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Franciscano com paciência beneditina.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

«BRICOLAGE» ESPIRITUAL «À LA CARTE»

    Sob a confluência de diversas tendências vemos que, hoje, se manifestam múltiplas formas de religiosidade individualista, onde cada um se serve do que lhe interessa, desde que se sinta (mais ou menos) bem… e que possa tomar das diferentes expressões religiosas ─ desde as mais tradicionais até às menos institucionais ─ o que lhe dá gosto ou fornece resposta às suas pretensões. 
    Os novos «mestres» podem ser gurus à medida das pretensões manifestadas, nessa tendência de cada um ir fazendo e resolvendo, conforme a sua habilidade…
    Importa que cada um possa usar o que está no mercado, aliando um certo jeito para remendar o que possa resolver as questões mais urgentes, sejam reais ou efabuladas… 
    A panóplia de recursos sugeridos é significativa, juntando o que há de mais antigo ao que surgiu no escaparate recente. 
    Músicas ─ algumas delas exotéricas e ambíguas – misturam-se com escritos com boa apresentação. 
    Faz-se o recurso a anjos e a santos, com uma pitada dum certo espírito santo (nada trinitário) ou harmonizações com macumbas, feitiçarias e bruxarias. 
    São fornecidas indicações para sucessos rápidos e truques mais ou menos subliminares, sem esquecer sugestões para interpretar «mistérios» pessoais, familiares ou socioculturais. 
    Faz-se a apologia de «orações» poderosas, que mais não são do que rezas encriptadas para seduzir e entreter quem possa estar em aflição… 
    Bastará consultar um ficheiro onde estes e outros temas possam aparecer e veremos uma multiplicidade de respostas, onde cada um cozinhará a sua alimentação… mesmo que esta possa ser tóxica e que venha a criar dependência psicológica e espiritual.
    Qual a razão para vermos e vivermos sob a influência desta razoável tendência de bricolage espiritual? 
    Esta nova vaga ─ mais abrangente do que a «nova era» – será, assim, tão normal e desconexa do resto da nossa cultura hodierna? 
    As religiões e igrejas tradicionais já levaram a sério esta vaga de confronto? 
    Será que bastará ignorar ou negligenciar para que o assunto se resolva? 
    A quem interessa valorizar indiferenciadamente isto e o resto (as religiões do Livro), se não se identificar os autores, fautores e executores? 
    Porque vão enriquecendo os «autores» deste fenómeno e não se investigam as fortunas ─ numa boa parte livres de impostos ─ que auferem? 
    Será esta bricolage espiritual só resultado da  pesquisa na internet ou revela algo mais sobre a falência de outros fenómenos religiosos clássicos… evangélicos e carismáticos?
    Estas e outras questões podem ser colocadas sobre algo que, por ser tão recente e imediatista, pode fascinar quem esteja mais fragilizado, sobretudo, emocionalmente, em sofrimento ou a precisar duma resposta sem ter de se identificar totalmente. 
    Este serviço ‘à la carte’ serve para o que serve e vale enquanto vale. 
    Há, no entanto, questões sobre a mudança cultural que está subjacente a esta nova religiosidade e que exalta mais o «eu» do que o «nós»: aquele faz-se (ou torna-se) o centro de todo o relacionamento entre as pessoas, que são menosprezadas ou só valem enquanto interessam ao «eu». 
    O questionamento sobre as religiões reveladas ─ temos em conta duma forma especial as do Livro: Judaísmo, Cristianismo e Muçulmanismo ─ é, assim, visto como algo que pode fazer perigar não Deus, mas o Homem, que se pretende fazer deus de si mesmo e impor aos demais como a fonte e a meta de tudo. 
    Este excessivo imanentismo vem fazendo um percurso lento, mas progressivo.
    Mais do que um olhar para fora e para o Além, teremos um homem / mulher enrolado sobre si mesmo e em busca de se satisfazer nesta dimensão de Mundo em que vive fechado, egoísta e quase misantropo.
    Eis, por isso, chegada a hora duma séria, serena e sincera reflexão sobre qual a espiritualidade que estamos a seguir, pois há fortes sinais de que muitos dos cristãos / católicos mais ou menos praticantes são-no em função dessa bricolage à la carte com que frequentam os cultos, os ritos e os sacramentos, na medida em que misturam, conforme lhes convêm, a frequência com outros locais onde lhes é dada uma religiosidade mais emotiva e de adesão de curta duração. 
    A leveza ou a leviandade com que se trocam momentos de Fé por actos sociais secundários não será disso sintoma? 
    Como se pode ser evangelizado se não há continuidade nem compromisso? 
    Falta muito para que se note uma nova evangelização com raízes e consequências… na vida!

    Pe. António Sílvio Couto
    Diário do Minho ─ 7 de Janeiro de 2019