o trabalho está a ser feito, os frades falem sempre de Deus ou leiam algum livro devoto.    
    E que os frades não cuidem de terminar o trabalho, nem de atribuir o afecto a esse trabalho, nem sejam absorvidos por ele, para que não extingam, diminuam ou retardem o espírito, a que tudo deve servir.    
    No entanto, embora sempre com os olhos abertos a Deus, andem pelo caminho mais alto e mais curto.    
    Assim, o trabalho dado ao homem por Deus, aceite e elogiado pelos santos, a fim de manter a devoção do espírito, não pode ser para eles ocasião de distracção ou de negligência.    
    Por outro lado, que cada frade tenha em mente que a Pobreza Evangélica consiste em não ter afeição por qualquer coisa terrena; em usar estas coisas do Mundo com moderação, como se fosse obrigado a fazê-lo por necessidade e para a glória de Deus, que deve ser reconhecido por tudo; e dando aos pobres o que resta, para glória da pobreza.    
    Que os frades também se lembrem que estamos numa estalagem e comemos os pecados do povo.    
    No entanto, teremos de dar contas de tudo.
"... os frades..., devem trabalhar manualmente nalguma actividade apropriada."   
    Como diz o devoto S. Bernardo: "Nada é mais precioso que o tempo, e nada hoje é considerado tão inútil", o mesmo S. Bernardo também diz que Deus nos examinará cuidadosamente sobre como passamos todo o tempo que nos foi concedido.
    Por isso, exortamos todos os nossos irmãos a nunca estarem ociosos, nem gastar o tempo em coisas de pouca ou nenhuma utilidade, nem em palavras vãs ou inúteis.
    Lembrem-se sempre do terrível julgamento da verdade infalível: no Dia do Juízo, teremos de explicar a razão de cada palavra ociosa. 

    Em vez disso, passem todo o tempo em actividades espirituais ou físicas dignas de louvor, apropriadas e úteis para a Honra e Glória da Majestade Divina, e dando bom exemplo e edificação ao nosso próximo, assim como aos nossos irmãos, religiosos e seculares.

"...passem todo o tempo em actividades espirituais ou físicas dignas de louvor..."
CAPÍTULO SEIS

    O nosso seráfico Pai S. Francisco meditava sobre a pobreza mais elevada de Cristo, o Rei do Céu e da Terra.
    Quando Ele nasceu, não tinha nem um lugarzinho na estalagem para morada, e vivia como um peregrino, permanecendo nas casas dos outros. 
    E, ao morrer, não tinha onde descansar a cabeça. 
    Meditando em como Ele era mais pobre em todo o resto, e para imitá-lo, S. Francisco ordenou aos frades, na Regra, que não tivessem nada de seu. 
    Assim desembaraçados, como peregrinos na Terra e cidadãos do Céu, com espírito fervoroso, poderiam caminhar ao longo do caminho de Deus.
    Portanto, querendo com tão nobre exemplo imitar verdadeiramente a Cristo e observar realmente o preceito seráfico da Pobreza celeste, e demonstrar que não temos nenhuma jurisdição, domínio, propriedade, possessão jurídica, usufruto ou uso jurídico de qualquer coisa, mesmo aquilo que usamos por necessidade, determina-se um inventário a ser mantido em cada comunidade. 
   No inventário, devem ser registadas todas as coisas de valor notável emprestadas pelos seus proprietários para a nossa necessidade ou simples uso. 
   E dentro da oitava do Pai Seráfico, cada Guardião vá primeiro ter com o dono do lugar, a agradecer-lhe o o empréstimo deste mesmo lugar aos frades durante o ano anterior, e humildemente perguntar-lhe se se pode dignar a emprestá-lo novamente  aos frades por mais um ano. 
   Se ele concordar com isso, podem là habitar com consciência segura. 
   No entanto, se o proprietário não quiser, saiam sem qualquer demonstração de tristeza, mas sim com um coração alegre. 
   Acompanhados pela pobreza divina, reconheçam-se endividados e não ofendidos pelo tempo que lhes foi emprestado. 
   Se o lugar é dele, não é obrigado a emprestá-lo novamente. 
   Façam o mesmo com todas as outras coisas de valor notável, trazendo mesmo aos proprietários, quando oportunamente o puderem fazer, bens como cálices e similares; ou pelo menos deixar a promessa de os trazer quando os proprietários não lhos quiserem mais emprestar. 
   Quando não for mais necessário usar os bens, sejam devolvidos aos seus donos ou peçam autorização para os dar aos pobres.
"...como peregrinos na Terra e Cidadãos do Céu...
poderiam caminhar ao longo do caminho de Deus."
    Determinamos também que, quando os frades quiserem ocupar um novo lugar, de acordo com o ensinamento do humilde Francisco, vão primeiro ao Bispo ou ao seu Vigário e peçam autorização para poderem ocupar um lugar na sua Diocese .
    Uma vez obtida autorização, vão à Câmara Municipal ou ao senhor da terra e perguntem se lhes podem emprestar um lugarzinho.
    Tenham os frades o cuidado de não ocupar nenhum lugar com a obrigação de aí  se manterem.
    Pelo contrário, se isso lhes for imposto, não o aceitem sem manifestarem expressamente a possibilidade de sair do lugar a qualquer momento que pareça apropriado, para que seja cumprida a pura observância da Regra, a fim de que, se tal

for necessário, não se dê escândalo.

"...quando os frades quiserem ocupar um novo lugar,...
vão primeiro ao Bispo..."
    Como peregrinos, a exemplo dos antigos Patriarcas, teremos de viver em pequenas cabanas, choupanas e ermidas.
    Por isso exortamos os frades a lembrarem-se das palavras do Pai Seráfico no seu Testamento, onde proíbe aos frades que recebam, sob qualquer pretexto, igrejas ou moradias construídas para eles, se estas não estiverem de acordo com a forma da mais alta pobreza.
    Devido a isso, entende-se que é muito menos permissível para eles consentir construir ou ter construído sumptuosos edifícios.

"... teremos de viver em pequenas cabanas, choupanas e ermidas."
    Os frades não devem desagradar a Deus, violar a Regra, escandalizar o próximo e ofender a pobreza evangélica prometida, só para agradar os senhores deste Mundo. 
   Deve haver uma grande diferença entre os grandes palácios dos ricos e as pequenas cabanas dos pobres mendicantes, peregrinos e penitentes. 
   Portanto, determinamos que os lugares não possam ser recebidos, quer sejam feitos por nós ou por outros, muito menos devem ser construídos, nem os frades permitir que tal seja construído para eles, se esses mesmos lugares não estiverem de acordo com a mais santa pobreza que nós prometemos. 
   Para este propósito, foi então elaborado um pequeno modelo, de acordo com o qual a construção pode ser levada a efeito. 
   As celas, em comprimento e fundo, não devem exceder nove palmos, nem em altura dez palmos. 
   As portas não devem ter mais de dez palmos e não mais do que dois e meio. 
   As janelas não devem ter mais de dois palmos e meio de altura e um palmo de largura.  
   O corredor do dormitório não pode exceder seis palmos de largura. 
   Todas as divisões sejam pequenas, humildes, pobres, abjectas e baixas, para que tudo possa prégar humildade, pobreza e desprezo pelo Mundo. 
   As igrejas também devem ser pequenas, pobres e dignas. 
   Nem os frades querem que estas sejam grandes, para melhor se poder prégar. 
   Como disse S. Francisco, o melhor exemplo é dado pela pregação nas igrejas de outros, especialmente se prégar na nossa ofender a santa pobreza.
"... As igrejas também devem ser pequenas, pobres e dignas."
    Para evitar tudo  aquilo que possa ofender a pobreza, determinamos que os frades não se envolvam de modo nenhum na construção, excepto para mostrar e insistir na forma pobre do modelo àqueles a quem a tarefa está entregue e ajudarem-nos nos trabalhos manuais.
    Tanto quanto possível, esforcem-se também os frades por fazer o que puder ser feito em vime, lama, juncos, tijolos não cozidos e materiais humildes, a exemplo do nosso Pai, como sinal de humildade e pobreza.
    E que os frades tenham como espelho as pequenas casas dos pobres, e não as habitações modernas.

