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Braga, Minho, Portugal
Franciscano com paciência beneditina.

domingo, 27 de janeiro de 2019

NAS FRANJAS DA PÓVOA DE LANHOSO

    No final da minha última jornada descalcista semanal referi que nesta semana me iria virar para a margem Sul do Cávado, o que efectuei, na realidade, na quinta-feira 24 de Janeiro de 2019.
    Penso ter dito, também, que iria percorrer franjas do concelho da Póvoa de Lanhoso.
    O início desta aventura começou um pouco acidentado.
    Primeiro, foi o autocarro que me levou até ao limite das freguesias de Pousada (Braga) e de Moure (Póvoa de Lanhoso).
    


    Veículo com mais de 20 anos de serviço, articulado, suspensão numa lástima e a  tresandar a gasóleo!
    Eu, que não sou de enjoar, apesar de ter tomado o meu habitual meio quartilho de café e comido uma tosta mista, vi-me quase na eminência de deitar os fígados cà para fora, porque o lugar mais adequado para me sentar e poder arrumar a mochila era junto à articulação com o atrelado.
    Valeram a simpatia e o bom-humor do motorista para compensar a senilidade do «machimbombo»!
    Iniciei a caminhada a poucos metros dali, na igreja paroquial de Moure.

Dois aspectos da igreja paroquial de Moure. 
Inscrição sobre a porta da torre: feita a expensas da caridade dos fièis no Ano do Senhor de 1719.
Portanto... Há exactamente 300 anos!


No adro da igreja, a iniciar a minha caminhada deste dia.
    Diz uma tradição que em Moure existiu um mosteiro beneditino, que teria sido destruído pelos Mouros em 716.
    Haverá uma relação entre os Mouros e o topónimo Moure?
    Não a encontrei nas fontes consultadas.
    Mas é provável.
    A igreja paroquial foi construída em 1702, vindo a ser saqueada das pratas e outras alfaias pelas hordas de Soult, durante a 2ª Invasão Francesa.
    A Igreja de Santa Maria, paroquial de Moure, é uma construção em planta rectangular formada por nave e capela-mor, estando-lhe adossadas a torre sineira e a sacristia. 
    A torre sineira situa-se um pouco mais recuada que a fachada e no lado esquerdo, e a sacristia mais atrás, no plano da capela-mor. 
    O acesso à sineira é feito por uma escadaria exterior.
    O orago da paróquia é Santa Maria.
    A fachada principal, delimitada por cunhais de pilastras, é rematada em empena triangular. 
    Finaliza com pináculos bolbosos e ao centro a cruz latina.
    O portal é de moldura reta sobrepujada de um entablamento seguido de um frontão triangular interrompido pelo nicho da Virgem. 
    A finalização do nicho segue o plano do portal em frontão triangular.
    Este nicho está ladeado por dois janelões retangulares de moldura reta, iluminando a nave.
    Nas partes laterais da nave existem três rasgos em cada, correspondendo a duas janelas e uma porta, todos em verga recta. 
    Igualmente a capela-mor possui dois rasgos correspondentes a janelas.
    A igreja está situada num largo entre as estradas municipais M591 e M1351 no limite Noroeste do concelho de Póvoa de Lanhoso e quase no concelho de Braga.
    A freguesia aparece documentada desde 1101, ora com a forma de Mauri ora Mouri, desde 1400 com a de Moure.
    Moure foi abadia da apresentação da Mitra, e pertenceu ao antigo concelho de S. João de Rei, até este ser extinto em 31 de Dezembro de 1853.
    Estava eu a fotografar quando dei uma topada num dos pequenos cubos de granito do passeio que estava mais desnivelado.
    Foi o segundo incómodo desta manhã.
    Doeu-me, é certo, mas por então não notei mais nada, e até contornei o adro para caminhar sobre a relva e sentir um pouco a gravilha do parque infantil.

    E para fotografar um exemplar da arquitectura local, em ruínas, para não variar...

