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Franciscano com paciência beneditina.

sábado, 31 de agosto de 2019

2019-08-25 ─ PROCISSÃO DE NOSSA SENHORA DE LOURDES ─ LAJES DO PICO ─ AÇORES



TOCANDO EM BARCELOS


Percurso descalcista de 29 de Agosto de 2019.
Conforme o assinalado, a parte percorrida na paróquia de S. João de Bastuço não figura nesta quadrícula da Carta Corográfica de Portugal.

    Por razões várias vi-me forçado a interromper, durante cinco meses, as minhas descalças caminhadas.

    Elegi para este dia 29 de Agosto de 2019 conhecer mais em pormenor a paróquia de S, Julião de Passos e daí seguir para os Bastuços, Santo Estêvão e S. João, já no arciprestado de Barcelos, não figurando esta última paróquia (S. João de Bastuço) na quadrícula da Carta Corográfica de Portugal referente a Braga.
    Para não me aventurar totalmente no desconhecido pus a informática a render e vali-me do Google-Earth, a fim de colher pontos de referência que não figuram na carta, uma vez que esta edição data de 1989.
    Tomando o «24» dos «TUB» saí em Sequeira, abandonando logo que possível a Avenida de Sequeira, ou Recta da mesma, ou Estirão.
    Enfim, o que lhe queiram chamar...
    Desci a Rua da Breia, até ao cruzamento da Rua de Trás-o-Rio, onde encontrei esta estranha carripana cuja utilidade agrícola não consegui descobrir:



    Continuei pela Rua de Trás-o-Rio, de casas rústicas bem recuperadas:




    Àquela hora da manhã (cerca das 10 horas) o tempo ainda estava ameno e o pavimento fresco, bom para se andar descalço.


    Passei depois pela Rua da Lardoeira (é assim mesmo o nome: «Lardoeira» e não «Ladroeira»...), pelo Caminho Municipal 1318 e pela Rua do Passal, esta já em S. Julião de Passos.


    S. Julião fica situada a 7 kms. da cidade de Braga.
    Pertenceu ao concelho de Barcelos, tendo apenas ficado a pertencer ao de Braga em Outubro de 1853.
    Foi também designada por «Sequeira», embora nada tenha a ver com a paróquia actualmente assim designada, com a qual confina, e que tem como Orago Santa Maria.
    O primeiro documento escrito relativo a S. Julião de Passos data de 1018 (Arquivo Distrital de Braga ─ Liber Fidei ─ documentos 68, 73 e 745).
    Em 1290 aparece pela primeira vez como «Parrochia Sancti Johanni (sic) de Paacos».
    Todos os documentos escritos até meados do século XVI a referem  dentro do território de Penafiel de Bastuço e não autorizam a grafia Passos com que modernamente aparece nos Recenseamentos.
    No século XVIII figurava como uma abadia da apresentação da Mitra a que andava anexada a paróquia de Serra (S. Tomé)
    Símbolos heráldicos:
    Em campo de ouro, torre de vermelho, iluminada, aberta e lavrada de prata. 
    Em campanha, dois ramos de pinheiros, frutados, tudo de verde, com os pés passados em aspa. 
    Coroa mural de prata de três torres. 
    Listel branco com a legenda a negro, em maiúsculas : “ PASSOS – S. JULIÃO “.



    Parei junto à igreja paroquial de S. Julião, a fim de descansar um pouco e recitar o Ofício de Leitura, as Laudes e a Sexta.
Igreja paroquial de S. Julião de Passos ─ Braga.
    O orago será talvez S. Julião de Anazarbo, também conhecido como Julião da Cilícia ou Julião de Tarso, mártir do século IV e canonizado pela Igreja Católica.
    Era filho de um senador e aos 18 anos, durante as perseguições de Diocleciano, foi preso por ser cristão.
    Conta-se que resistiu aos tormentos e depois aos métodos suaves com que tentaram pervertê-lo.
    Durante um ano foi conduzido por vilas e aldeias da região da Cilícia, a fim de ser escarnecido.
    Nada o demoveu da sua fidelidade a Jesus Cristo.
    Resolveram então lançá-lo ao mar dentro de um saco de areia, junto com serpentes e escorpiões.
    O corpo deu à costa em Alexandria, sendo posteriormente sepultado em Antioquia. 
    