"... os frades tenham como espelho as pequenas casas dos pobres..."
    Para evitar qualquer irregularidade, determina-se que nenhum lugar deve ser ocupado, abandonado, construído ou demolido sem autorização do Capítulo Provincial e do Padre Vigário Geral.
    Nenhum Guardião pode construir ou demolir, a não ser segundo o que o Vigário Provincial ordenar, o qual, com alguns frades, deve ir determinar o desenho da dita construção.

"...Nenhum Guardião pode construir ou demolir..."
    A fim de que os seculares nos possam usar no que respeita a assuntos espirituais, e nós quanto a coisas temporais, ordenamos que as nossas lugares não fiquem  muito longe das cidades ou aldeias, nem tão próximos que venhamos a sofrer pelas  muitas visitas.
    Basta que os lugares estejam normalmente a uma milha e meia de distância, mais ou menos, sempre mais perto da solidão do deserto solitário do que das delícias da cidade, a exemplo dos santos padres, especialmente do nosso Pai.

"... sempre mais perto da solidão do deserto solitário do que das delícias da cidade, a exemplo... do nosso Pai."
    Também se determina que haja nas nossas comunidades (quando possível) uma pequena sala com lareira para receber peregrinos e visitantes, quando necessário, tal como a caridade exige e  a nossa pobreza requer.
"... uma pequena sala com lareira para receber peregrinos e visitantes..."
    Onde possa ser levado a ser oportunamente a efeito, ordenamos que também haja no bosque ou noutro  local concedido aos frades, uma ou duas celas solitárias,  afastadas da morada comum dos frades.
    Então, se qualquer frade julgado adequado para isso pelo seu superior, poderá querer levar vida anacorética, podendo entregar-se a Deus em silêncio, com uma vida angélica, na solidão, seguindo o impulso do Espírito Santo.
    Durante esse tempo, a fim de que possa desfrutar de Deus em silêncio, instruímos que ninguém fale com ele, excepto o pai espiritual, que será como uma mãe em prover para ele, de acordo com a piedosa intenção do nosso Pai Seráfico, como está nas Conformidades.

"... ordenamos que também haja...
uma ou duas celas solitárias,  afastadas da morada comum dos frades."
    Também ordenamos que se houver vinhas ou árvores supérfluas sejam arrancadas, mas não cortadas.  
   Contudo, com o consentimento dos proprietários, seja dado o fruto aos pobres, e as videiras arrancadas, se produzirem fruto, sejam plantadas noutros lugares ou sejam dadas aos pobres.
"... as videiras arrancadas, se produzirem fruto, sejam plantadas noutros lugares ou sejam dadas aos pobres."
    De acordo com o ensinamento do Evangelho, os cristãos, especialmente os pobres frades de S. Francisco, que se comprometeram a seguir a Cristo, o Imperador Supremo e espelho imaculado ao longo do caminho da mais alta pobreza, devem ter em mente que o Pai Celestial sabe como os prover. 
   Pode fazê-lo e quer fazê-lo. 
   Por isso, toma cuidado especial com eles. 
   Portanto, ao contrário dos gentios que não crêem na Providência Divina, não devemos lutar por estas coisas do Mundo com preocupação desnecessária. 
   Deus Altíssimo concede generosamente esses bens até aos animais mudos. 
   No entanto, como filhos do Pai Eterno, deixando de lado toda a preocupação carnal, devemos depender completamente dessa divina generosidade e descansar na Sua bondade infinita. 
   Por isso ordenamos que, nas nossas comunidades, não se faça nenhum armazenamento de qualquer alimento humano, ainda que necessário, para mais de dois ou três dias (uma semana, no máximo), segundo as estações e os lugares,  especialmente do que se pode implorar diàriamente. 
   A fruta não pode ser armazenada, excepto por um curto período de tempo, de acordo com o juízo do Provincial. 
   Para fechar o acesso a abastecimentos humanos supérfluos, não haja pipas nem barris nas nossas comunidades, mas apenas algumas pobres cabaças ou garrafas.    A lenha pode ser armazenada para dois ou três meses, especialmente durante o Inverno. 
   Para que a mendicância dos frades não seja rica e delicada, a necessidade só de nome mas sim de facto, ordenamos que não se procure carne, ovos, queijo, peixe nem outros alimentos preciosos, alimentos inadequados ao nosso estado de pobres, nem mesmo durante o Carnaval. 
   Estes alimentos podem ser aceites, no entanto, para os enfermos, mas devem ser dadas sem os frades os pedirem e sem ofender a pobreza. 
   Acima de tudo, os frades devem ter cuidado para que, com uma abundância de esmolas, devido ao apoio de pessoas ilustres, à Fé do povo e à devoção do Mundo, não abandonem a sua santíssima Mãe Pobreza como filhos inautênticos de S. Francisco . 
   Devem lembrar-se daquelas belas palavras do Pai que estava acostumado a dizer com a mais ardente afeição ao amor: "Agradeço a Deus, que por Sua bondade sempre me manteve na Fé com a minha amada noiva, a Pobreza. Nunca fui um ladrão de esmolas, já que sempre recebi menos do que precisava para que os outros pobres não fossem enganados na sua parte, pois o contrário é roubo perante Deus ".

"... não haja pipas nem barris nas nossas comunidades..."
    Ordenamos também que, em tempo de fome, seja feita por frades designados por seus superiores uma prospecção, a fim de suprir as necessidades dos pobres, de acordo com o exemplo do nosso mais piedoso Pai , que tinha grande compaixão pelos pobres. 
   Se lhe for dada alguma coisa pelo amor de Deus, e ele não a quiser, sem um acordo, dá-la-á aos pobres, quando encontrar alguém mais pobre do que ele. 
   Como lemos em vários pontos, a fim de não ficar sem a veste nupcial evangélica da Caridade, ele tirou as próprias roupas e deu-as aos pobres. 
   Ou melhor, ele foi despojado pelo violento impulso do amor divino. 
   A pobreza voluntária não tem nada e é rica em tudo, e feliz. 
   Não teme nem deseja nada; nem pode perder nada, porque pôs o tesouro em lugar seguro. 
   Portanto, para real e verdadeiramente remover a ocasião de toda a propriedade, determinamos que nenhum frade tenha chaves para a cela, arcas, armários ou outros móveis, excepto os oficiais, a fim de manter as coisas que têm à disposição da Comunidade dos frades, como é justo e razoável. 
   E porque não possuímos nada neste Mundo, não é permitido a nenhum frade dar qualquer coisa aos leigos sem a autorização do Guardião. 
   Os guardiães não podem mesmo dispensar os frades ou dar autorização a alguém sem autorização dos Vigários Provinciais, excepto para coisas insignificantes ou sem valor.

"... ele tirou as próprias roupas e deu-as aos pobres."
    Para satisfazer as necessidades dos enfermos, como ordenam a razão e os mandamentos da Regra e da caridade fraterna, o Padre Guardião, quando qualquer frade se tornar enfermo, nomeará imediatamente um frade idóneo para o servir em todas as necessidades.
    Quando for oportuno um frade mudar de comunidade, providencie-se isto imediatamente.       
    Cada frade deve pensar sobre o que iria querer se o mesmo acontecesse com ele.      