    A partir daqui, conforme já tinha planeado com antecedência, procuraria chegar a Águas Santas, igualmente no concelho e arciprestado da Póvoa de Lanhoso, por uma estrada municipal asfaltada que começa no lado Sul da igreja, e não pela outra que, como podem ver na fotografia do ângulo Sudoeste da mesma igreja, me levaria là mais directamente.
    Daí a pouco estava junto a um cruzeiro:

    Continuei, mas apenas depois de andar mais umas centenas de metros é que me apercebi de que o 2º dedo do meu pé direito estava a sangrar.
    Pensei para comigo mesmo um misericordioso "isto passa", a desculpar a falta de local adequado para parar, pousar e abrir a mochila, tirar de dentro a bolsa de primeiros socorros e fazer um pequeno penso.
    Subi, subi, subi e, quando já «deitava os bofes pela boca», là encontrei um local propício para desinfectar a ferida (por sorte na raiz da unha, o que não perturbava o caminhar), com iodopovidona e fazer um penso compressivo e protector.
    Depois de encontrar algumas discrepâncias em relação à Carta Corográfica e algumas hesitações em escolher caminhos em encruzilhadas e bifurcações, com alguma colheita de imagens pelo meio, pareceu-me encontrar o rumo certo para Águas Santas.    
    A fominha já estava a apertar, mas como na carta aparece ali perto referenciada uma capela, eu imaginava-me já a saborear umas cavalas em azeite à sombra da Casa do Senhor.
    Mas, decepção das decepções, o que encontrei foi isto:
    Isto não é S. Damião nem a Porciúncula, de Assis, mas era necessário que Jesus aparecesse a alguém com consciência e lhe dissesse o que disse a S. Francisco, na primeira destas igrejas: "Vai, Francisco, e restaura a Minha Igreja, que toda se arruína"!
    Claro que, como sabemos, não era à igreja edifício a que Jesus se referia, mas sim à Igreja Corpo Místico.
    Mas aqui fica também a minha pública denúncia.
Escudo de prata, uma fonte heráldica de azul ondeada do mesmo metal, com dois cântaros em chefe e um em campanha, todos de vermelho. 
Coroa mural de prata de três torres. 
Listel branco com a legenda a negro, em maiúsculas “ ÁGUAS SANTAS – PÓVOA DE LANHOSO“.


    Mais adiante, já em Águas Santas, passei numa pequena urbanização em cujos lugares de estacionamento estavam plantados azevinhos (Ilex aquifolium).
    Talvez a lembrar que "Natal é sempre que um homem quiser"...

Azevinho (Ilex aquifolium)

    Mas não demorou muito a encontrar local onde parar para retemperar o corpo.
    Foi mesmo na borda dum lavadouro:
    Satisfiz-me com duas cavalas no meio de fatias de pão e uma sumarenta laranja.
    Depois substituí o grosseiro penso por um simples penso rápido (vulgo «curita») e segui o meu caminho, deparando logo ali mais abaixo com mais ruínas:

    Já havia estado em Águas Santas em 1992, sendo ali pároco o saudoso Pe. Manuel, que visitava frequentemente o Hospital António Lopes, na Póvoa de Lanhoso, no tempo em que là trabalhei.
    Este sacerdote autorizou-me então a fotografar as imagens de S. Francisco de Assis e de Santo António de Lisboa.
    Nesses tempos do «analógico», por razões de ordem económica, tinha de ser parcimonioso e selectivo nas imagens.
    De maneira que elegi essas duas imagens como documentário da visita.
Fachada Poente da igreja paroquial de Águas Santas.
Imagem de S. Francisco de Assis.
Imagem de Santo António de Lisboa


Campanário
No campanário.


Sepulturas no adro da igreja paroquial.
Antiga fonte no adro da igreja paroquial.

   
 
