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Braga, Minho, Portugal
Franciscano com paciência beneditina.

domingo, 23 de setembro de 2018

AS CONVERTIDAS DE BRAGA

    O Recolhimento de Santa Maria Madalena e S. Gonçalo, mais conhecido como «Convertidas», foi uma instituição de cariz assistencial fundada pelo Arcebispo D. Rodrigo de Moura Telles, em 1720, sobre uma antiga ermida dedicada aos santos Bartolomeu e Gonçalo.
Antigo Recolhimento das Convertidas em 1995.


Medalhão de pedra na fachada do edifício, representando Santa Maria Madalena.
    Edifício barroco, com a fisionomia de um convento, destinava-se a dar abrigo a "mulheres convertidas a Deus por livre vontade, arrependidas do coração e de seus erros", abrindo as portas a 22 ou 25 de Abril de 1722.
    Espaço de oração, trabalho e penitência para um número variável de duas a quatro dezenas de recolhidas, funcionava como uma comunidade religiosa, embora as motivações para as entradas fossem diversas.
    As expulsões e fugas eram frequentes.
    Com regente e capelão, a instituição viu revista a sua missão em sucessivas ocasiões, mantendo, todavia, o seu âmbito assistencial junto da população feminina.
    Desde 1884 sob a alçada do Governo Civil, fechou as portas em 1999 devido ao estado de degradação em que se encontrava.
D. Rodrigo de Moura Telles.


    Em 2012 foi classificado como Monumento de Interesse Público, e em 2014 foi preservado e inventariado todo o seu espólio.

FUNDADOR
    O fundador do Recolhimento de Santa Maria Madalena e S. Gonçalo foi D. Rodrigo de Moura Telles, Arcebispo de Braga entre 1704 e 1728.
Pormenor do edifício, em 2011, com evidentes sinais de
degradação.

    Citado como detendo um carácter dinâmico e empreendedor, revelou-se como um homem do seu tempo, experimentando um ambiente social e religioso integrado plenamente nos cânones do Barroco.
    A sua obra estende-se, desde a dimensão pastoral, até ao âmbito social e monumental.
    São inúmeras as marcas do seu legado na cidade de Braga, sendo, por isso mesmo, considerado uma das mais relevantes personalidades da história brácara.
    Aproveitando o novo plano de urbanização da montanha do Reduto, onde vai surgir o Campo Novo e ruas anexas, vai adquirir os espaços contíguos à Capela de S. Gonçalo e "o Recolhimento de Santa Maria Madalena e S. Gonçalo, que fundamos no Campo de Santa Ana desta nossa cidade para mulheres convertidas, lhes demos estatutos em que se acham dispostas para o exemplo, edificação e vida observante de todas as matérias".
Armas-de-Fé de D. Rodrigo de Moura Telles, na fachada do Recolhimento.

    Enquanto viveu, sempre acompanhou a vida interna da instituição, intervindo sempre que necessário.
    Após a sua morte, deixou 400 mil réis no seu testamento para o sustento da instituição que fundara.


ESPAÇO
Campo Novo, situado no local do antigo Reduto.

    O Recolhimento das Convertidas localiza-se no antigo Campo de Santana, precisamente no gaveto com a rua de S. Gonçalo, que se integrou no plano de urbanização do Campo Novo, coevo da sua fundação.
    Lugar privilegiado da expansão urbanística da cidade no decorrer do século XVIII.
    No seu espaço estava instituída uma Capela devotada a S. Gonçalo e, antes, a S. Bartolomeu, que terá sido fundada no final do século XV, presumìvelmente por intermédio do Arcebispo D. Jorge da Costa.
D. Jorge da Costa.
    A estrutura do edifício não é muito diferente de um qualquer convento feminino.
    Organizando-se em torno de um pátio interior para onde estão voltadas as janelas das celas, apenas os espaços comuns gozam de visibilidade para o mundo exterior.
    
Janelas das celas, voltadas para o pátio interior.
Fachada voltada à Avenida Central.
    A fachada é simples, mas possui mirante, no gaveto entre a Rua de S. Gonçalo e a Avenida Central, e um pórtico de entrada lateral para a capela.
Mirante.
Interior da capela.
    Este espaço de culto, aberto à comunidade, detém um interessante retábulo-mor em talha dourada, tectos pintados e interessantes exemplares de arte sacra.
    