    Nenhuma mãe é tão terna e sensível, tão ligada a seu único filho, tanto quanto cada frade é, como o nosso bondoso Pai expressa na Regra.
    Dado que, para aqueles que não têm amor na Terra, é doce, justo e apropriado morrer por Aquele que morreu por nós na Cruz, instruímos os frades a servir os doentes em tempo de peste, de acordo com o que os vigários decidirem sobre quem
se esforçará em tais casos por manter em mente prudente caridade.

"... instruímos os frades a servir os doentes em tempo de peste..."
CAPÍTULO SETE

    Em primeiro lugar, para evitar perigo para os súbditos e prelados, ordenamos que nenhum frade ouça confissões de seculares sem autorização do Capítulo ou do Padre Vigário Geral.
    Uma vez que tal cargo requer mais do que não só boa consciência e habilidade mas também uma experiência adequada, não pode ser exercido pelos que são inadequados.
    Geralmente, os designados como confessores não devem ouvir essas confissões, excepto quando a caridade for obrigatória, em casos especiais.
    Isto é para evitar todos os perigos e distracções da mente, de modo que desimpedidos, concentrados e recolhidos em Cristo, os frades possam caminhar mais seguramente para a Pátria Celeste.


"... nenhum frade ouça confissões de seculares sem autorização do Capítulo ou do Padre Vigário Geral."
    Também instruímos os frades a confessarem-se pelo menos duas vezes por semana e a receber a Comunhão sempre que quiserem, e quando o seu superior julgue que isso seja mais vantajoso para os frades.
    No Advento e na Quaresma, no entanto, eles devem receber a Sagrada Comunhão todos os Domingos.  

    E de acordo com a exortação apostólica, os frades devem primeiro examinar cuidadosamente, por um lado, o seu nada e a sua indignidade e, por outro, o nobre dom de Deus dado com tal caridade, de modo a que as suas almas não sejam julgadas, mas nelas aumente a luz, as graças e a virtude.
    E este Sacramento mais elevado e divino, onde o nosso mais Justo Salvador se digna habitar contìnuamente connosco, deve ser mantido em todas as nossas igrejas, em um lugar muito limpo.
    Deve ser exposto com a mais alta reverência por todos aqueles que estão perante Ele, e orem como se estivessem na Pátria Celeste, com todos os Santos Anjos.


"Deve ser exposto com a mais alta reverência por todos aqueles que estão perante Ele..."
    É concedida aos frades licença para se confessarem a outros sacerdotes, quando estiverem longe das nossas comunidades e em caso de necessidade.



    Assim como nos exorta o nosso Pai na primeira Regra, a fim de alimentar a Caridade, mãe de toda a virtude, instruímos os frades a acolher com toda a humanidade cristã possível as pessoas que vêm às nossas comunidades, especialmente religiosos, como pessoas mais especificamente idóneas para o serviço divino.
"... pessoas mais especificamente idóneas para o serviço divino."
    Em casos reservados, ordenamos também aos infractores que recorram humildemente, com a maior rapidez e oportunidade possível, aos seus Vigários, em quem podem e devem confiar, sem que isso seja dado a conhecer.
    Se os superiores os virem verdadeiramente arrependidos e humilhados, com a firme determinação de se corrigirem e se prepararem para
apropriada penitência, devem recebê-los com mansidão, de acordo com o exemplo de Cristo, nosso verdadeiro Pai e Pastor, da mesma forma que o filho pródigo foi recebido pelo seu muito amável pai.
    Com Cristo, eles devem esforçar-se por carregar alegremente aos seus próprios ombros a ovelha perdida do angélico redil.

"... da mesma forma que o filho pródigo foi recebido pelo seu muito amável pai."
    Que também se lembrem do que o nosso Pai S. Francisco costumava dizer.
    Se quisermos levantar de novo aquele que caiu, é necessário dobrar-se em bondade, assim como o amabilíssimo Salvador Cristo fez quando confrontado  com a mulher adúltera, e não agir com justiça
rígida e crueldade para com quem lhes for apresentado.
    De facto, Cristo, o Filho de Deus, desceu do céu à Cruz para nos salvar e mostrou toda a
possível mansidão aos humildes pecadores.

"... assim como o amabilíssimo Salvador Cristo fez quando confrontado  com a mulher adúltera..."
    Os frades também devem ter em mente que se Deus nos julgasse com justiça rígida, poucos ou nenhuns de nós seriam salvos. 
   E, ao imporem uma penitência, devem manter sempre os olhos abertos para salvar a alma e não perdê-la, assim como à reputação do pobre frade. 
   Nenhum frade deve ser escandalizado ou envergonhado, nem evitado ou detido com desdém. 
   Pelo contrário, devem ser compassivos para com ele e amá-lo mais ainda, algo de que ele tem maior necessidade, sabendo o que nosso Pai S. Francisco disse: "Cada um de nós seria muito pior se Deus não nos sustentasse com a Sua Graça".
   
Na verdade, ao deixá-lo como pastor universal no Seu lugar, Cristo disse a Pedro que ele deveria perdoar o pecador até setenta vezes sete. 

   Por isso, numa das suas cartas, S. Francisco disse querer, se um frade pecou, à vista dos olhos de seu superior, não deveria partir sem misericórdia quando o procurasse humildemente. 
    Se o frade não o procurasse, Francisco queria que o superior lha concedesse.
    Então, se o frade vier ante ele mil vezes, Francisco queria que nunca lhe fosse mostrado ressentimento, nem que os seus pecados fossem lembrados. 
    Para atrair o frade a Cristo, nosso Senhor, o superior ame-o verdadeiramente do coração; sabendo que, embora o arrependimento sincero com um firme propósito de não pecar novamente e praticar acções virtuosas seja suficiente diante de Deus, quando, porém, Cristo instituiu a penitência, estava habituado a dizer: "Vai em paz e procura não mais pecar".

"Vai em paz e procura não mais pecar"
    Por outro lado, os superiores devem considerar que não punir aquele que peca significa abrir uma porta aos malfeitores, a todos os vícios e ao convite a erros semelhantes. 
   Portanto, os superiores devem impor uma penitência adequada, com misericórdia, de acordo com a Regra. 
   Por isso, para que esta boa posse do Senhor seja preservada por meio de uma boa protecção, ordenamos que a subtileza da lei e as maquinações jurídicas não sejam observadas nos nossos assuntos, especialmente na correcção e punição dos frades.
   
Em vez disso, de acordo com as concessões de Bonifácio VIII, de feliz memória, bem como de Inocêncio e de Clemente, nenhum frade é autorizado a apelar contra os superiores fora da nossa congregação, sob pena de excomunhão latae sententiae e prisão.
   
Porque não viemos à religião para disputar, mas para chorar os nossos pecados, para corrigir a nossa vida, para obedecer e para levar a cruz da penitência de quem segue a Cristo. 

   Para que os potenciais malfeitores não sejam um estorvo aos bons frades, os superiores devem punir misericordiosamente os transgressores.
"... levar a cruz da penitência de quem segue a Cristo."
    Todos os cristãos, especialmente os frades de S. Francisco, devem sempre manter a Fé Apostólica integral e pura da Santa Igreja Romana, e firmemente manter e prégar sinceramente essa Fé.
    Devemos estar preparados para derramar o nosso sangue, até a morte, pela sua defesa.
    Portanto, instruímos que, se algum frade, por causa de tentação diabólica, se encontrar (quod absiti) manchado por algum erro contra a Fé Católica, deve ser posto em prisão perpétua.
    Para punir estes ou outros criminosos semelhantes, deve haver prisões fortes mas humanas nalgumas das nossas comunidades.