A paróquia de São Martinho de Águas Santas era vigararia anexa à abadia de Santa Maria de Moure e da apresentação do seu abade, sendo seu donatário o Conde de Sabugal. 
    Pertenceu ao concelho de São João de Rei, extinto por decreto de 31 de Dezembro de 1853, passando desde essa data para o concelho da Póvoa de Lanhoso. 
    É composta pelos seguintes lugares: Banco, Bouça, Cabo, Cachada, Calvário, Casa Nova, Costeirinha, Crujeira, Igreja, Insua, Loginha, Loureiro, Moinhos, Moges, Olival, Poço das Vides, Patos, Passo, Pedreira, Pertença, Pomares, Portuzela, Reboido, Recobelo (ou Recovelo), Serzeda, Souto, Souto de S. Bento e Venda. 
    É paróquia da Arquidiocese de Braga.
    A partir de 1 de Abril de 1911, os livros paroquiais foram entregues, por determinação legal, às repartições do Registo Civil, criado em 18 de Fevereiro do mesmo ano, onde permaneceram até à sua incorporação nos Arquivos Distritais, após decorrerem 100 anos sobre a data de elaboração do último registo. 
    Em 1994 foi publicado o Inventário Colectivo dos Registos Paroquiais, no âmbito do Inventário do Património Cultural Móvel.
    A igreja é de plano longitudinal, com nave única e coro. 
    Tem um excelente trabalho de alvenaria de pedra esculpida.
    A sua reconstrução foi atribuída aos Templários.
    Também existiu aqui um antiquíssimo mosteiro duplex de Cónegos e Cónegas Regrantes de Santo Agostinho (Crúzios). 
    O de Cónegas foi suprimido em 1130, por causa das imoralidades que se praticavam, e extinto de vez em 1300. 
    D. Afonso IV doou-o em 1340 ás Freiras do Santo Sepulcro, que haviam sido expulsas de Jerusalém pelos Turcos. 
    Estas religiosas fundaram aqui um hospital de renome.
    Voltou a ser novamente Convento misto de frades e freiras, conservando-se assim até 1492, data em que D. João II o extinguiu, unindo-o á Ordem de Malta, da qual foi Comenda. 
    Foi em Portugal o único Convento do S. Sepulcro.
     A presença duma imagem de S. Francisco de Assis na igreja paroquial logo me levou a suspeitar de que em Águas Santas teria havido uma presença franciscana, o que confirmei ao ler em Os Terceiros Franciscanos Portugueses ─ Sete Séculos da sua História, da autoria de Frei Bartolomeu Ribeiro OFM, edição de 1952, o seguinte:

    "2 ─ O. T. (Ordem Terceira) de S. Martinho de Águas Santas ─ concelho de Póvoa de Lanhoso.
    "Existia esta fraternidade antes de 1693 na paróquia de Santa Tecla de Geraz, e neste ano foi mudada para a capela de S. Bento, existente nessa data na, então, Vigararia de S. Martinho de Águas Santas.
    "Encontramos esta indicação num documento do arquivo desta fraternidade, sem mais alegações.
    "Era centro de piedosas romagens esta capela, construída antes de 1147, diz o P. Luís Cardoso em 1747, no Dicionário Geográfico, e ajunta a notícia de ser o primeiro altar do lado do Evangelho dedicado a S. Francisco.
    "Foi demolida para dar espaço à construção da actual igreja paroquial, e para esta passou a sede da fraternidade, onde continua uma vida arrastada, por falta de assistência eclesiástica, desde que faleceu o último comissário religioso, Frei Manuel de Canelas, em 1851.
    "Tinha estatutos aprovados em assembleia geral dos Irmãos, presidida pelo comissário Frei Jão de Fonte Arcada, em 24 de Setembro de 1741.
    "Conservam-se no arquivo da fraternidade.
    "As nefastas influências da política local sobre as confrarias e a Ordem Terceira, todas convertidas em núcleos politico-religiosos, precipitou a ruína desta fraternidade, que tinha alargado o recrutamento de confrades a duas dezenas de paróquias, pertencentes ao antigo concelho de S. João de Rei e dos modernos de Amares e da Póvoa de Lanhoso.
    "As relações modernas desta fraternidade com os superiores franciscanos começaram em 1895, com a nomeação de comissário, pedida pelo P. Manuel Joaquim de Almeida. 
    "Em 1927, foi entregue o comissariado ao Pároco António Joaquim Martins, por seu manifesto desejo de restaurar a Ordem em que era professo.
    "Com a sua morte, ocorrida pouco depois da nossa visita, feita em Fevereiro de 1941, ficou ao desamparo.
    "Neste último ano calculámos os seus professos em 22 irmãos e 130 irmãs."