S. Julião de Anazarbo.

No adro da igreja.
    Retemperados o corpo e o espírito tomei a Estrada Municipal 561 em direcção a Santo Estêvão de Bastuço, local onde iria «almoçar», ou melhor dizendo, tomar a «ração de combate», mais pròpriamente.
    Estas são algumas imagens que colhi pelo caminho: 




Numas escadas em ruínas.
Como gosto de sentir nos pés as velhas pedras!
Num cruzeiro à beira da estrada.


    Cheguei, por fim, à paróquia de Santo Estêvão de Bastuço e, por consequência, ao  concelho / arciprestado de Barcelos:


    Ao entrar em terras de Barcelos notei melhorias no caminho: a estrada até aí era de «paralelo» e sem passeio; daqui para a frente era asfaltada e tinha passeio na maior parte do percurso.


    Antigamente, Santo Estêvão era designada por S. Félix ou Sanfins.
    Fica situada no extremo Este do arciprestado, a cerca de 15 kms. da cidade de Barcelos, junto do monte Bastúcio (actual serra de Airó), donde proveio o nome.
    Referem-se-lhe documentos escritos a partir de 1018, já no território de Braga (1024 a 1100), já no de Penafiel de Bastuço (Inquirições de 1220 e 1228): paróquia de Santo Estêvão de Félix ou São Fins, como «honra» do Mosteiro de Tibães, no julgado de Penafiel; 1528: S. Fins, anexa ao Mosteiro de Vimieiro; em 1551 era anexa in perpetuum a S. Paio de Bastuço; esta última, porém, de anexante passou a simples lugar da anexada e o orago mudou para Santo Estêvão.
    A paróquia de Santo Estêvão de Bastuço, segundo Américo Costa, era uma vigararia da apresentação da Colegiada de Valença e, posteriormente, reitoria. 
    Há conhecimento de que Bastuço, Santo Estêvão foi uma Vigararia da apresentação do Colégio de Santo Agostinho de Lisboa (Graça), mas a identificação dos povos que aí se fixaram e as origens mais remotas desta terra são difíceis de determinar, pelo facto de existirem muitas perspectivas diferentes. 
    Por exemplo, na fronteira com Freguesia de Encourados, no local conhecido por Castro, foram encontrados vestígios de construções antiquíssimas a que o povo chamou de “casas dos Mouros”. 
    Em contrapartida, T. da Fonseca dizia que «os pobres árabes, se aqui estiveram, foi só de passagem». 
    Assim, de acordo com a opinião deste autor, o mais provável será ter existido nesta Freguesia algum castro romano para vigiar e assegurar as comunicações pelo rio com a cidade de Bracara Augusta (Braga), o qual terá dado origem à vila ou cidade de “Pena Fiel de Bastião”. 
    Esta incluiria, nos limites de Bastuço Santo Estêvão e de Airó S. Jorge, o Castelo de Penafiel, sede do julgado com o mesmo nome.
    A raiz etimológica do topónimo desta Freguesia, ao que tudo indica, remonta à época pré-romana e, segundo várias interpretações de historiadores, pode provir de “bástulo” ou “bastinano”, nome de povos antigos que habitaram esta região, ou da palavra “Basto”, devido às muitas árvores de mato ou urzes que ali havia. 
    Ainda segundo a opinião de Pinho Leal, “Bastuço” no português antigo, significa “bastinho”.
    Símbolos heráldicos:
    Em campo verde, cesto de prata realçado de negro e dois arbustos de negro, realçados de ouro, tudo alinhado em roquete.
    Coroa mural de prata de três torres. Listel branco, com a legenda a negro: "BASTUÇO - SANTO ESTEVÃO".
    Considerando-me seguro nos passeios, sem risco, pude gravar mais um vídeo:


    Conforme pode ser visto neste vídeo, ao virarmos a esquina em direcção à igreja deparamos com o oratório de Nossa Senhora do Lugão.
    Fiz pesquisas sobre esta invocação da Virgem mas nada encontrei.
    Finalmente a igreja paroquial, em cuja galilé, à sombra, estendi a toalha no chão e comi uma sanduíche de cavalas em tomate e uma banana, que me chegaram perfeitamente para alimentar o corpo até à hora de jantar.