"Devemos estar preparados para derramar o nosso sangue, até a morte, pela sua defesa."
    Para que qualquer um dos nossos frades, odiando a solidão e a tranquilidade, não volte às panelas de carne do Egipto depois de terem sido libertados da fornalha da Babilónia, aqueles que apostatam da nossa congregação devem ser excomungados pelo nosso Padre Vigário Geral e por todo o Capítulo, e serem denunciados como excomungados por esta Constituição, deixando ao dito Vigário Geral e aos Provinciais o tipo e a quantidade de punições que terão que usar para castigar os ditos apóstatas e todos os outros malfeitores.    
    Os Vígários devem puni-los de acordo com a natureza dos excessos, a humildade dos penitentes e a discrição da caridade, de acordo com as antigas constituições e os louváveis ​​costumes da nossa Ordem em tais assuntos.    
    Como diz o ilustre Doutor Agostinho, a punição ou o perdão devem ser sempre aplicados com o objectivo de corrigir a vida do Homem.    
    Assim, a justiça deve ser sempre temperada com a misericórdia, e conquanto o rigor da disciplina não deva ser negligenciado, não deve ser excessivo ao ponto de se tonar crueldade.    
    Pelo contrário, a pessoa fraca seja curada por um castigo no qual misericórdia e verdade se encontrem juntas.    
    Por causa deste maduro e discreto conhecimento dos frades os nossos superiores devem usar de compreensão e experiência, e devem proceder em todos estes assuntos com o conselho dos irmãos mais velhos.


"... conquanto o rigor da disciplina não deva ser negligenciado, não deve ser excessivo ao ponto de se tonar crueldade."   
    Para que as punições imponham bom zelo e não sejam impedidas ou mal julgadas, e para que haja maior liberdade em avançar contra os transgressores, proibimos a revelação dos segredos da Ordem.
    Pelo contrário, devemos preservar a reputação de todos, tanto quanto possível, enquanto seguimos sempre o que for para louvor e glória de Deus, fundamento da paz, edificação e salvação de todo o nosso próximo.


"... proibimos a revelação dos segredos da Ordem."
                        CAPÍTULO OITO                        


    De acordo com o ensinamento de Cristo, nosso humilde Senhor, os superiores cristãos não devem ser como os príncipes gentios que se engrandecem com a sua posição.
    Pelo contrário: baixem-se de acordo com a maior carga maior que carreguem.
    Devem também ter em mente que onde os outros frades devem obedecer aos seus superiores, os superiores têm que obedecer a todos os frades.
    O Capítulo que os elegeu impôs-lhes, sob obediência, servir e ministrar aos frades em todas as suas necessidades, especialmente nas necessidades espirituais, de acordo com o exemplo de Cristo, que veio servir e ministrar-nos, e dar a própria vida por nós.
    Portanto, exortamos todos os superiores a serem ministros e servos de todos os frades.
    Farão isso se, de acordo com os ensinamentos do Pai Seráfico, ministrarem aos que estão a eles sujeitos espírito e vida, ensinando e exemplificando.


"O Capítulo que os elegeu impôs-lhes...
servir e ministrar aos frades em todas as suas necessidades... "
    Cada eleição deve ser pura, simplesmente processada, de maneira santa e canónica.
    De acordo com o ensinamento de Cristo, nosso bondoso Senhor, e como pessoas convidadas para a festa de casamento, os frades devem esforçar-se por estar no último lugar com Ele, em vez de no primeiro com Lúcifer, sabendo que o primeiro será o último e o último o primeiro.
    Com Cristo, evitem os frades o estatuto e não aceitem postos, a menos que,
sob santa obediência, como a Aarão, Deus os chame.


"... evitem os frades o estatuto e não aceitem postos, a menos que, sob santa obediência, como a Aarão, Deus os chame."
    Quanto ao Capítulo Geral, ordenamos que seja feito a cada três anos, pela Festa de Pentecostes, o momento mais adequado para tal evento e estipulado pelo nosso Seráfico Pai. 
   Os Capítulos Provinciais devem ser celebrados todos os anos, na segunda ou terceira sexta-feira após a Páscoa. 
   Como sinal de humildade, e para demonstrar a sua sincera intenção de estar longe de qualquer ambição, o Vigário Geral no Capítulo Geral e os Provinciais nos Capítulos Provinciais, renunciem livremente aos seus cargos e renunciem a toda a autoridade nas mãos dos definidores eleitos pelo Capítulo. 
   Como testemunho da resignação perfeita, colocarão os selos nas mãos dos definidores acima mencionados. 
   E se acontecer que o Padre Vigário Geral faleça durante o seu triénio, decidir-se-á, em tal caso, que o primeiro definidor do Capítulo anterior seja o Comissário Geral.    Se tiver falecido, então será o segundo definidor e assim por diante. 
   E será obrigado o mais cedo possível a convocar o Capítulo para o Pentecostes, ou ali ou, em Setembro, num lugar já decidido ou onde e quando, com o conselho dos outros definidores, lhe parecerá ser mantido convenientemente.
"Os Capítulos Provinciais devem ser celebrados todos os anos..."
    Providencie-se também uma maneira certa, segura e fácil de ser capaz de depor o Geral quando não for idóneo, como S. Francisco estabelece na Regra. 
    Os três primeiros Definidores do Capítulo anterior podem e devem convocar os frades ao Capítulo Geral quando e onde parecerá conveniente, dada a informação provável e suficiente relativa à sua incapacidade.
    Deverá là ser discutido se ele merece ou não ser deposto.
    Se o Geral tentar bloquear tal convocação do Capítulo, ipso facto o queremos privar do cargo.
    No caso de o Capítulo Geral julgar que ele não merece ser deposto e que os definidores acima mencionados causaram,
sem fundamento, tal comoção na congregação, sejam severamente punidos de acordo com o julgamento do Capítulo, por terem procedido tão descuidadamente.

    Também se determina que todos os frades presentes no lugar do Capítulo tenham voz passiva na eleição dos definidores.
    Em tal eleição os vigários têm voz activa, o Geral no Capítulo Geral e os Provinciais nos Capítulos Provinciais.
    Também se determina que, no Capítulo Geral, sejam eleitos seis definidores, dos quais não mais do que dois dos eleitos no Capítulo anterior.
    Da mesma forma, nos Capítulos Provinciais podem ser eleitos quatro definidores, dos quais apenas dois, no máximo, podem ser eleitos de entre os do ano anterior.


    Também se declara que os Provinciais deixem de exercer funções pelo menos durante um ano após o triénio, a não ser que, por uma causa razoável, pareça contrário ao Padre Vigário Geral.
    Durante a celebração do Capítulo geral, todos os frades da nossa congregação devem orar contìnuamente e com fervor, e na época do Capítulo Provincial todos os frades devem implorar à Divina Misericórdia que se digne dispor tudo de acordo com a Sua boa vontade, louvor e glória do Seu Nome e para o bem de toda a Sua Santa Igreja.

" ...todos os frades da nossa congregação devem orar contìnuamente... "

 CAPÍTULO NOVE

    De acordo com o exemplo de Cristo, Mestre da Vida, a proclamação da palavra de Deus está entre os mais dignos, mais úteis, exaltados e divinos ofícios na Igreja de Deus, de que depende a salvação do Mundo. 
   Por isso ordenamos que ninguém pregue, a não ser que tal lhe seja concedido, depois de ser primeiro examinado pelo Capítulo Geral ou pelo Padre Vigário Geral, como exige a Regra. 
   Nem deve ser concedido um ofício assim, a não ser que sejam vistos como tendo uma vida santa e exemplar, a fim de ter um juízo claro e maduro e uma vontade forte e ardente, pois não se acumulam conhecimento e eloquência sem caridade.
    Muitas vezes eles destroem. 