    
Retábulo do altar-mor.
Púlpito, podendo ver-se parte da pintura do tecto.

Dois pormenores da talha.
Pintura do tecto, representando Santa Catarina de Sena.


    Ao fundo, tal como em qualquer templo conventual de reclusão, observa-se o coro alto e o coro baixo, para usufruto exclusivo das recolhidas.
    Na portaria mantém-se o sino e a roda, testemunho quase exclusivo da comunicação com o exterior.
    Mantendo uma significativa fidelidade à sua versão original, o recolhimento é um testemunho único da sociedade bracarense de setecentos.


DEVOÇÕES


    A devoção matricial do espaço onde viria a surgir o Recolhimento das Convertidas ś S. Bartolomeu.
    O santo, que se celebra no dia do «diabo à solta» e cujo culto se encontra associado a um conjunto de práticas supersticiosas, foi o primeiro orago da capela, presumìvelmente fundada nos últimos anos do século XV.
    Em 1601 é instituída uma confraria devotada a S. Gonçalo, orago que gozou de particular popularidade neste período e que acabou por se adonar do patronato oficial do espaço de culto.
    A imagem de santa Maria Madalena, coeva da fundação do recolhimento, foi eleita como orago principal a partir de 1722.
Imagem de Santa Maria Madalena.
    A estatura e imponência da sua execução justifica o destaque que lhe fora concedido, derivado fundamentalmente do modelo de conversão que representava para as mulheres ali recolhidas.
    Tratava-se da mulher «pecadora», natural de Magdala, que passaria a seguir Jesus e se tornaria na primeira testemunha da Ressurreição.
    Além destas evocações, cuja presença se fundamenta no percurso temporal daquele espaço de culto, coexiste uma outra, derivada da devoção particular do Arcebispo fundador: S. Rodrigo.
    Efectivamente, as instituições fundadas por D. Rodrigo de Moura Telles costumam exibir alguma referência ao seu homónimo orago.
Pormenor da imagem.

ESPÓLIO


    Tal como qualquer outra instituição religiosa, mormente as femininas, o Recolhimento das Convertidas apresenta um repositório relevante do ponto de vista artístico.
    Recordemos que além das mulheres que se dedicariam à prostituição, a instituição acolhia também meninas de família socialmente distintas, esposas que apresentavam condutas desordenadas, entre outros casos de flagrante emergência social.
    Com a abundância de receitas, doações e, provàvelmente, de dotes, este recolhimento bracarense acabou por reunir um interessante conjunto de objectos que serviam de reserva para o seu sustento e adorno mdos seus espaços comuns, mormente da capela.
    Telas, esculturas, oratórios, ourivesaria e têxteis, além das alfaias litúrgicas, integram o espólio do antigo recolhimento.
    Todos os artefactos e objectos de valor patrimonial foram inventariados, fotografados e salvaguardados ao longo do ano de 2014, por intermédio da Direcção Regional de Cultura do Norte.
    Este inventário, que integra tudo o que estava no interior do edifício, permite reportar todas as peças ao respectivo espaço, tornando possível reconstituir a funcionalidade e o usofruto das sucessivas vivências daquele imóvel.


Oratório pertencente ao Recolhimento das Convertidas.
VIDA
    Além dos objectos com valor artístico, o espólio das Convertidas apresenta um incomensurável rol de artefactos que integravam o quotidiano das mulheres que ali encontraram a sua morada.
Livro de registos.
    Recorde-se que, a partir do momento em que o Recolhimento passou para a esfera pública, a sua missão passou a ser essencialmente pelo acolhimento de mulheres sem retaguarda social, convertendo-se, nas derradeiras décadas de ocupação, numa residência sénior na dependência do Governo Civil.
    Além dos objectos relacionados com o cultoque, contìnuamente, se realizou na capela do Recolhimento, encontrámos alguma documentação ─ cartas, registos de entrada, livros de despesa ─ fotografias, pautas de música, livros, pagelas, naperons, entre outros objectos pessoais que acabaram por permanecer no seu interior após o abandono das instalações, em 1999.
    Nota ainda para um conjunto significativo de utensílios relacionados com a realização de trabalhos manuais, que serviriam certamente para auxiliar ao sustento das recolhidas.
    Este espólio é fundamental para o estudo e salvaguarda da memória do Recolhimento das Convertidas.