    Perante esta leitura eu, franciscano, senti uma certa desolação, por deparar, em conjunto com as ruínas totais ou parciais, de casas dos homens e do Senhor, com a derrocada total destas instituições.
    Quem vai subir a escadaria para a igreja tem, à direita, a capelinha (mais um oratório) do Senhor do Túmulo:
    Não tive condições para fotografar o interior, embora pudesse ter distinguido, pelos vidros opacificados, uma imagem do Senhor Morto.
    Exemplar da arquitectura religiosa, barroca (século XVIII). 
    Fachada principal com portal de verga recta encimado por frontão interrompido com fresta de arejamento, ladeado por janelas quadrangulares. 
    Interior com cobertura de masseira e esquife com imagem.
    Planta quadrangular. 
    Estrutura em granito; cobertura de telha de canudo; porta e imaginária de madeira; grades das janelas e catavento em ferro; base onde assenta o esquife revestida a azulejos; pavimento em cimento.
    Massa simples, de dominante horizontal, com cobertura em telhado de quatro águas com beiral saliente, rematada por catavento de ferro. 
    Fachadas rebocadas e pintadas, percorridas por embasamento avançado, e remate com entablamento e cornijas, com pilastras toscanas nos cunhais. 
    Fachada principal com portal de verga recta, com porta de madeira moldurada com abertura gradeada, definido por pilastras toscanas que suportam entablamento duplo, com friso e fresta de arejamento sobrepujada por frontão interrompido com pinha ao centro, ladeado por duas pequenas janelas, quadrangulares, molduradas e gradeadas. 
    Interior em aparelho "mixtum vittatum" com tecto de masseira, rebocado e pintado de branco e pavimento de cimento. 
    No centro uma base prismática, revestida a azulejos estampilhados azuis, amarelos e brancos, sobre a qual descansa um esquife com a imagem do Senhor do Túmulo, deitado. 
    Encima o esquife a imagem do Senhor dos Passos. 
    No chão, de pé, duas imagens das Santas Mulheres.
    A capela ocupa uma plataforma, ligeiramente sobreelevada em relação à estrada, estando envolvida por um muro que a isola da propriedade que lhe está contígua.
    Para impedir o acesso às suas traseiras foram colocadas grades de ferro e portão em ferro, entre os cunhais da fachada principal e o muro envolvente.
    A imagem do Senhor dos Passos é retirada desta capela para integrar a procissão de S. Bento.
    Daqui parti para um outro ponto de referência: a Quinta de Recobelo (segundo a actual grafia, havendo também as versões Recobello, Recovelo e Recovello).
    Pelo caminho fui disfrutando das magníficas paisagens quepelo caminho se me foram oferecendo:





    Maria Antunes Rebelo era Senhora da Casa de Recobelo (conforme Genealogia da Casa de Vicente pelo Dr. Norton) e nasceu em Águas Santas em 1613. 
    Era filha de Ana Luís e do Padre Pedro Martins, conforme inquirição de gênere do Padre António Vieira de Brito (Arquivo Distrital de Braga). 
    Casou com Domingos Dias da Mota Leitão e teve filha Maria Antunes da Mota Leitão. 
    Maria Antunes da Mota Leitão casa-se em Águas Santas em 1662 com o Senhor da Casa de Vicente, Francisco Vieira de Brito.
Aspecto geral da Quinta de Recobelo.
     Os actuais proprietários da Casa de Recobelo dizem que a casa nunca saiu das mãos da família, mas a genealogia deles não passa por nenhum dos nomes acima citados. 
    Talvez seja através da mãe de Maria Antunes Rebelo, a Ana Luís. 
    Mas assim ela teria de ser parente de Marcos de Faria, filha ou sobrinha, talvez.
    Isto explicaria o Rebelo do seu nome. 
    Também poderia ser através do Padre Pedro Martins ou de Domingos Dias da Mota Leitão de quem não se conhecem os pais.
    Isto foi tudo o que consegui obter acerca desta propriedade.
Capela da Quinta de Recobelo. 
Portão de entrada.

Espigueiro.
Frente à Quinta de Recobelo.
    A Quinta de Recobelo é hoje um empreendimento de Turismo de Habitação.
    Continuei e entrei de novo em Moure, logo encontrando a Casa de Barrio, com a sua capela à face da estrada, dedicada a Nossa Senhora do Carmo, segundo uma inscrição no lintel da porta:
Pedra-de-armas na fachada da Casa de Barrio.