   Ao conceder tal cargo, os superiores devem cuidar diligentemente de serem imparciais, movidos nem pela amizade nem pelo favor humano, mas simplesmente pela honra de Deus.  
   Os superiores devem preferir que haja poucos mas bons pregadores, e não muitos e inadequados, seguindo o exemplo de Cristo, a Sabedoria Suprema, que, depois de ter orado longamente, escolheu da grande multidão de Hebreus apenas doze Apóstolos e setenta e dois discípulos.
"Os superiores devem preferir que haja poucos mas bons prégadores... "
    Ordenamos também aos prégadores que não empreguem palavras ociosas, vôos de fantasia, histórias inventadas ou outras noções vãs, supérfluas, novas, inúteis ou mesmo perniciosas.
    Em vez disso, segundo o exemplo de Paulo, o Apóstolo, devem prégar Cristo crucificado, em Quem estão todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento de Deus.
    Esta é a sabedoria divina que S. Paulo prégou entre os perfeitos, depois que se tornou cristão.
    Mas quando era Hebreu e infantil, pensava, compreendia e falava como uma criança sobre as sombras e figuras do Antigo Testamento.
    Os prégadores não devem citar ninguém senão a Cristo (cuja autoridade prevalece sobre todas as pessoas e o raciocínio do Mundo) e aos santos doutores.

" ...segundo o exemplo de Paulo, o Apóstolo, devem prégar Cristo crucificado... "

    Palavras refinadas, bordadas e pretensiosas não combinam tanto com o nu e humilde Crucificado, como as palavras simples e humildes, que são palavras divinas e ardentes, cheias de amor, a exemplo de Paulo, o vaso de eleição, que não prégava com expressões sublimes e eloquência humana, mas com o poder do Espírito.
    Por isso, exortamos os prégadores a imprimir o Bem-aventurado Cristo nos corações e a entregarem-se à Sua serena posse, para que, por meio da superabundância de amor, Ele possa ser o único que fala neles, não apenas com palavras, a exemplo de Paulo, o mestre das nações.
    Ele não ousou prégar nada aos outros que Cristo não tivesse trabalhado nele.
    Cristo também, o mais perfeito Mestre, ensinou-nos não apenas com doutrina, mas com obras.  

    Grandes no Reino dos Céus são aqueles que fazem primeiro e só depois ensinam e prégam aos outros.
"... o mais perfeito Mestre, ensinou-nos não apenas com doutrina, mas com obras." 

    Que os prégadores não pensem que já fazem muito se prégarem sòmente na Quaresma ou no Advento.
    Pelo contrário, deveriam pregar com assiduidade, pelo menos em todas as festas, segundo o exemplo de Cristo, o espelho de toda a perfeição, que passava pela Judeia, Samaria e Galileia, prégando nas cidades e aldeias, e às vezes apenas a uma mulher como a Samaritana como lemos.
    E quando sentirem que o Espírito diminui por causa das relações com os seculares, os prégadores voltem à solidão e permaneçam lá até ficarem cheios de Deus, o impulso que os move para espalhar a Graça Divina no Mundo.
    Agindo desta maneira, numa vida mista, como Marta e Maria, seguirão a Cristo que, tendo orado no monte, desceu ao templo para prégar.
    De facto, desceu do Céu à Terra para salvar as almas.

"... os prégadores voltem à solidão e permaneçam lá até ficarem cheios de Deus... "
    Os prégadores ficam proibidos de aceitar refeições, mas vivam como pobres e mendigos, tal como prometeram pelo amor de Cristo.
    Acima de tudo, guardem-se contra qualquer espécie de avareza, para que, ao prégar Cristo livre e sinceramente, possam colher frutos com maior abundância.
    Por isso, quando prégam, ficam proibidos de pedir para si mesmos ou para os frades, para que, seguindo o ensinamento do Apóstolo, todos saibam que os prégadores não buscam os próprios interesses, mas os de Jesus Cristo.
    Quem não sabe ler Cristo, Livro da Vida, não tem doutrina que possa prégar.
    Portanto, para que os prégadores O estudem, ficam proibidos de trazer muitos livros, já que tudo se encontra em Cristo.

" ...vivam como pobres e mendigos... "
    Este santo ofício da pregação é excelente e mais aceitável a Cristo nosso Deus.
    Ele mesmo o demonstrou quando, com o grande fervor da Sua caridade divina pela salvação de nossas almas, desejou praticá-la, administrando-nos o mais santo ensinamento evangélico.
    Portanto, para poder impressionar melhor os corações dos prégadores, a norma e o método que devem observar para anunciar Cristo crucificado mais dignamente e para pregar o reino de Deus e provocar fervorosamente a conversão e salvação das almas, replicando por assim dizer e de certa forma inculcá-lo, impomos e estipulamos que na prégação usem as Sagradas Escrituras, o Novo Testamento em particular, e mais especialmente o Santo Evangelho, de modo que, sendo prégadores evangélicos, também podemos fazer evangélicos os povos.

"... sendo prégadores evangélicos, também podemos fazer evangélicos os povos."
    Deixem de lado todas as perguntas e opiniões vãs e inúteis, cantigas e subtilezas que poucos entendem. 
   Em vez disso, a exemplo do santíssimo precursor João Baptista, dos santíssimos Apóstolos e dos outros santos prégadores, ardentes de amor divino, e mesmo segundo o exemplo do nosso mais gentil Salvador, digam: "O reino de Deus está realmente próximo". 
   E de acordo com o que nosso Seráfico Pai nos adverte na Regra, devem anunciar vícios e virtudes, castigo e glória, com breves palavras. 
   Não devem desejar nem procurar outra coisa além da glória de Deus e da salvação das almas, redimidas com o mais precioso sangue do Cordeiro Imaculado, Cristo Jesus. 
   A linguagem deve ser bem considerada e casta. 
   Não devem concentrar o discurso em nenhuma pessoa em particular, porque como diz o glorioso S. Jerónimo: "O discurso geral não ofende ninguém, ao mesmo tempo que censura os vícios, mas honra também na criatura a imagem do seu Criador".      
    Como nos exorta o Seráfico Pai no seu Testamento, procurem temer, amar e honrar os veneráveis ​​sacerdotes, Reverendíssimos Bispos, Reverendíssimos Cardeais e, acima de tudo, o Santo e Supremo Pontífice, Vigário de Cristo na Terra, cabeça universal, todos os cristãos e toda a Igreja Militante e todos os outros no estado eclesiástico, que vivem de acordo com a ordem da Santa Igreja Romana e humildemente submetidos à nossa cabeça, Pai e Senhor, isto é, ao Sumo Pontífice.
S. Jerónimo