    Rui Ferreira (adaptado)

INFERNO SUBMARINO ─ DESAFIO A ROMMEL

INFERNO SUBMARINO ─ PERSEGUIÇÃO IMPLACÁVEL

2018-09-22 ─ BRAGA BARROCA ─ ENCENAÇÃO DA ENTRADA TRIUNFAL DO ARCEBISPO ...

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

PROCISSÃO DA FESTA DE NOSSA SENHORA D'AJUDA DE ESPINHO ─ 2018 ─ O MEU PARECER


    Durante os vinte anos que vivi em Espinho (entre 1961 e 1981), posso afirmar que poucas foram as vezes em que não assisti ou não participei nesta procissão.
    Foi desta procissão o meu primeiro documentário fotográfico, em 1964, quando eu contava apenas 12 anos. Penso que já escrevi sobre isto neste «blog».
    Poucas são as festas religiosas, por esse Portugal além, que nos seus cartazes não se refiram à procissão respectiva como «majestosa». Muitas vezes é uma desilusão!
    «Majestosa procissão», para mim, é esta: a de Nossa Senhora d'Ajuda, em Espinho. A única verdadeiramente digna de tal classificação, quer pelo número de andores e imagens quer pela extensão do percurso.
    Antes de 1974, o préstito, saindo da capela de Santa Maria Maior, atravessava a passagem de nível da Rua 23, percorria para Sul a Avenida 8, descia a Rua 31, virava a Norte na Avenida 2 e postava-se voltado para o mar entre as ruas 23 e 19.
    Como hoje, era então proferido o sermão da Bênção do Mar, a fanfarra formada nas escadas da praia tocava a marcha de continência e subia ao ar uma demorada girândola de foguetes.
    Depois subia a Rua 19 até à Rua 18, virava a Sul e descia a Rua 23, recolhendo à capela.
    Com o encerramento da passagem de nível da estação, na Rua 19, passou a sair da capela e a dirigir-se para Sul pela Rua 8, até à passagem de nível da Rua 33 (Fundição ou Fábrica Progresso), descendo à Rua 2 (aqui passava à minha porta), voltando a Norte e esperando o final da Bênção do Mar no fim da Rua 23. Após este sobe (ainda hoje) a Rua 23, volta a Norte na Rua 18, desce a Rua 19 e vira na Rua 8, recolhendo à capela.
    Em extensão, o percurso não se alterou muito.
    Agora quanto a andores...
    Nos anos 60, 70 e 80 já eram muitos, talvez uns vinte.
    De há anos para cà multiplicaram-se.
    Apareceram novas imagens, de santos recentemente canonizados e não só, porque vêm imagens de várias paróquias do concelho.
    Antes da procissão, parte dos andores estão no adro da capela, porque já não cabem là dentro.
    Ontem, Domingo, dia 16 de Setembro de 2018, fui a Espinho fazer o documentário foto-videográfico que apresento nesta crónica.
    O meu local de colheita de imagens foi na Rua 8, entre as ruas 27 e 29.
    A procissão, que dantes saía às 17 horas, começou a sair ainda antes das 16H30, isto porque já se previa a demora da sua formação.
    A fanfarra passou em marcha ordinária até à Rua 33 (agora sem «cancelas») e logo a seguir três acólitos com a cruz paroquial e as lanternas também passaram em passo apressado até à fanfarra.
    Seguiu-se um longo compasso de espera, e apenas comecei a gravar quando os guiões das Irmandades de Nossa Senhora da Ajuda e do Santíssimo Sacramento se aproximaram.
    Foram mais de 40 minutos de gravação!

Tapete de sal e flores, na Rua 2.

Fanfarra dos Bombeiros Voluntários do Concelho de Espinho.



