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Braga, Minho, Portugal
Franciscano com paciência beneditina.

terça-feira, 26 de março de 2019

RECEBENDO A PRIMAVERA A NASCENTE DA FALPERRA

Percurso de 21 de Março de 2019.
    Coincidiu esta minha quinta-feira de caminhada descalça com a chegada da Primavera.
    Escolhi uma zona que nunca tinha percorrido, nem a pé nem em qualquer transporte.
    Comecei pelo Santuário do Sameiro, onde participei na Eucaristia das 10 horas e recitei algumas das orações próprias para aquela hora.
Percorrendo o recinto exterior do Santuário do
Sameiro
Na Basílica.
Na cripta.
No recinto exterior.
    Partindo deste local sagrado rumei, pela Estrada Municipal 1338, em direcção a Briteiros Santa Leocádia.
    Uma incursão no Arciprestado de Guimarães, portanto. 
    Nesta caminhada tive de percorrer, quase sempre, pisos asfaltados, que divergiam muito nas suas texturas, umas vezes mais antigas e macias, outras vezes mais recentes e agressivas pelas suas gravilhas miúdas.
Início do percurso pela Estrada Municipal 1338 
(Rua de Santa Leocádia).
Estrada Municipal 1338 (Rua de Santa Leocádia), que liga o Santuário do Sameiro a Briteiros Santa Leocádia.
Edifício rural em Espinho, à margem da Estrada Municipal 1338 (Rua de Santa Leocádia).


    Esta estrada bordejada de tojo florido (Ulex europaeus) e também, em certos locais, de erva fresca, desdobra-se quase toda por entre afloramentos graníticos, bouças e eucaliptais.
   
     
Percorrendo a Estrada Municipal 1338
(Rua de Santa Leocádia).
Tojo (Ulex europaeus)...
... e também alguma erva fresca.

    Havia agora que encontrar um local propício para almoçar.
    Encontrei a «sala-de-jantar» num afloramento rochoso, à sombra dum eucalipto:
Almoço «on the rocks»...
    

Saboreando as texturas graníticas, numa permuta de energias.
    Terminada  esta pausa reiniciei o caminho, chegando às imediações da capela de Santa Ana, onde este meu amigo fez questão de me acompanhar até ao templete:
Um companheiro inesperado.
    Nos seus latidos parecia dizer-me que também gostava de andar descalço, e que nunca na vida conhecera calçado!
    Na generalidade... Uma das poucas felicidades de um cão! 
Moradia rústica nas imediações da capela de Santa Ana.
À porta da capela de Santa Ana.


Capela de Santa Ana, em Briteiros Santa Leocádia.
Mostras de devoção na porta da capela.
    Depois de me ter despedido do meu canino e temporário companheiro, dirigi-me para o centro da freguesia, mais concretamente para a igreja paroquial.
    A paróquia de Santa Leocádia chamou-se inicialmente Palmeira.
    Entre os séculos VII e X existia nesta terra um templo visigótico, tendo este funcionado também como centro religioso das Ordens Beneditina, dos Templários e dos Hospitalários, sempre em épocas distintas. 
    Dizem as Inquirições de 1220 que "dominus rex non est patronus", isto é, que não era do padroado real, sendo provàvelmente dos senhores de honra.
    Passou depois a pertencer aos Arcebispos de Braga, em cujo padroado aparece no século XVI.
    Em 1597, o Arcebispo D. Frei Agostinho de Jesus anexou-a ao Convento do Pópulo, em Braga.
    Em virtude desta anexação, o pároco era vigário ad mutum da apresentação deste convento.
    Quanto à fundação da igreja, sabe-se apenas que surge como paroquial do século XII para o XIII.


Igreja paroquial de Briteiros Santa Leocádia.
    Ao lado da igreja situa-se o antigo cemitério, hoje um pequeno rectângulo impecàvelmente relvado, com apenas um cruzeiro junto ao limite posterior, e cercado por muretes baixos, conservando ainda o original portão de ferro, datado de 1906.
Portão do antigo cemitério.
    A paisagem que se disfruta deste adro é deslumbrante!







    Retomei o caminho, agora em direcção a Longos, mas ainda passei pelo cruzeiro paroquial:
Cruzeiro paroquial de Briteiros Santa Leocádia.
    Aproveitemos este caminho entre Briteiros Santa Leocádia e Longos para lembrarmos quem foi a mártir toledana que se tornou orago daquela paróquia.

    Leocádia de Toledo ou Santa Leocádia foi uma jovem espanhola venerada pela Igreja como santa, e que morreu virgem e mártir.
    Segundo a tradição, foi Públio Daciano, prefeito romano da Hispânia e governador da Bética, que aplicou nesta mesma Hispânia um decreto de Diocleciano que ordenava a perseguição dos cristãos e, em última instância, a sua morte.
    Ao chegar a Toledo, o pretor Daciano mandou prender Leocádia pela confissão pública da sua Fé e rejeição à apostasia. 
    Leocádia foi acorrentada numa masmorra escura para que reflectisse sobre os tormentos que a esperavam se não renunciasse à sua Fé. 
    Sabedora do martírio de Eulália de Mérida e de outros como Vicente, Sabina e Cristeta de Talavera, vítima de maus tratos físicos e psíquicos, Leocádia acaba por morrer na prisão.
Morte de Santa Leocádia.
Enterro de Santa Leocádia ─ por Cecilio Pla ─ Museu do Prado ─ Madrid.