    E assim como o nosso Pai nos ensina no mesmo Testamento, devemos honrar e amar todos os prégadores que nos ministram as mais sagradas palavras divinas como aqueles que nos ministram espírito e vida. 
    Para que, enquanto prégam aos outros, não sejam condenados, os prégadores deixem por vezes para trás as multidões e subam a montanha para oração e contemplação do mais gentil Salvador.
     Devem esforçar-se por serem inflamados com o Amor Divino como serafins, para que, sendo reavivados, possam acender os outros. 
    Como já foi dito, não devem levar muitos livros, para que possam ler o mais excelente livro, o da Cruz, com ainda mais assiduidade. 
    Uma vez que foi sempre intenção do nosso bondoso Pai que os livros necessários aos frades fossem mantidos em comum e não individualmente, para melhor observar a pobreza e remover a particularidade dos frades e todo o afecto às coisas, ordenamos que cada uma das nossas comunidades tenha uma pequena sala onde se guardem a Sagrada Escritura e alguns dos santos doutores. 
    Contudo, os livros inúteis de gentios, que antes fazem de um homem um pagão mais do que um cristão (como se disse no primeiro capítulo), não serão mantidos nas nossas comunidades. 
    No entanto, se acontecer haver tais livro, sejam dados aos pobres, de acordo com a disposição dos Vigários Gerais ou dos Provinciais.
"... uma pequena sala onde se guardem a Sagrada Escritura e alguns dos santos doutores."
    Além de uma vida religiosa provada, é necessário, para aquele que deve prégar dignamente e com a devida ordem, algum conhecimento das Sagradas Escrituras .
    Naturalmente, este conhecimento não pode ser obtido a não ser por meio de alguma compreensão do estudo literário. 
    Para que uma prática tão nobre e fecunda como a prégação não diminua na nossa Congregação, com grande custo para as pobres almas dos seculares, ordenamos que hajam alguns estudos devotos e santos, ricos em caridade e humildade, tanto na Gramática como nas Sagradas Letras.
     Os frades que, segundo o juízo do Vigário Provincial e dos definidores, forem de caridade fervorosa, maneiras louváveis ​​e conversas humildes e santas, podem ser promovidos a tal estudo.
     Secundàriamente, também devem estar aptos a aprender, para que, por meio das suas vidas e ensinamentos, possam ser úteis e frutíferos na Casa do Senhor.
     Que os alunos não busquem esse conhecimento que sopra, mas sim a caridade iluminadora e encorajadora de Cristo, que edifica a alma. 
    Tampouco devem mergulhar no estudo literário ao ponto de negligenciarem o estudo feito pela oração.
     Nisso seriam claramente contrários à intenção do Pai Seráfico, que nunca quis que a oração santa fosse posta de lado por motivo de qualquer estudo literário.    Para serem mais capazes de ter o espírito de Cristo, tanto os professores como os estudantes devem esforçar-se por dar maior ênfase ao estudo espiritual do que ao estudo literário. 
    Desta forma, acharão que progridem mais no estudo quanto mais trabalham no espírito do que na letra, pois sem o espírito o verdadeiro significado não é adquirido e a letra sozinha cega e mata.
     Devem esforçar-se por nunca deixarem o caminho real que leva ao Paraíso, a Santa Pobreza, juntamente com a Santa Humildade, e muitas vezes lembrar a declaração de Jacapone, de que quem adquire conhecimento recebe um golpe mortal, se não for revestido de um coração humilde. 
    Também terão razão para se humilharem se reconhecerem que têm uma obrigação maior diante de Deus por terem sido promovidos a estudar e tornados dignos de serem introduzidos na verdadeira e fina compreensão dos textos sagrados, sob cujo significado estava escondido Aquele cujo espírito é mais doce do que o mel para qualquer um que o prova. 
    Exortamos os frades, cada vez que vão a uma aula, a lembrarem-se de levantar a mente para Deus e dizer em espírito de humildade e com coração contrito: "Ó Senhor, o teu humilde servo, indigno de qualquer bem, quer entrar e ver os Teus tesouros. Que Te agrade permitir a entrada a esta mais indigna pessoa. Nas santas palavras desta benigna lição concede que Te ame tanto quantoTe conheço, já que não quero conhecer-Te senão para Te amar, Senhor Deus, meu Criador. Amen."
"... ordenamos que hajam alguns estudos devotos e santos... "
 CAPÍTULO DÉCIMO

    Ordenamos ao Ministro Geral, durante o seu triénio, a visitar pessoalmente todos os conventos e frades da nossa Ordem, e que os Vigários Provinciais visitem sempre os irmãos.
    Tanto eles como os Guardiões não devem deixar de exortar caritativamente os seus frades à observância perfeita dos preceitos e conselhos divinos e evangélicos da Regra que prometeram, destas Constituições e especialmente da mais alta pobreza, o sólido fundamento de toda a observância regular .
    Devem corrigir
com toda a caridade os prevaricadores, misturando sempre o vinho da estrita justiça com o óleo suave da misericórdia.
    Os frades súbditos devem humildemente obedecer aos seus superiores em tudo o que, sem dúvida, não virem ofendido o divino.
    Tratem os seus superiores com a devida reverência, como Vigários de S. Francisco e de Cristo nosso Deus.
    Quando forem repreendidos ou corrigidos pelos superiores, de acordo com o louvável costume dos nossos humildes primeiros pais e irmãos, ajoelhem-se humildemente e suportem pacientemente cada repreensão e correcção.
    Não devem responder orgulhosamente.
    Tampouco devem ousar responder ao superior, especialmente no Capítulo ou mesmo no refeitório, sem primeiro pedir e receber autorização.
    Agindo em contrário, façam penitência diante dos frades pelo tempo de um Miserere.
    Todos os frades devem esforçar-se cuidadosamente por corrigir as suas faltas e, através de frequentes actos virtuosos, adquirirem as virtudes celestiais que superam os maus caminhos com os bons.
    E os superiores devem precaver-se contra o enredo das almas dos seus súbditos com preceitos vinculativos sob a obediência, a menos que sejam obrigados a fazê-lo por piedade divina ou quando a caridade o exige.
    Também instruímos que os frades visitantes sejam recebidos com toda a caridade fraterna.
    Como verdadeiros filhos do Pai Eterno, deveriam primeiro visitar a Sua igreja e, depois de algum acto de reverência e oração, apresentarem-se ao superior, mostrando-lhe obediência, sem a qual a  nenhum frade é permitido sair das nossas comunidades.

     Mesmo quando os frades da mesma comunidade forem realizar algum serviço, primeiro peçam a bênção do superior, e o mesmo quando regressarem.
"... primeiro peçam a bênção do superior... "
    Para que tudo se faça segundo o mérito da santa obediência e devida devoção, nenhum frade pode presumir de comer dentro ou fora das nossas comunidades sem a autorização e bênção do superior, padre ou irmão mais velho.
"... nenhum frade pode presumir de comer dentro ou fora das nossas comunidades sem a autorização e bênção do superior, padre ou irmão mais velho."
    Todos os frades se devem esforçar por evitar conversas desnecessárias e vãs.
    Não devem preocupar-se em ir a outras igrejas para obter indulgências, desde que os Sumos Pontífices as tenham concedido com maior abundância nas nossas igrejas.
"Não devem preocupar-se em ir a outras igrejas para obter indulgências... "
    Também determinamos que nenhum frade fugitivo da sua própria província seja aceite noutra sem autorização escrita do Padre Vigário Geral.
    O contrário anulará a recepção do referido frade e quem o receber será severamente punido, de acordo com a vontade do Padre Vigário Geral.
"... nenhum frade fugitivo da sua própria província seja aceite noutra... "
    Para evitar possíveis impropriedades, instruímos que nenhum jovem frade envie ou receba cartas sem autorização do superior.

    Seguindo o exemplo de nosso Senhor Jesus Cristo e do nosso Seráfico Pai, todos os frades devem sempre desejar ser súbditos e obedecer, em vez de serem superiores e mandar nos outros.
    Contudo, àqueles a quem for imposta a prelazia, por obediência não devem obstinar-se em rejeitá-la.
    Pelo contrário, cumpram o ministério atribuído com toda a humildade e solicitude.
"... cumpram o ministério atribuído com toda a humildade e solicitude."
    Segundo a advertência do nosso Pai no décimo capítulo da Regra, também exortamos os frades a estarem vigilantes contra todo o orgulho e vanglória, inveja e avareza, todo cuidado e solicitude deste mundo; e contra toda a detracção e murmuração, especialmente contra os prelados da igreja, o clero e os religiosos, especialmente os da nossa Ordem.
    Pelo contrário, devemos ter reverência por cada um de acordo com a sua posição, considerando-os todos como nossos pais e irmãos mais velhos em Cristo Jesus, nosso Salvador.