Dois aspectos da igreja paroquial de Santo Estêvão de Bastuço.
No adro, ao fim do almoço.
    Voltei à Municipal 561 a fim de me dirigir a S. João de Bastuço.
    Penso que seria um desperdício não ir a S. João apenas porque não figura na quadrícula corográfica de Braga.
    Tanto mais que neste dia 29 de Agosto se comemora a memória litúrgica do martírio de S. João Baptista, orago da paróquia.
    Se houve figura 100 % descalcista na História Sagrada foi ele.
    João foi a imagem viva da austeridade, no local onde vivia, o que comia (mel silvestre, gafanhotos e sabe-se là que mais), o que vestia (uma pele de camelo) e poderia jurar que os seus benditos pés, tanto tempo mergulhados nas águas do Jordão, nunca conheceram calçado.
    Quase poderia assegurar que o seu ascetismo o levaria a uma longa vida, não fosse a fraqueza de Herodes, o ódio de Herodíade e a ignorância e insensatez de Salomé.




    As Inquirições de 1258 referem-se a S. João de Bastuço como colação, no território de Faria; as de 1290 dão-na já como paróquia, no mesmo território.
    Em 1320, 1371, 1400 e 1528 referem-na como fazendo parte do território de Penafiel de Bastuço.
    Pinho Leal diz que foi «honra» de Sá, sujeita ao comendador de Chavão, e que houve aqui uma capela dedicada a S. Silvestre, fundada por um eremita de nome Joane, que alguns historiadores dão como descendente dos condes de Urgel e que Arnaldo Gama diz ser D. João de Ponce Cabrera, muito querido de D. Afonso, primeiro Duque de Bragança, e da rainha D. Filipa de Lencastre.
    Passa nesta localidade o Ribeiro de Real, afluente do Rio Côvo, que desagua no Cávado.
    A igreja de S. João de Bastuço obedece a um estilo arquitectónico muito semelhante à de Santo Estêvão, embora esteja como que «entalada» entre o Caminho Municipal 1084-1, com o cemitério mesmo em frente, a EM561, um prédio urbano e outro rústico.
    Símbolos heráldicos da paróquia:
    Escudo de vermelho, Agnus Dei de prata, nimbado de ouro, sustendo vara crucífera do mesmo, com lábaro de prata carregado de cruz firmada de vermelho.
    Nos cantões do chefe, dois cachos de uvas de ouro, folhados de prata. 
    Coroa mural de prata de três torres. 
    Listel branco, com a legenda a negro: “ BASTUÇO – S. JOÃO “.

Igreja paroquial de S. João de Bastuço.



Painel de azulejos representando S. João Baptista, no adro da igreja paroquial de S. João de Bastuço.

    Estava completa a minha «incursão» em terras de Bastuço, e agora ia descer para Cunha, novamente no arciprestado de Braga.
    A partir da igreja de S. João tomei o Caminho Municipal 1084-1, e não demorei muito até encontrar o Caminho da Vinha.
    Este caminho é uma calçada antiga, com alguma gravilha entre as pedras gastas.
    Já tinha os pés doridos, desabituados de caminhadas assim longas.
    Também não demorei a encontrar uma placa de madeira a dizer «Cunha». 



    Cunha está situada a cerca de 11 kms. da cidade de Braga, na parte Sudoeste do concelho, no limite com o vizinho arciprestado de Barcelos, num fértil vale que permite a prática de uma agricultura rentável.
    Tem como confinantes, no concelho de Braga, as paróquias de Tadim, Ruilhe e Arentim.
    Era um primitivo povoamento, muito remoto, confirmado não só pela vizinhança do nome castrejo de Bastuço, cuja «civitas» foi origem da circunscrição de Penafiel de Bastuço, mas também por uma toponimia muito notável: 
    ─ Cunha, que se crê porvir do arcaico «Coina» ou «colina», indubitável étimo. 
    ─ Frijão (genitivo pessoal de origem germânica) ─ Froila, isto é, «villa» Frogilani, século XII.
    ─ Gondomar («villa» Gundemari, id.).
    ─ Os arcaicos senhoriais Quintães (de quintãa» e Paço (de «paaço».
    O povoado do Pego representa o povoamento inicial da localidade.
    Trata-se de uma mancha de ocupação cujos materiais são de difícil datação.
    Ainda assim é possível encontrar características da Idade do Bronze e da Idade do Ferro, num reduto defensivo que se prolongou até à Idade Média Cristã.
    A Fossa de Frijão, no lugar do Espinheiral, terá sido utilizada como tal (fossa detrítica) durante a Idade do Ferro e o período romano, sem que tenham surgido, no entanto, quaisquer vestígios de ocupação. 
    Nesse mesmo local, a meia-encosta, foram encontrados vários fragmentos de moinhos manuais (moventes e dormentes), provenientes de um antigo povoado da Idade do Ferro.
    Esse povoado encontra-se numa vertente do monte voltado aos férteis vales dos ribeiros tributários do Rio Este.
    
