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Braga, Minho, Portugal
Franciscano com paciência beneditina.

sábado, 12 de janeiro de 2019

NAS MARGENS DO HOMEM

    É evidente que me refiro ao Rio Homem, afluente do Cávado.
    Nasce este afluente do Cávado na Portela do Homem (Serra do Gerês).
    Corre na direcção SO e desagua na margem direita do Cávado, em Entre-Pontes, após um percurso de 45 Km.
    Embora custe a acreditar, apenas na quinta-feira, dia 10 de Janeiro de 2019, fiz a minha primeira caminhada descalço em pleno Inverno, e a primeira deste ano que agora começou!
    Dando continuidade ao plano de percursos que estabeleci no ano transacto, decidi-me por um circuito abrangendo a freguesia de Lago, no concelho de Amares, tocando, ainda que ao de leve, nas franjas das freguesias de Rendufe e de Barreiros, conforme está assinalado na Carta Corográfica que sempre me acompanha:
    S. Martinho de Lago é referida documentalmente, pela primeira vez, nas Inquirições de 1220.
    As Inquirições de 1290 chamam-lhe já «Freguesia de Lago», no couto de Rendufe.
    Em 1528 «S. Martinho de Laguo» (estava anexa) a Rendufe».
    Passou, mais tarde, a reitoria.
    O abade beneditino de Rendufe apresentava o pároco de S. Martinho de Lago.
    Nesta freguesia teve o seu solar a nobre família local Lago, que floresceu desde o reinado de D. Afonso II, e do qual era rico-homem D. Gomes Gonçalves do Lago.
    Integrou o concelho de Entre Homem e Cávado, extinto em 31 de Dezembro de 1853, data em que passou para o concelho de Amares.
    Não foi um percurso que eu já não tivesse feito, parcialmente, há anos atrás, ainda de sandálias nos pés, e dessas «digressões» tomei certos pontos de referência, como certos templetes em que a zona é rica.
    Comecei o percurso pedestre na Ponte do Bico, seguindo pela Avenida de Entre-Cávado-e-Homem e voltando depois à esquerda na Avenida da Ribeira.
    
Belo exemplar arquitectónico na Avenida de Entre-Cávado-e-Homem.
   
    Deparei com um cruzamento dum caminho vicinal cuja placa toponímica dizia «Rua do Rio Homem».
    Era um caminho manhoso, mas como pelo nome algo me diria que iria desembocar no rio, comecei a percorrê-lo.
    E não me arrependi!
    Primeiro, porque a textura do piso era de uma erva fresca, à mistura com algumas folhas secas.
    O tempo estava limpo, um pouco frio, mas os pés não se ressentiram.
    Pelo contrário!

    
    O solo fresco suporta-se melhor.
    Segundo, porque pelo caminho encontrei esta casa arruinada, o que sempre desperta a minha curiosidade, uma vez que me ponho a imaginar as histórias de vidas passadas dentro daquelas paredes e debaixo das telhas que ainda restam.


Ruínas na Rua do Rio Homem.
    Là em baixo ouvia cada vez mais nìtidamente o rumorejar do Homem, e fui-me aproximando, agora num piso de folhas secas de carvalho, até chegar a um local verdadeiramente bucólico, na margem esquerda do rio!
    Senti-me em verdadeira harmonia com Deus, com a Natureza e comigo próprio, e por isso decidi ali mesmo recitar o Ofício Divino, as Leituras, as Laudes e a Sexta.


    Terminados aqueles minutos de devoção regressei ao caminho, tendo como objectivo próximo a capela do Senhor da Saúde, que eu já conhecia de percursos anteriores, percursos esses anteriores à minha adesão quase total ao descalcismo, feitos ainda de sandálias nos pés, como já referi acima.
    Por esse caminho fora, a Avenida da Ribeira, fui fotografando aspectos diversos.
    






    Às vezes pergunto a mim mesmo se não somos um País em ruínas, ou, pior que isso, um povo em ruínas...
    Como católico e franciscano, chocou-me ver uma capela em ruínas, que me evocou a atitude do Seráfico Pai ao ouvir a voz de Jesus que lhe dizia: "Vai, Francisco, e repara a minha Igreja, que se está a arruinar".
    Uma capela privada, à face da estrada, mas como privada que é... Está fora do controle eclesiástico!


