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Braga, Minho, Portugal
Franciscano com paciência beneditina.

sábado, 19 de janeiro de 2019

DA PONTE DO PORTO A FIGUEIREDO (AMARES)




    A Ponte do Porto localiza-se sobre o Rio Cávado, ligando a freguesia de Pousada, no concelho de Braga, à de Prozelo, no concelho de Amares.
   Trata-se de uma ponte medieval, românica (século XIV)
  "Porto" é uma palavra do Galaico-português arcaico com o significado de "ponto de passagem".
    A ponte actual foi construída na Idade Média
    Até à data da construção da Ponte de Prado, foi a única travessia do rio no Baixo Cávado.
    Foi classificada como Monumento Nacional em 1910.
    A  ponte, em aparelho de granito, é constituída por onze arcos desiguais e um tabuleiro, estreito e irregular, com dois metros e oito decímetros de largura, entre muros de vedação, e cento e cinquenta metros de comprimento. 
    Possui fortes talhamares a montante e tímpanos vazados nos elementos centrais.
    De acordo com uma lenda local, esta ponte foi construída pelos homens, numa única noite, para poder conquistar as terras da outra margem do rio, com pedras trazidas pelas mulheres que vinham de Terras de Bouro, a cerca de 30 quilómetros da zona.
    Iniciei aqui a minha caminhada descalcista deste dia 17 de Janeiro de 2019.
À entrada da Ponte do Porto, do lado de Pousada.
A peça em madeira atrás de mim é a estrutura dum carro de bois, voltada ao contrário.
    Foi a primeira vez que fiz esta travessia a pé (e descalço).
    Não tenho ideia se já a atravessei de carro. 
    Pela nova ponte sei eu que passei de carro e continuo a passar, até porque este vetusto monumento tem dois esteios de pedra de cada lado a impedir a circulação de veículos.
    Pela primeira vez pus os pés em Prozelo.
    E logo à saída da ponte deparei com exemplares arquitectónicos rurais, uns bem conservados, outros em ruínas, e são precisamente as ruínas que para mim têm como que uma certa «magia», porque, como já referi numa crónica anterior, imagino como seria a vida ou vidas vividas dentro daquelas paredes.
    Pedras, traves, barrotes, caibros e telhas ─ testemunhas mudas sabe-se lá de que «estórias», como soe agora dizer-se!

    Confesso que fui para esta caminhada sem um objectivo definido, para além de conhecer de perto e melhor a velhinha ponte, colher imagens, rezar e, sobretudo, andar, andar, andar...
    Dirigi-me para a margem do rio, sob a ponte, e aí experimentei e deliciei-me com a vegetação, carregadinha de orvalho, e depois com a frescura dos abundantes fios de água que, correndo por entre a mesma vegetação, se vão lançar no Cávado.
"... a vegetação, carregadinha de orvalho,..."

 "... a frescura dos abundantes fios de água que, correndo por entre a mesma vegetação, se vão lançar no Cávado."
    Terminada esta refrescante experiência voltei ao caminho e parei a admirar a Quinta do Lago dos Cisnes, com os seus cavalos e póneis, e ainda (maravilha para quem delira com tudo o que anda sobre carris) um carro eléctrico da «Carris» de Lisboa, agora a servir talvez como estrutura de apoio aos utentes deste bucólico recinto!


    Desde 1989, data da edição da Carta Corográfica pela qual me tenho vindo a orientar, que muitas características do terreno e do património construído se alteraram, e por isso, ali em Prozelo, andei nìtidamente a «navegar» sem pontos de referência visíveis.
    Conforme já referi anteriormente, as múltiplas capelas e igrejas deste cristianíssimo Minho são para mim as referências mais fáceis, mas por onde então  andava apenas uma estava referida na carta, mas não era visível, talvez porque se assinalava fora de qualquer caminho e possìvelmente em terreno privado.
    Ou então seria mais uma ruína.
    Por isso não perdi tempo, embora estes templetes sejam os meus lugares de eleição para parar, descansar e alimentar o corpo e o espírito.
    Contornei a Quinta do Lago dos Cisnes, e percorri uma calçada, colhendo imagens aqui e ali.





Alminhas: uma presença quase constante.
    Meti por uma calçada que me pareceu descer em direcção ao rio, e deparei com alguns empreendimentos de turismo rural.