    
Inicialmente foi enterrada no cemitério de Toledo, na zona ocidental, junto ao Rio Tejo.
    Até o século VIII as relíquias conservaram-se em Toledo.
    A perseguição de Abderramão I contra os cristãos levou a que muitos moçárabes figissem da cidade, levando com eles as relíquias de Leocádia e de outros santos toledanos.
    As relíquias foram levadas para Oviedo, onde Afonso o Casto ergueu um templo em sua honra.
    De Oviedo, as relíquias foram levadas para a Flandres.
    Por mediação de Filipe II, os monges do cenóbio de Saint-Ghislain (diocese de Cambrai), onde estavam então depositadas, entregaram-nas ao jesuíta Miguel Hernández e, em 1587, chegaram à Catedral de Toledo.
    O rei assistiu pessoalmente à recepção.
    Os restos da santa repousam na cripta da Catedral, numa arqueta de prata, a qual tem textos sobre sua vida.
Arqueta contendo as relíquias de Santa Leocádia ─ Catedral de Toledo
    A arqueta foi desenhada por Nicolás de Vergara e cinzelada pelo ourives Merino. 
    Sai em procissão, numa carruagem, no dia 9 de Dezembro.
    É representada com uma cruz, a que desenhou nas pedras da prisão, e com a palma do martírio.
Santa Leocádia diante da cruz que traçou na parede da prisão.
    Também é representada ante o pretor, açoitada e na prisão.
    E ainda em aparição a Santo Ildefonso de Toledo.
Aparição a Santo Ildefonso e ao rei Recesvindo.
    Por último também é representada com uma torre, simbolizando a sua morte na prisão.
    Eis que, terminada esta digressão hagiográfica, me encontrei nos limites de Briteiros Santa Leocádia, quase em Longos, mais conhecida como Santa Cristina de Longos, evocando o seu orago, sobre o qual também darei alguns tópicos.
    Subindo pela Rua da Eira Velha deparei com um lavadouro público, em cuja água, quase gelada, mergulhei as pernas durante uns largos minutos.
    Uma senhora que ali passava avisou-me de que a água era extremamente fria (já o sabia...), mas boa para beber.
    Agradeci-lhe, mas disse-lhe que não necessitava, porque trazia sempre água comigo.
    Continuei e, já numa zona urbanizada, ouvi uma voz atrás de mim:
    ─ O senhor anda a passear?
    Voltei-me e vi uma senhora que se dirigia a mim.
    Parei.
    ─ O senhor é estrangeiro?
    ─ Bem... Se considera os do Porto como estrangeiros...
    ─ Vem do Porto?
    ─ Sou do Porto mas resido em Braga.
    Seguiu-se um diálogo acerca de caminhadas e peregrinações a pé a Fátima, ao Sameiro e a Santiago de Compostela.
    Só muito depois se referiu ao meu descalcismo.
    ─ Mas o senhor é católico?
    ─ Católico e franciscano.
    Expliquei-lhe os benefícios de se andar descalço, e forneci-lhe um dos meus desdobráveis.
    ─ Isto é das Testemunhas de Jeová?
    ─ Nem pensar nisso! Já disse à senhora que sou católico e franciscano.
    Confirmando que já me encontrava em Longos, perguntei-lhe qual era o caminho para a Santa Marta.
    ─ Venha comigo por aqui. Pela estrada também ia bem, nas excusa de passar là pelos cafés e por aqui vai ter na mesma à estrada, que se chama mesmo Rua de Santa Marta, e depois é seguir sempre a direito. Vai passar por um cruzamento que diz «Balazar», mas não faça caso e siga sempre em frente.
    Depois de perguntar se eu precisava de água despedimo-nos, eu dirigi-me à igreja paroquial, em cujo adro recitei as Vésperas.
    A antiga freguesia de Longos era uma vigararia da apresentação do arcediago de Olivença, do Cabido da Sé de Braga e depois da Sé Patriarcal de Lisboa.
    O topónimo «Longos» aparece documentado desde 1075 no Liber Fidei, documento 203.
    As Inquirições de 1220, 1258 e 1290 são, porém, o maior repositório de referências de valor histórico relativas a esta freguesia.
    É nas Inquirições de 1290 que aparece, pela primeira vez, como «Freguesia de Santa Cristina de Longos».
Igreja paroquial de Santa Cristina de Longos.
No adro da igreja paroquial de Santa Cristina de Longos.
    Reiniciei a caminhada, agora rumo à Falperra, onde contava tomar um autocarro que me levasse de regresso a Braga, mas houve um lapso da minha parte, na consulta dos horários, que atrasou de sobremaneira o meu regresso.
    Mas là iremos.
Nicho com a imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem, na Rua de Santa Marta.
Casas rurais, por detrás do nicho de Nossa Senhora da Boa Viagem.