    Em 1228 D. Afonso Henriques doou à Sé arquiepiscopal o «Argentinum monasterium et Comam (Coinam)».
    Referem-se-lhe as Inquirições de 1258: «in Collatione Sancti Michaelis de Cunya».
    Recebeu foral de D. Afonso III, a 5 de Abril de 1263 (Torre do Tombo, Livro de Doações do Sr. Rei D. Affonso III, fl. 66 v. in fine).
    A antiga freguesia era primitivamente, segundo o Pe. António Carvalho da Costa (Pe. Carvalho), abadia dos Cunhas, a quem foi tirada por El-rei D. Dinis em 8 de Setembro de 1285, passando ao Padroado Real.
    Este arresto foi imposto como castigo a Lourenço Gomes da Cunha por este haver causado certos agravos e prejuízos às freiras de Santa Ana de Coimbra, tal como descreve a Coreografia Portuguesa e a descrição topográfica da autoria do referido Pe. Carvalho.
    Cunha e Ruílhe são duas freguesias irmanadas na História, uma vez que foram doadas à Câmara de Guimarães pelo Duque de Barcelos D. Jaime, para lhe varrerem as ruas nove vezes por ano, como expiação pelo castigo imposto aos de Barcelos , que se portaram cobardemente durante a conquista de Ceuta.
    Esta decisão foi tomada quando a localidade tinha sessenta vizinhos.
    Conservam-se ainda restos do antiquíssimo solar dos primitivos donatários.

 


    Conheço uma boa parte de Cunha, e tenho là bons amigos, sendo-me permitido citar aqui o casal Maria «dos Santos» e João, e ainda a D. Fátima Marques.
    Claro que este dia de caminhada não se destinava a actos sociais, tanto mais que a fadiga que eu já exteriorizava iria obrigar os meus amigos a franquear-me a casa, fazer-me comer e beber mesmo que não me apetecesse, quem sabe se me levar a casa, etc., etc.
    Entrei novamente no CM1084-1, na paróquia designado como Rua da Feira Nova.
    Sentei-me a descansar na paragem de autocarro do cruzamento com a Rua do Portelo, e aproveitei para rezar a Noa.
    Daqui iria para a capela de Nossa Senhora do Carmo, pelas ruas do Portelo e de Beirão, tendo de parar, a meio de uma subida, junto a uma «Cruz do Milénio», onde fotografei os verdejantes campos:




Junto à «Cruz do Milénio».

    Cheguei por fim ao Cruzeiro, no Largo do Foral, e daí rumei à capela de Nossa Senhora do Carmo, onde iria parar para, mais uma vez, descansar, rezar as Vésperas e o Rosário e fazer horas para o autocarro.

Capela de Nossa Senhora do Carmo.
Altar e retábulo com a imagem de Nossa Senhora do Carmo.
Imagem de Nossa Senhora do Carmo.

Imagem de Santo António de Lisboa.

Imagem de S. José.
Imagem de S. Bento.


No alpendre da capela.

    Algumas vezes, não posso precisar quantas, acompanhei descalço a procissão da festa de Nossa Senhora do Carmo (2º Domingo de Agosto), mesmo antes de 2006, ano em que entrei oficialmente para o «grémio» mundial dos descalcistas.
    Como acompanhei muitos outros actos religiosos, antes dessa data.
    Terminada a minha descalça jornada retomei o caminho para o Largo do Foral, onde pára o autocarro, não sem antes ter ido à igreja paroquial:

Igreja paroquial de Cunha.
Altar-mor e retábulo.
Interior da igreja, visto do coro alto.
Adoração ao Santíssimo Sacramento (pintura do tecto).
Arcanjo S. Miguel, orago da paróquia (pintura do tecto).


No cruzeiro de Cunha: fim da jornada.