Capela dedicada a Nossa Senhora do Carmo.
    Possui esta casa um jardim exterior, no próprio logradouro, com uma bica e uma taça de água.
    E até tem là um copo de vidro, para quem dali quiser beber!
    A Casa de Barrio, cuja construção se terá iniciado nos finaIs do século XVI e ultimado na primeira metade do século XVIII, quando da atribuição do brasão, é um solar que se tem mantido sempre na mesma família desde a sua origem.
    Está envolvida por espaços verdes, jardins, relvados e árvores multicentenárias de grande porte.
    A actual proprietária desta casa chama-se Aurora da Conceição de Sousa Almeida e Silva Neto, uma das primeiras mulheres licenciadas da Póvoa de Lanhoso. 
    Casou-se com Abílio Neto. 
    Ambos advogados, escreveram várias obras relacionadas com a organização administrativa e financeira do Estado, e anotações do Código Civil, que ainda hoje em dia são referência.
    A  capela e o edifício principal estão ligados por um muro. 
    A figura central é o portal armoriado, e é esse brasão de granito que define todo o conjunto arquitetónico.
    A fachada principal que está virada a Norte, é característica das habitações do séc.XVII, com uma planta em U.
    Contudo, a Casa de Barrio, foi edificada por volta de 1736. 
    A referência às características das habitações do séc. XVII são ainda mais reforçadas com a sua disposição, que já não se encontra em voga no séc. XVIII.
    A Casa de Barrio é ambígua no sentido em que é mais simples na sua construção, apenas os dois braços em U, a capela e o corpo habitacional, e é mais complexa na decoração, que é claramente é mais tardia.
    Ao proprietário da Casa de Barrio, Constantino de Araújo Cerveira, foram concedido brasão de armas, por Carta de 12 de Maio de 1736.
    O escudo do brasão é esquartelado e tem presente as armas dos Araújos (1º), Cerveiras (2º), Farias (3º) e Guimarães (4º). 
    O timbre é uma pitoresca interpretação do timbre dos Araújos: «busto de mouro vestido e com turbante».
    A capela é dedicada a N.ª Sr.ª do Carmo, como revela a inscrição latina VIRGIN MARIAE DECORI/CARMELI CONSECRATA, cuja efígie está colocada na fachada. 
    A capela tem uma abóboda de madeira em berço. 
    Permanece um retábulo de belas proporções com um frontal de altar ornado com um brocado florido pintado em trompe-l’oeil (técnica artística que, com truques de perspetiva, cria uma ilusão óptica). 
    Existe um sistema que facilita a passagem e que conduz do andar nobre da residência ao coro da capela. 
    O habitual na Arquidiocese de Braga era a exigência de que as capelas semipúblicas fossem separadas das habitações.
    No exterior há também um relógio de sol com cabeça de anjo, situado precisamente a meio da passagem entre a casa e a capela.
    A Casa de Barrio é uma casa-escultura em que capela e residência, ligadas por um muro de altura média, se encontram em simetria em relação ao portal central armoriado. 
    E, muito simbòlicamente, é esse brasão de granito, essa pedra fundadora, que parece constituir o fulcro à volta do qual gira o conjunto. 
    Toda essa fachada virada a Norte, pela busca de equilíbrio, as habitações do séc. XVII são construídas segundo uma planta em U e fechadas por uma parede.
    Todavia, a Casa de Barrio, edificada à volta de 1736, é quase arcaizante, pois a sua disposição já se não encontra praticamente em voga no séc. XVIII.
    Com efeito, nas casas de estilo barroco ou rococó, as cinco componentes formadas pela capela, residência, escadaria exterior, muro e portal acham-se muitas vezes dispostas com uma certa assimetria. 
    Assim, por que não supor que o mestre-de-obras deste solar de Moure se haja inspirado na famosíssima casa de Infias, uns sessenta anos anterior a ela? 
    A Casa de Barrio é simultaneamente mais simples no seu arranjo com apenas os dois braços de um U, a capela e a habitação, e mais complexa na decoração, que é mais tardia.
    Uma vez assente o plano de conjunto, Constantino de Araújo Cerveira, o proprietário, adoptou talvez como modelo para a sua capela a da Casa das Lajes, situada em S.Paio de Pousada, no concelho de Braga, donde são naturais os seus avós, construída em 1725 por Francisco de Vale e Araújo.
    As duas capelas são muito semelhantes: os frontões, as pilastras, os nichos com a imagem do santo padroeiro e as janelas integradas na cornija. 
    Sòmente aqui e ali diferem na decoração. 