    À semelhança do meu procedimento anterior em relação a Santa Leocádia, vou agora fazer o mesmo, aproveitando o percurso para divagar acerca de Santa Cristina, orago de Longos.
Santa Cristina
    Cristina de Bolsena, também conhecida como Cristina de Tiro ou, na Igreja Ortodoxa, como Cristina, a Grande Mártir, é uma cristã do século III venerada como mártir.
    Escavações arqueológicas de um cemitério subterrâneo construído sob o seu túmulo mostraram que ela já era venerada em Bolsena no século IV.
    Nada se sabe sobre a sua vida.
    Porém, já pelo século IX, foi redigido um relato do seu martírio e surgiram diversas variantes do mesmo. 
    De acordo com estas, teria nascido ou em Tiro, no Líbano (histórias orientais),  ou na Pérsia (nas ocidentais), durante os séculos III ou V.
    Ainda que os relatos variem enormemente entre si, eles coincidem em alguns detalhes: Cristina era filha de um rico comerciante pagão chamado Urbano, que a teria mandado torturar por causa da sua Fé, mas que não teria tido sucesso por diversas vezes, devido à intervenção de Deus.
     As torturas variam com as versões da história, mas nestas aparecem ganchos de metal, grelhas sobre fogo, a fornalha, a roda, cobras venenosas, flechas, afogamento com uma pedra amarrada aos pés e diversos outros métodos, sendo que todos fracassaram.
     Após a morte do seu pai, o seu sucessor, Dion, continuou a torturá-la. 
     Em todas as versões da lenda, Cristina eventualmente morre, mas não antes que Deus derrame a Sua fúria sobre os algozes.
    Alguns académicos concluíram que a lenda de Santa Cristina é resultado da ficção piedosa, sendo tomada como se fosse verídica.
    O tema da sua lenda (uma bela donzela cristã torturada até a morte por homens pagãos que, como castigo, sofrem a fúria de Deus) aparece repetidamente em muitas hagiografias antigas e medievais, sendo particularmente notável a semelhança com a história de Santa Bárbara.
    verbete sobre ela, no Martirológio Romano, é bem curto: "Em Bolsena, na Toscana, Santa Cristina, Virgem e Mártir"
    Esta santa esteve incluída no passado no Calendário dos Santos, para ser comemorada universalmente onde quer que o rito romano fosse celebrado, mas, ainda que a sua devoção continue aprovada, foi retirada da lista em 1969 "porque nada se sabe sobre esta virgem e mártir, com excepção do seu nome e do local onde está enterrada em Bolsena".
    O Calendário Tridentino deu-lhe uma comemoração dentro da Missa da Vigília de S. Tiago.
    Quando, em 1955, o Papa Pio XII suprimiu essa vigília, a celebração de Santa Cristina tornou-se um "Simples" e, em 1962, uma "comemoração". 
    De acordo com as regras das edições posteriores do Missal Romano, Santa Cristina pode agora ser celebrada com uma "memória" em qualquer local, no dia da sua festa, excepto no caso de haver no local alguma celebração obrigatória designada para esse dia.
    A versão oficial da Igreja Católica, difundida em programas religiosos radiofónicos, chegou a pôr a hipótese de Cristina de Bolsena ter sido acusada de  bruxaria por pessoas pagãs, como negação do facto de ter sido a Santa Inquisição. 
    Menciona ainda o facto de um desses acusadores tentar impôr a Cristina o castigo por meio de uma serpente, que se voltou contra ele, ferindo-o mortalmente.
    Toffia, na Província de Rieti, guarda as relíquias da santa, e mantém-nas expostas numa urna transparente. 
    Palermo, uma cidade da qual Cristina é uma das quatro padroeiras, também alega ter as suas relíquias.
Túmulo de Santa Cristina em Bolsena.
Túmulo de Santa Cristina em Palermo.
    Cheguei à Rampa da Falperra, e fiquei à espera do autocarro naquela paragem situada junto ao cruzamento.
    Passou a hora que eu previa para a passagem do autocarro e... nada!
    Poderia ter havido um atraso...
    Continuei a esperar e a noite caíu.
    Confirmei o horário, pensando já que aquela carreira (Sameiro pela Falperra) havia sido desactivada.
    O que deveria vir a seguir também não passou.
    Pelo sim pelo não resolvi vestir o colete reflector e, de lanterna, subir penosamente até ao Sameiro e ali apanhar o autocarro que vai pelo Bom Jesus, o mesmo em que eu tinha vindo de manhã. 
    Quando parei em frente ao Seminário Carmelita, é que consultei novamente o horário e verifiquei que aquela carreira só se efectuava aos sábados, Domingos e feriados!
    Nada perdido.
    Apanhei o último autocarro via Bom Jesus e regressei para contar mais esta odisseia descalça!