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

COMO FAZER DAS PROCISSÕES MANIFESTAÇÕES DE FÉ CRISTÃ?

por Pe. António Sílvio Couto
Diário do Minho ─ 26 de Agosto de 2019
    «Nas suas formas genuínas, as procissões são manifestações da fé do povo e têm frequentemente conotações culturais capazes de despertar o sentimento religioso dos fiéis. 
    «Porém, do ponto de vista da fé cristã, as ‘procissões votivas dos santos’ [levando processionalmente as relíquias ou uma estátua ou uma efígie dos santos pelas ruas da cidade], tal como outros exercícios de piedade, estão expostas a alguns riscos e perigos» – Diretório sobre a piedade popular e a liturgia, n.º 246. 
    Desde já uma declaração de interesse: sou defensor das procissões, sempre as vi e as vivi como manifestações de fé e considera-as ainda como oportunidades (aproveitadas ou perdidas) de evangelização mais do que de catequese. 
    Tal como se diz no documento da Congregação para o culto divino e a disciplina dos sacramentos, há riscos e perigos. 
    Neste texto gostaríamos de centrar a atenção nestes sinais nem sempre positivos ou talvez mais reveladores de algum paganismo infiltrado nas ‘nossas procissões’.
    Escrevo depois de uma experiência recente menos boa ou mesmo desagradável de duas procissões na mesma tarde, no contexto da mesma paróquia, mas sob a alçada de povoações rivais, controversas e um tanto complexas… 
    Sem exagero encontro nas ‘nossas’ procissões os riscos seguintes: 
    – Termos pessoas que participam, levando os andores ou outros sinais, que não têm um mínimo de prática religiosa e nalguns casos nem formação humana e de educação. 
    – Não haver uma preparação suficiente para desempenhar essa tarefa, pois não basta ter boa vontade, é necessário que tenhamos compostura, asseio e bom senso
    – Podermos até, sem disso nos darmos conta, mais exaltar a vaidade do que o serviço, o bairrismo mais do que a comunhão, a discórdia mais do que a união. 
    – Perdermos a oportunidade de apontar para Deus, que os santos e Nossa Senhora quiseram glorificar, para realçarmos facetas mais humanas e, por vezes, um tanto pagãs ou paganizadas.
    – Deixarmos de rédea solta quem não sabe nem quer saber do significado das procissões e da sua relação com o divino, mais do que na convulsão do humano. 
    – Podermos confundir estas manifestações de fé com outros momentos sociais, sindicais ou políticos, misturando ou deixando que possa haver aproveitamentos menos dignos de alguns.


    Esta meia dúzia de riscos e/ou perigos serão tanto mais potenciados quanto os intervenientes se deixam guiar por intuitos que não servem a boa-fé nem a fé boa.
    Com efeito, certos bairrismos onde se quer suplantar os vizinhos pelo foguetório ─ antes, durante ou depois ─ será isso digno de sentimento religioso, que deve estar presente nas procissões? 
    Quando os adereços de (ditos) artistas de renome ─ às vezes não passam de embrulho e de pacotes de agência ─ servem para que se meça o valor da festa, será isso dimensão cultural mínima e suficiente? 
    Quando se pretende fazer de uma festa ou de uma procissão em particular uma tentativa de afirmação social, económica ou de grupo, não estaremos a desvirtuar a genuinidade da fé que fez surgir tais manifestações dos crentes?
    É neste quadro de ser manifestação de fé ─ simples ou esclarecida, enraizada ou adventícia, mais pessoal ou popular ─ que devemos fazer com que as procissões não se desviem do seu sentido original, pois isso seria ofender aqueles a quem pretendemos honrar, fazendo que os imitemos na forma como se deixaram fazer santos/as. 
    Levar para a rua essas imagens ─ maiores ou mais pequenas, mais bonitas ou mais rudimentares, mais singelas ou mais ricas ─ é sempre um compromisso em sermos dignos de quantos nos precederam na fé e devemos transmitir aos vindouros não só uma certa tradição, mas um testemunho de vida, alicerçado nos valores do Evangelho e no seguimento actualizado de Jesus, o nosso Mestre e Senhor. 
    Pelas procissões, sim, mas que tenham beleza, organização e cristianismo… 
    Tudo o resto pode ser rapidamente exorcizado de tantas influências malignas, tendenciosas e paganizadas…