    Além disso, encontra-se a mesma busca de exactidão nos lintéis gravados com uma inscrição. 
    Os dois outros elementos arquitectónicos são a entrada principal e a parede de junção. 
    Menos altos do que os edifícios que ligam, estão tratados mais como um vasto pórtico do que como extenso muro de vedação.
    De ambos os lados da porta as pilastras repetem-se na parede com os movimentos de uma vaga, anunciando as pilastras dos cunhais dos edifícios. 
    Essas linhas verticais de granito contribuem para o equilíbrio da profusa decoração que coroa todo este conjunto.
    No centro do frontão, quebrado, em volutas, figuram as armas concedidas por Carta de 12 de Maio de 1736 ao edificador, Constantino de Araújo Cerveira. 
    O escudo tem por timbre um enigmático busto de homem envolto em tecido e coberto com uma peruca. 
    Trata-se de uma pitoresca interpretação do timbre do Araújos: «busto de mouro vestido e com turbante». 
    De cada lado do brasão, este portal-parede é encimado por três tipos de remates interpretados pelo escultor com raro equilíbrio entre a precisão e a vivacidade.
    Há os elementos geométricos de inspiração renascença, os merlões medievais de estilo barroco… e o personagem de fantasia, muito em voga. 
    Esse guerreiro com o seu ar bonacheirão, de turbante, colarinho de pregas e calças tufadas, é da mesma inspiração que o altivo «Mexicano» do Palácio do Raio, em Braga.
    Como em todos os grandes períodos criadores, esta profusão de formas esculpidas não é apenas ornamental.
    Obedece a exigências arquitectónicas, o que explica a qualidade da base dos remates, a presença das esferas de pedra destinadas a proteger da chuva os pináculos ou ainda a escolha de um turbante menos frágil do que um capacete emplumado.
    Franqueada a porta, o muro adquire outro aspecto. 
    Na sua espessura abriga, com efeito ─ sem que tal se torne visível do exterior ─ , uma larga passagem que conduz do andar nobre da residência ao coro da capela. 
    Para facilitar o acesso dos habitantes da casa, criava-se por vezes um sistema de passagem. 
    A da Casa de Barrio, que corre ao longo de uma parede e de um portal, não é de tipo muito vulgar. 
    Não passa de uma longínqua e muito tranquila metamorfose do caminho de ronda medieval e renascentista sobre os mata-cães de uma cintura de muralha.
    Visto do pátio interior, o portão transforma-se num sólido pórtico sustentado por grosso pilares. 
    Uma escada em esquadria faculta o acesso a essa passagem e ao patamar do andar nobre. 
    E ali um lacaio de libré, de chapéu na mão, convida o visitante a subir. 
    Esse servidor de pedra, um pouco mais pequeno que o natural, recorda dois outros colegas em igual atitude no Palácio dos Biscainhos, em Braga. 
    Tanto no século XVIII como no XIX, também no Sul do País se encontra este género de personagem. 
    Mordomo sòlidamente esculpido num granito cinzento com reflexos dourados, aqui, «silhueta de argila» que a magia dos azulejos torna policroma, no Sul; empolgante confronto de duas concepções das formas.
    No interior, a casa encerra um belo tecto octogonal de castanho. 
    Fora, um relógio de sol com cabeça de anjo, colocado precisamente a meio da passagem entre a habitação e a capela, é o sinal de uma profunda interacção entre a vida quotidiana e a religião. 
    Curiosos são os degraus de acesso ao púlpito da capela: três blocos de granito, independentes, simplesmente encastrados na parede.
    Após uma curta pausa junto a este imóvel, continuei o caminho de regresso a Moure.
Um prado em Moure: o Minho no seu melhor.
De regresso a Moure.


    Terminei este meu percurso descalcista e pesquisador de História de novo junto à igreja paroquial de Moure e ao pelourinho.
Pelourinho de Moure.

    Implantados em espaço público, símbolos do municipalismo português, os pelourinhos são marcos histórico-culturais associados à concessão de cartas de foral ou administração da autoridade régia. 
    O Pelourinho de Moure, de arquitectura manuelina, terá sido edificado no século XVI, caracterizando-se pela base quadrangular, assente num afloramento granítico com coluna, ligeiramente inclinada, de fuste prismático oitavado, com remate em bola.
Está classificado como imóvel de Interesse Público através do Decreto: Dec. n.º 23 122, DG 231 de 11 de Outubro 1933.
    E terminei-o com um vídeo em que apelo aos potenciais descalcistas que não se inibam de se assumir como tais.