    

    Entrei depois numa vasta vinha em bardos:
    Continuei a descer, até chegar finalmente ao Cávado, onde pude contemplar a beleza dos seus rápidos e a azenha do lado de Navarra:
    A manhã ia passando e eu começava a pensar sèriamente onde iria encontrar local propício para o meu rápido almoço.
    Virei a Norte, ao acaso, tendo chegado a uma estrada mais movimentada, mas como evito sempre estas perigosas vias meti por uma travessa que tinha uma placa toponímica, mas dada a altura em que estava e desconhecer a heráldica autárquica nela representada, tentei ler a legenda do brasão, mas apenas me apercebi de que terminava em «eiros».
    Estaria em Ferreiros ou em Barreiros?
    Cheguei a um largo, com pavilhões industriais e um pequeno cemitério, que deveria ter sido aberto depois de 1989, porque não constava na Carta Corográfica.
    Deixei-me levar pelo mesmo acaso e... Dei por mim novamente na entrada da Ponte do Porto.
    Ponderei comer nas escadas daquelas ruínas que figuram numa das primeiras fotografias, mas o local não era apropriado, por estar um pouco sujo.
    Na berma dessa rua havia uma pequena pedra, mais ou menos lisa, e ali «pus a mesa».
    Depois de almoçar decidi tomar o rumo de Figueiredo, em busca de lugar para alimentar o espírito, uma vez que na carta figuravam algumas capelas.
    Figueiredo integrava o concelho de Entre Homem e Cávado, extinto em 31 de Dezembro de 1853, data em que passou para o concelho de Amares.
    Foi sede de uma freguesia extinta (agregada) em 2013, no âmbito de uma reforma administrativa nacional, tendo sido agregada à freguesia de Amares, para formar uma nova freguesia denominada União das Freguesias de Amares e Figueiredo.
    Em 1706, segundo o Padre Carvalho da Costa é abadia do padroado da Diocese de Braga; a povoação tem 63 vizinhos.
    Pelo caminho fotografei uma velha bomba manual de tirar água, que me fez lembrar a que possuía no quintal da casa onde morei na Rua de Latino Coelho nº 292, no Porto:
    Constatei que duas das capelas referenciadas na carta se encontravam em propriedades privadas, portanto sem hipóteses de eu poder usufruir do seu recinto exterior, pelo menos.
    Havia outra, assinalada mais adiante, e eu fui andando sempre, até que encontrei um templete simplório, mais próximo do que esperava, dedicado a Nossa Senhora do Emigrante.
    Tinha um banco de pedra no adro, e ali parei, para recitar o Ofício de Leitura e a Noa, e ainda o Terço, também:


    Prossegui o caminho, tendo como objectivo a igreja paroquial de Figueiredo, de onde encetaria o meu regresso.
    Na berma da estrada corria um rego de água, por onde caminhei umas dezenas de metros, refrescando os pés:
    Mais adiante deparo com outra capela, que era, afinal, a que figurava na carta: a capela de S. Sebastião!

    Daí a pouco estava no adro da igreja paroquial:


    Aqui rezei as Vésperas e iniciei o regresso, parcialmente por outro caminho.
    Ao virar a esquina para a Estrada 308 existe um pequeno oratório dedicado ao Senhor dos Passos:

    No regresso, já depois de passar a capela de Nossa Senhora do Emigrante, observei uma senhora que, ajudada pelo netito, apanhava lenha miúda num campo à margem da estrada.
    Pressenti que me seguiam, em passo rápido, e eu retardei o meu andar, porque gostaria de ter um contacto com alguém da terra.
    A senhora disse então ao menino:
    ─ Vês este senhor? Vai descalcinho e não tem frio nos pés!
    Voltei-me delicadamente e cumprimentei-os. 
    A senhora prosseguiu:
    ─ Já tinha visto o senhor ali na capelinha, e até disse ao meu neto: "Vês aquele senhor ali a ler, descalcinho?"
    Comecei então a desbobinar todos os benefícios de andar descalço, e dei-lhe um daqueles panfletos por mim publicados há dias atrás.
    Antes de despedir-nos pedi à senhora, de nome Rosa, para tirar uma fotografia, dizendo para que fim, e aqui está ela, com a devida autorização da D. Rosa:
    Embora as galochas que calçava constituíssem uma contradição, a D. Rosa concordou comigo em como andar descalço trazia mais vantagens que inconvenientes.
    Gostaria de saber o impacto que o folheto causou a quem eventualmente o leu, pois foi o primeiro que distribuí.
    E assim estava a chegar ao fim mais este dia passado em terras de laranjeiras, onde espero voltar numa próxima temporada!

    Mais uma vez atravessei a vetusta Ponte do Porto.
    Era já noite quando cheguei à margem Sul.

    Em tempo:
PONTE DO PORTO (SOBRE O RIO CÁVADO)
Por Alberto Robaleiro (Rob)
2007
Lápis
245 x 162 mm.