    Eis que chego ao cruzamento com a Avenida do Rio Homem, onde uma placa indicava a àrea de Lazer de Felinhos.
    Entendi que seria talvez o lugar indicado para o meu ligeiro almoço, e assim enveredei novamente em direcção ao rio, por essa avenida que não é mais que uma picada larga, entre pinhal e eucaliptal.
    A área de lazer situa-se igualmente nesta margem esquerda, e se o local onde parei anteriormente era bucólico este poder-se-ia considerar paradisíaco!
    Mesas, bancos, sombras, a água límpida a correr ali mesmo, a cantar num açude...
    Nesta água mergulhei os pés para recuperar desta primeira experiência de caminhar descalço no Inverno.



    Excelente para abrir o apetite!
    Abri as latas de petingas em molho picante e de atum ao natural e tirei proveito daquele momento.


    De seguida fui conhecer de perto a azenha, sujeitando-me a um risco não de vida mas pelo menos de um grande trambolhão (refiro que há anos, num percurso também aqui em Lago, desequilibrei-me com o peso da mochila e ganhei umas escoriações num braço), de um mergulho nas águas geladas do Homem e de prejuízos no material de captação de imagem.
    É que aqui há locais com lama escorregadia (que, diga-se, é de uma saborosa sensação para os pés).
    Atravessei o açude, que é o único caminho para a azenha.
    E seguiu-se a colheita de imagens:






    Trata-se de um antigo moinho restaurado. 
    Falta unicamente instalar todo o mecanismo necessário para moagem. 
    A Junta de Freguesia tenciona e deseja mostrar às crianças das escolas, através de visitas de estudo guiadas, a forma como se transformava milho ou centeio em farinha para depois se fazer o pão.
    Voltei à avenida/picada, a fim de prosseguir o percurso a que me propus.

    Daí a minutos estava no adro da igreja paroquial.
Igreja paroquial de Lago no dia 26 de Maio de 2011, a data do trambolhão
a que me referi acima.
    A actual igreja foi benzida em 22 de Outubro de 1813. 
    Durante a sua construção, o Santíssimo Sacramento estava depositado na capela de Santa Ana, situada no antigo lugar da Carreira e pertencente a António Pereira de Almeida.
    A Igreja antiga ficava à distância de noventa varas, de cinco palmos de craveira, contadas desde a porta lateral, do Evangelho, da nova igreja, e em linha recta. 
    Em Portugal e no Brasil, até à introdução do sistema métrico, a vara era a unidade básica de medidas lineares, valendo 5 palmos de craveira, ou seja 1,1 metros.
    Daqui se conclui que a antiga igreja estava a cerca de 100 metros da actual.
    Muitas foram as dificuldades a vencer, a freguesia estava dividida.     
   Uns queriam que a igreja se construísse no local da antiga, outros preferiam que se construísse no local onde se encontra actualmente. 
    O terreno onde se encontra era de uns três ou quatro proprietários. 
    Um dos donos do monte recebeu não só o terreno abandonado e secularizado, como as próprias ossadas que lá ficaram.
Da matriz antiga apenas restava uma insignificante parede a fechar um recinto, que então apenas servia de cemitério.
    Entre 1800 e 1809 diversos monges e abades declararam que a igreja velha não tinha condições para receber qualquer melhoramento ou reparação. 
    Foram vários os apelos ao Mosteiro de Rendufe e inúmeras as passagens de autoridades eclesiásticas por Lago para que autorizassem a construção de uma nova igreja.
    Finalmente, em Março de 1809, foi autorizado o lançamento das fundações. 
  No dia em que se procedia à abertura dos alicerces acontece a 2ª Invasão Francesa, tendo todos os trabalhos ficado suspensos. 
    Anos mais tarde o Dom Abade, Frei José do Pilar, solicitou licença para recomeçar a construção aos Domingos de tarde, tendo sido determinante a ajuda da população.
    Bastante espaçosa, com cerca de 30 metros de comprimento e 8 de largura, ficou posta sobre uma pequena elevação, a cerca de 100 metros da primitiva, de muito menores proporções, que estava num sítio ainda hoje designado por “Adro”, hoje terreno particular.
    A primeira missa foi celebrada por Frei Sebastião de Santa Rita, abade de Santo Tirso.
    Apesar de ter sofrido um enorme incêndio no inicio da década de 80, a Igreja Paroquial de Lago tem lindas e antigas imagens.
    Passei em seguida à capela do Senhor da Saúde, mesmo ali ao lado, ao fundo de uma pequena mas cuidada avenida.
    Desta capela apresento, para além do actual,  um registos fotográfico colhido numa anterior deslocação a Lago, em 1991:
1991
10 de Janeiro de 2019
    Esta capela foi construída em 1833 pelo benemérito Brás António Fernandes. 
    Foi reconstruída em 1859, data em que foi oferecida a imagem que lá se encontra. 
    Em 1871 voltou a sofrer um restauro para construir o coro.
    Numa sombra, frente a esta capela, aproveitei uma pausa na caminhada para rezar a hora Noa. 
    O ponto seguinte seria uma passagem por Rendufe, ainda que não tivesse decidido onde seria a próxima pausa.
    Santo André de Rendufe também foi denominada Rendufe do Bico.
    A sua fundação, como a sua história, anda em redor do mosteiro beneditino, anterior a 1090.
Mosteiro beneditino de Rendufe.
Fonte no adro do Mosteiro de Rendufe.
    Sendo vila e couto com justiças próprias, teve jurisdição em mais três coutos.
    No mosteiro houve um curso de filosofia e nele foi bibliotecário o futuro Cardeal Saraiva.
    A igreja do mosteiro, refeita de 1716 a 1719, apresenta uma fachada simétrica, flanqueada por duas torres sineiras, sendo o seu interior de relativa grandeza, com abóbada de berço e sumptuoso retábulo de talha dourada.
    Anexas à igreja estão as ruínas, provocadas pelo incêndio de 29 de Julho de 1877, do antigo claustro, com possantes colunas toscanas de granito e uma fonte decorativa, de pedra lavrada.
    Todo este conjunto é monumento nacional.
    A antiga freguesia, que até passar a ter como igreja paroquial a do mosteiro, teve como orago a Santíssima Trindade, era vigararia da apresentação do mosteiro.
    Em 1839 fazia parte do concelho de Braga, tendo passado para o de Amares em 1852.