"... devemos ter reverência por cada um... "
 CAPÍTULO DÉCIMO PRIMEIRO

    De acordo com a opinião dos santos Doutores, especialmente de S. Jerónimo, os servos de Deus
    Portanto, com a maior maturidade, conselho e deliberação, todo o Capítulo Geral faz esta presente ordenança, que toda a congregação deve observar inviolável: de modo algum, sob o pretexto de boa virtude ou santidade, ou por causa das petições de qualquer povo ou príncipe, os nossos frades aceitarão o cuidado de mosteiros ou confrarias, nem de qualquer congregação de homens ou de mulheres.
    Nem devem ser confessores ou aceitar qualquer responsabilidade sobre eles.
    Nisso devem dar credibilidade ao exemplo vivificante de Cristo nosso Salvador e aos ensinamentos saudáveis dos santos, em vez de a darem à persuasão humana.
"... devem evitar, e, com santa prudência, fugir da familiaridade com as mulheres, mesmo santas."
    Cabe aos verdadeiros religiosos e servos de Cristo fugir não apenas de erros óbvios e pecados, mas também de tudo o que possa ser um pretexto para qualquer tipo de transgressão.
    Portanto, não queremos que os frades entrem
em nenhum mosteiro ou outra casa onde as religiosas possam estar em congregação sem autorização do Vigário Provincial, o qual será vigilante e mais circunspecto em não conceder essa licença, excepto aos frades provados e em casos de necessidade ou grande devoção.
    Pois o nosso Padre S. Francisco disse que Deus tirou-nos as esposas e o diabo deu-nos as freiras.
"... não queremos que os frades entrem em nenhum mosteiro ou outra casa onde as religiosas possam estar em congregação sem autorização do Vigário Provincial... "
    Para que, sendo puros de coração, possam ver Deus com o olhar da Fé sincera e tornarem-se mais dignos das coisas celestiais, os frades não devem ter qualquer associação suspeita com as mulheres, nem conversas inúteis, longas ou desnecessárias.    
    Quando obrigados, por necessidade, a falar com mulheres, os frades, para darem bom exemplo ao mundo, devem estar num lugar aberto, a fim de serem vistos pelos seus companheiros.    
    Para que sejam uma fragrância aromática para Jesus Cristo, ao conversar em cada lugar com pureza, discrição e adequação, os frades devem recordar esse exemplo memorável do santo frade sobre quem lemos nas nossas crónicas.    
    Enquanto queimava alguma palha, ele dizia: "O que a palha ganha com o fogo, assim também o servo religioso de Deus ganha com as mulheres".    
    Na sua canonização, o Papa João XX disse a respeito do nosso frade, o Bispo S. Luís, que o amor à castidade tinha sido muito bem estabelecido no seu coração desde a infância.    
    Como seu fiel guardião, Luís fugiu a todo custo da associação com mulheres, na medida em que nunca falou individualmente com uma mulher, excepto com a mãe ou com as irmãs.    
    Ele sabia que a mulher era mais amarga do que a morte.    
    S. Bernardo diz que há duas coisas que contaminam e arruínam os frades: a familiaridade com as mulheres e a agitação com os alimentos.
"... a falar com mulheres, os frades, para darem bom exemplo ao mundo, devem estar num lugar aberto... "
    Não queremos que as mulheres entrem nas nossas comunidades, a não ser por necessidade séria ou quando, por causa de extraordinária devoção, essa negação possa resultar em escândalo.
    Quando entrarem devem estar em companhia apropriada de homens e mulheres.
    Contudo, antes de serem admitidas, deve ser obtido o consentimento dos frades daquela comunidade.
    Devem ser nomeados para acompanhá-las
dois frades maduros e santos, com idoneidade e devoção, dando o melhor exemplo, falando sempre de assuntos edificantes em Cristo nosso Senhor, e sobre a salvação da alma.
    A conversa com mulheres, mas também com homens seculares, é rara, uma vez que a
familiaridade com eles nos é prejudicial.
"Quando entrarem devem estar em companhia apropriada de homens e mulheres...
Devem ser nomeados para acompanhá-las dois frades maduros e santos... "
 DUODÉCIMO CAPÍTULO

    Para que a pureza da Regra seja melhor observada, com a devida ordem, nos assuntos divinos, juntamente com a maior pobreza, ordenamos que não haja menos de seis e não mais doze frades nas nossas comunidades.
    Reunidos no justo Nome do gentil Jesus, que sejam de um só coração e de uma mesma mente, esforçando-se sempre por tender para uma maior perfeição.
    Sejam verdadeiros discípulos do próprio Cristo, que se amem uns aos outros do coração, suportando sempre as faltas uns dos outros.
    Exercitando-se no amor divino e na caridade fraterna, esforcem-se por dar o melhor exemplo uns aos outros e a cada pessoa, exercendo mesmo violência contínua sobre as suas próprias paixões e inclinações depravadas.
    Pois, como diz o nosso Salvador, o Reino dos Céus sofre a violência e violento saque, isto é, aqueles que vigorosamente exercem violência contra si mesmos.
"... ordenamos que não haja menos de seis e não mais doze frades nas nossas comunidades."
    Ordenamos que as nossas Igrejas tenham apenas um pequeno sino de cerca de cento e cinquenta libras pequenas. 
    Nas nossas comunidades não haverá outra sacristia senão um armário fechado ou apenas um baú. 
    Um frade professo deve trazer sempre a chave consigo. 
    Tudo o que for necessário para o culto divino será guardado naquele armário ou no baú. 
    Deve haver dois cálices pequenos, um de estanho e outro com apenas a copa em prata. 
    Que não haja mais que três pobres vestes sem ouro, prata, veludo ou seda, ou qualquer outra coisa preciosa ou incomum. 
    No entanto, estas devem estar muito limpas. 
    As toalhas dos altares devem ser de pano comum, e os candelabros de madeira. 
    Os Missais, Breviários e todos os outros livros também devem ser encadernados de forma simples e sem enfeites extravagantes, para que todas as coisas para o nosso pobre uso possa irradiar a mais elevada pobreza e nos iluminar para as preciosas riquezas do Céu onde estão o nosso tesouro e a nossa glória.
     É impossível estabelecer leis e estatutos para casos particulares que possam surgir, uma vez que são incontáveis.
     Por isso, na caridade de Cristo, exortamos a todos os nossos irmãos, em tudo o que fazem, a guardarem diante dos olhos o Santo Evangelho, a Regra que prometemos a Deus, assim como os santos e louváveis ​​costumes e exemplos dos santos.
     Ao dirigirem cada pensamento, palavra e acção para a honra e glória de Deus e a salvação do próximo, o Espírito Santo tudo lhes ensinará. 
    Por uma questão de uniformidade ritual tanto no coro como noutros lugares, devem ser lidos o ensino de São Boaventura e as ordenanças dos nossos primeiros pais.
     E para conhecer melhor em tudo o pensamento do nosso Seráfico Pai, devem ser lidos os seus Fioretti e as Conformidades, assim como outros livros que falam dele.
     A conversão dos infiéis estava muito próxima ao coração do nosso Seráfico Pai.
   
Portanto, para a glória de Deus e para a sua salvação, diremos que se alguns frades, por inspiração divina e perfeitamente acesos no amor de Cristo abençoado e no zelo pela Sua Fé Católica, quiserem ir prégar essa Fé entre os Infiéis, recorram aos seus Vigários Provinciais ou ao Padre Vigário Geral, segundo a Regra.