    Agora o meu humilde e modesto parecer:
   Não contei  (nem ao visionar o vídeo) o número de andores e imagens, mas por um comentário que ouvi eram 40!!!!
   Um exagero!
   Está certo que se dêem a conhecer os novos santos, mas num acto que, para além de devoção é tradição, não julgo oportuno. É para ser feito numa igreja ou num auditório, por um bom pregador ou conferencista e longe dos ruídos e da confusão de uma festa.
   Pelo que também ouvi, há imagens que foram oferecidas por devotos de quem elas representam.
    Muito bem. Mas esse culto privado é para ser praticado na intimidade.
    Vieram imagens de outras paróquias. Certo. É um símbolo de união com Espinho e o fim de rivalidades antigas. Mas bastava que viesse a do orago de cada uma (só não veio o de Paramos, Santo Tirso, cujo hagiológio poucos conhecerão).
    Uma profusão de imagens da Virgem Maria, de várias invocações...
    Que me desculpem os meus amigos de Espinho, mas isto não é uma procissão: é um museu de arte sacra ambulante e a céu aberto!
    A minha insignificante opinião é a de que se volte à relativa sobriedade de outros tempos, a qualidade acima da quantidade!
    Que saiam aquelas imagens dos templos da cidade que os espinhenses se habituaram a venerar desde longa data e, para além destes, como refiro acima, que venham das outras paróquias apenas as dos respectivos oragos.
    Os meus votos de Paz e Bem, com as bênçãos de Jesus, Nossa Senhora d'Ajuda e S. Francisco!

MOINHOS DA APÚLIA

MOINHOS DA APÚLIA
por Rob
2018
Óleo sobre cartão telado.
178 x 127 mm.

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

ATÉ SEMPRE, RUI!

O Rui (à esquerda), comigo e com o Álvaro Ramilo, no Colégio de Nossa Senhora da Conceição,
em Espinho, em 1970.

    O Rui Lacerda Machado, meu condiscípulo nos velhos tempos de Espinho, faleceu ontem, 6 de Setembro de 2018, de doença súbita, numa peregrinação a Santiago de Compostela.
    Nascido a 10 de Março de 1954 e formado pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, o Rui dirigia o gabinete RDLM Arquitectos Lda., que, fundado pelo seu pai, fica agora entregue à terceira geração da mesma família. 
    Foi o autor de edifícios como o Auditório de Espinho, o Casino, a Escola Secundária Manuel Laranjeira e a Biblioteca Municipal José Marmelo e Silva.


    Esta é uma grande perda para a família, para os amigos e para Espinho, pois para além de um espinhense apaixonado pela cidade, perde-se uma importante figura na área da fotografia e da arquitectura. 
   Em parceria com o arquitecto espanhol Francisco Mangado Terra foi o vencedor do Projecto de Requalificação do Canal Ferroviário, e o seu legado ficará para sempre na história da cidade.
   Era "um orgulhoso e empenhado espinhense, que colocou o seu talento e a sua generosidade ao serviço da valorização urbanística da cidade, pelo que essa ficará seguramente mais pobre sem o seu contributo", segundo o Presidente da Câmara de Espinho.
    Já no resto do País, destacam-se entre os seus trabalhos o Hotel-Casino de Chaves e a Escola Secundária Augusto Gomes, em Matosinhos, assim como o design interior do Casino de Vilamoura e do Hotel-Casino do Algarve.
    No Brasil, por sua vez, foi coautor com o Estúdio 41 de três centros de congressos, nomeadamente em Paraty, Nova Friburgo e Cabo Frio.
Descansa em paz, amigo!


quinta-feira, 6 de setembro de 2018

NO BRASIL: CRIANÇAS VÃO DESCALÇAS À PRIMEIRA COMUNHÃO


    Em Novembro de 2010, na paróquia de Santa Gemma Galgani, estado de Belo Horizonte, realizou-se a sempre comovente cerimónia da Primeira Comunhão de um numeroso grupo de meninas e meninos.
    Uma característica que nunca antes havia visto: as crianças vestiam elegantes túnicas brancas e iam descalças!
    Muito bonito e muito salutar! 
    Cheio de significado, se atendermos ao que está no Êxodo: «Descalça as tuas sandálias, porque o solo que pisas é terra sagrada».
    Pena foi mais ninguém ter ido descalço, desde o celebrante e catequista ao mais anónimo dos fiéis!
    Eis algumas imagens da celebração:






























    Também isto se repetiu na Paróquia de S. Paulo Apóstolo, em Goiânia - Goiás:





    E na Paróquia de Nossa Senhora da Guia, em Divinópolis, em 2015 e 2016:







    Pergunto eu: Para quando em Portugal?...