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Franciscano com paciência beneditina.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

A FESTA DO CONE ILUMINADO


POLÌTICAMENTE CORRECTO

A FESTA DO CONE ILUMINADO

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    O bolo-rei já não tem brinde. 
    A Bela Adormecida ficou sem beijo porque o príncipe foi acusado de abuso. 
    A fruta não tem bicho. 
    O Natal ficou sem Menino Jesus e tornou-se a festa do cone iluminado.

    De repente no meio da rua là está aquela traquitana metalico-luminosa a que chamamos Árvore de Natal. 
    E foi perante aquele cone iluminado, artefacto que nos sobrou devidamente expurgado de tudo o que possa identificar aquilo que somos, o que sentimos, o donde vimos, que me dei conta de como em nome da segurança, da tolerância, da saúde e de sei lá mais o quê estamos a criar um mundo faz de conta. 
    Um mundo em que:

    O bolo rei já não tem brinde.
    O iogurte ficou sem lactose.
    As natas perderam a gordura.
    O leite vem da soja e não das vacas.
    Os doces ficaram sem açúcar.
    Os bolos não têm farinha.
    O café perdeu a cafeína.
    A manteiga ficou magra.
    O pão não tem glúten.
    O circo ficou sem leões, depois sem elefantes e agora sem animais.
    A Humanidade ficou sem sexos e dizem que está perder o interesse pelo sexo.
    O namoro ficou sem palavras por causa do assédio.
    A Bela Adormecida ficou sem beijo porque o príncipe foi acusado de abuso.
    A Capuchinho Vermelho já não é salva pelo caçador, que também deixou de caçar, e o lobo ficou vegetariano.
    Os maridos e as mulheres passaram a cônjuges.
    Os parques infantis ficaram sem escorregas de verdade. E alguns sem baloiços.
    Chama-se a televisão em vez da polícia.
    Os brinquedos ficaram sem graça mas estão cheios de didactismo.
    As crianças não têm tempo para não fazer nada.
    A má educação tornou-se bullying.
    Os pátios das escolas já não têm árvores nem terra.
    As gaiolas ficaram sem grilos.
    Os filhos não têm pai nem mãe mas sim progenitores.
    As feiras não têm graça.
    O «Atirei o Pau ao Gato» ficou sem letra.
    A mentira tornou-se inverdade.
    A culpa é alegada.
    A verdade inconveniente.
    O artesanato é certificado.
    A fruta não tem bicho.
    Brincar é uma actividade devidamente monitorizada.
    Os filmes não contam histórias, ilustram teses.
    As universidades tornaram-se uma liga de costumes.
    As coisas deixaram de ser o que são para se tornarem num dado a avaliar consoante o seu enquadramento numa perspectiva condicionada por diversas valências.

Tudo é relativo.