     Ao serem julgados por estes como idóneos, deixem-nos ir para uma empresa tão árdua com a sua autorização e bênção.
     No entanto, os súbditos não devem julgar-se presunçosamente adequados a uma empresa tão difícil e perigosa. 
    Em vez disso, com todo o temor e humildade, sujeitem o seu desejo ao julgamento dos superiores.
     Podem também distinguir-se entre esses infiéis alguns que sejam mansos e maleáveis, dispostos a receber facilmente a Fé Cristã, como os recentemente descobertos pelos espanhóis e portugueses nas Índias, e os turcos e árabes que defendem a seita maldita apenas com armas e tortura. 
    Os superiores não devem considerar a falta de frades nem ficar tristes por causa da partida de bons frades.
     Em vez disso, lancem toda a sua solicitude e preocupação para Aquele que cuida contìnuamente de nós. 
    Façam tudo isto como o Espírito Santo ensina e realizem tudo com aquela caridade que nada faz mal.
"... deixem-nos ir para uma empresa tão árdua com a sua autorização e bênção."
    Para que a pobreza, a santa noiva de Cristo nosso Senhor e amada de nosso Pai, permaneça sempre entre nós, os frades devem ter cuidado com tudo o pertinente ao culto divino, nos nossos edifícios e no mobiliário que usamos, para que nada haja de extraordinário, supérfluo ou precioso, sabendo que Deus, em vez de sacrifícios, quer de nós a nossa obediência prometida na santa pobreza.
    Como diz Clemente na sua declaração, Deus deleita-se mais num coração puro e em obras sagradas do que em coisas preciosas e muito ornamentadas.
    No entanto, a nossa pobreza deve totalmente irradiar limpeza.
"... a nossa pobreza deve totalmente irradiar limpeza."
    Desde que o nosso Salvador começou por primeiro fazer e depois ensinar, todos os nossos superiores devem ser os primeiros a observar estas Constituições.
    Então todos os súbditos devem lutar com santa e eficaz coragem para observá-las inviolàvelmente.
    Se no início algumas coisas parecem ser um pouco difíceis, o sagrado costume vai torná-las fáceis e deliciosas.

    Para que estas Constituições fiquem melhor impressas na mente dos Frades e
estes as observem, todos os Guardiões devem mandar que as leiam à mesa, uma vez por mês.  
    Embora não tenhamos intenção de obrigar os frades, sob pecado, com estas constituições, desejamos e ordenamos, no entanto, que os transgressores das mesmas sejam severamente punidos.
    Se os Guardiões forem negligentes na observação e punição dos malfeitores, sejam severamente punidos pelo Vigário Provincial e estes pelo Padre Vigário Geral.



    Porque as presentes Constituições foram compostas com a maior diligência e madura deliberação e aprovadas por todo o nosso Capítulo Geral e até pela Sé Apostólica, não podem ser alteradas sem o consentimento do Capítulo Geral.
    Da mesma forma, exortamos todos os nossos Padres e Irmãos, agora e no futuro, a não alterar as presentes Constituições, mesmo nos Capítulos Gerais.
    Pois, como vimos por experiência,
de tais mudanças nas Constituições vem grande detrimento para a Ordem.
    Nem deve haver Constituições Provinciais.
    No entanto, se surgirem outros casos particulares, faça-se provisão e ordene-se que tais assuntos sejam apresentados nos Capítulos Gerais.
Que estas constituições sejam deixadas intactas, segundo as quais toda a nossa congregação tem que viver e ser regulada com santa uniformidade.


    No momento da sua morte, o nosso Seráfico Pai deixou aos zelosos e verdadeiros observadores da Regra a generosa bênção da Santíssima Trindade.
    Inclusivamente acrescentou a sua própria bênção paterna.
    Portanto, devemos compreender com cuidado e observar com eficácia e amor a perfeição mostrada e ensinada na própria Regra e na nossa Ordem e evitar toda a negligência.


    Servir sem outra intenção do que evitar a punição cabe apenas aos espíritos servis e mercenários.    No entanto, é próprio dos verdadeiros filhos de Deus trabalhar pelo amor de Deus e fazer algo agradável a Sua Majestade, pela Graça e Glória divinas, e dar bom exemplo ao próximo, e muitas razões semelhantes.    Portanto, os Frades devem ser extremamente cuidadosos em não transgredir estas Constituições como se não fosse obrigatório sob qualquer culpa.    No entanto, reconhecendo o espírito a que pertencemos, os frades devem respeitar inviolàvelmente as leis, sanções e estatutos da Ordem para que a Graça seja acrescentada à sua cabeça e mereçam a Misericórdia divina por meio do cumprimento disto e se conformem com o Filho de Deus.    Não era obrigado às leis que Ele próprio fez, mas queria observá-las para salvação de todos.    Portanto, os frades mantenham o estado sublime da Ordem e sejam causa de muito bem ao seu próximo.    Cabe certamente aos bons servos não apenas cumprir o que seus senhores  mandam ameaçando-os, mas também querer agradar de várias maneiras a esses senhores.

    Por isso, voltando os olhos para o nosso Redentor, para que, tendo conhecido o Seu divino bel-prazer, procuremos agradr-Lhe, não só não desprezando estas Constituições (embora tal desprezo seja um pecado grave) mas não sendo negligente em observá-las, por causa do Seu amor.    A observância destas constituições ajudará a cumprir não só a completa observância da Regra prometida, mas também a Lei Divina e os Conselhos Evangélicos.
   
E, através de Jesus Cristo, a Graça de Deus libertar-nos-á de todo o perigo.    Em todos os nossos esforços também abundará o consolo em Jesus Cristo.    Seremos capazes de tudo n' Aquele que nos conforta, isto é, o Cristo Todo-Poderoso.    A tudo atenderá Aquele que é o poder e a sabedoria de Deus nosso Salvador, que dá abundantemente a cada um e não retoma, atenderá a tudo.   
Aquele que é poder e a palavra que contém tudo fornecerá força, .    Queridos Padres e Irmãos, recordemos com frequência aquele tema sagrado e memorável sobre o qual o nosso Seráfico Pai deu um sermão muito solene a mais de cinco mil irmãos: Temos prometido grandes coisas a Deus, mas Deus prometeu-nos coisas maiores.    Portanto, observemos o que prometemos.    Com desejo ardente queremos chegar às coisas boas que nos foram prometidas.    Os prazeres deste mundo são breves, mas o castigo infernal adquirido ao procurar essas delícias é eterno.    O sofrimento que padecemos pelo amor de Cristo e a penitência que fazemos por Ele durará um pouco.    Contudo a glória que Deus dará através de Cristo será infinita.    Muitos são chamados ao Reino da Vida Eterna, mas poucos são escolhidos, porque muito poucas pessoas seguem a Cristo na verdade do seu coração.    Contudo, no último dia, Deus recompensará a todos de acordo com suas obras: a   glória para os bons e Geenna para os ímpios.
    Embora o que prometemos possa ser grandioso, no entanto não é nada em comparação com a recompensa eterna que Deus quer nos dar se isto observarmos fielmente.
    Portanto, vamos agir como homens e não confiar na nossa força.
    O bom Pai que nos criou e nos deu a perfeição evangélica para observar e quem sabe se o barro de que fomos feitos, nos dará força com o Seu auxílio.
    Além disso, Ele dará os seus dons celestiais com tanta profusão e abundância, para que, uma vez superados todos os obstáculos, não sòmente possamos obedecer ao Seu justíssimo Filho, mas também segui-Lo e imitá-Lo com grande alegria e simplicidade de coração, e o que for temporal e anseio sempre depois do que for celestial e eterno.

    Em Cristo estão os nossos méritos, exemplos de vida, ajuda, favores e recompensas.
    Ele é Deus e homem, a verdadeira luz, o esplendor ou a glória e o resplendor da Luz Eterna, o espelho e a imagem impecáveis de Deus, a quem o Pai Eterno fez juiz, legislador e salvação dos homens, de Quem o Espírito Santo deu testemunho.
    Portanto, a nossa meditação e imitação deve ser n' Aquele em quem tudo é justo, fácil, leve, doce, sábio, santo e perfeito.
    Ele é a luz e a expectativa das nações, o ponto final da Lei e a salvação de Deus, o Pai do Mundo vindouro, e, finalmente, a nossa esperança.
    Ele tornou-se para nós a sabedoria de Deus, justiça, santidade e redenção.
    Consubstancial e co-igual com o Pai e co-eterno com o Espírito Santo, um Deus que vive e reina, a Quem seja dado eterno louvor, honra, majestade e glória para sempre.
Amen.

 
    Traduzido do Inglês e adaptado por:
    Ir. Alberto Guimarães OFS
    Fraternidade Franciscana Secular de Braga — Portugal

Sem comentários:

Enviar um comentário