    Não passei pelo mosteiro, que já conhecia, mas deixo aqui as duas primeiras fotografias, da minha autoria e datadas de 1991, e mais quatro pesquisadas na internet.
    Em vez disso, virei à Rua de S. Sebastião e à do Monte Calvário, onde pude extasiar-me com o belo arranjo dado àquele local de devoção.
    Este conjunto conta com cerca de 300 anos de existência.
    No alto do monte situam-se as capelas geminadas de S. Sebastião e da Crucifixão de Jesus.
Aspecto geral do Monte Calvário.




Dois aspectos da imagem em granito do Senhor dos Passos, existente no início do escadório.



Efígies do Senhor dos Passos no pavimento dos escadórios do Monte Calvário.
Capelas geminadas de S. Sebastião e da Crucifixão de Jesus.
    Subi os escadórios e, enquanto me aquecia com o Sol desta tarde de Inverno, rezei o Terço.
    Começavam a ser horas de pensar no regresso, porque nesta época a noite cai num instante.
   Atravessei a Urbanização das Neves e a EN205, para me dirigir à capela de Santa Marta, outro ponto de referência já de mim conhecido de percursos anteriores, onde tencionava, e concretizei, rezar as Vésperas e dar por terminada esta minha aventura descalcista de Inverno.
    Ao cruzar-me com outras pessoas, e como nestas terras há ainda o bom costume de mùtuamente nos saudarmos, o pessoal cumprimentava-me, ou eu cumprimentava o pessoal, mas nunca ninguém me pôs qualquer questão pelo facto de andar descalço.
    Nem por simples curiosidade.
    Vinha prevenido com alguns daqueles panfletos que publiquei num destes dias, a fim de esclarecer as pessoas ou aguçar-lhes ainda mais a curiosidade.
    Apenas quando atravessei uma urbanização, já no final de Lago, um menino dos seus quatro ou cinco anos, no passeio do lado oposto, repetiu várias vezes à mãe e em vozita bem audível: "Descalço!? Descalço!" e logo a mãe o obrigou a calar-se.
    Talvez o pessoal esteja habituado à frequente passagem de peregrinos e romeiros para S. Bento da Porta Aberta e Santiago de Compostela.
    A caminho de Santa Marta passei pelos limites de Barreiros, mas não vou agora debruçar-me sobre esta freguesia, uma vez que foi uma passagem muito fugaz.
    Colhi mais umas imagens destas arquitecturas rurais que para mim parecem ter magia.




    Cheguei finalmente à capela, de que vos apresento aqui três fotografias em datas diferentes:
   
22 de Março de 1990.
26 de Agosto de 2011.
10 de Janeiro de 2019.

    E, com a recitação de Vésperas e umas breves palavras aos meus leitores e video-espectadores, dei por terminada esta primeira caminhada do ano.