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domingo, 14 de abril de 2019

EM CADA SEMANA QUE PASSA, DOIS TEMPLOS SÃO ENCERRADOS E VENDIDOS

Ruínas duma capela particular em Moure ─ Póvoa de Lanhoso.
    Por M. Ribeiro Fernandes.
    Diário do Minho ─ 14 de Abril de 2019.

    1. Há dias, enviaram-me uma reportagem sobre igrejas que vão sendo abandonadas por falta de crentes e uso de culto e depois vendidas e reutilizadas para fins comerciais. 
    São imagens que representam um sinal de viragem cultural que, aliás, coincide com a progressiva queda da percentagem do número de católicos e da prática religiosa (tomando-se por critério da prática religiosa a ida à missa), sobretudo na Europa. 
    Segundo informações recolhidas na internet, haverá na Alemanha 29% de católicos, mas apenas 9% irão à missa uma vez por mês; na França, onde igrejas são postas à venda por não uso e falta de recursos para as manter, 53% dizem-se tradicionalmente católicos, mas só 4,% vão à missa uma vez por mês e 1,8% todos os domingos; na Holanda, haverá 22,9% de católicos, mas apenas 2% serão praticantes; na Itália, 83% dizem-se católicos, ma só 24,4% se dizem praticantes; na Espanha, 70% dizem-se católicos, mas apenas 14,3% se dizem praticantes; etc…
    Nessa reportagem, assinada por Peter Berger, vem referido que, em cada semana que passa, sobretudo na Europa, dois (2) templos são fechados ao culto, vendidos e adaptados para outros fins, como moradias, hotéis, bares, livrarias, lojas, oficinas auto, depósitos… e até mesquitas (a este respeito, o filósofo Cioran escreve que “os franceses não acordarão até que Notre-Dame seja transformada em mesquita”). 
    A ser verdade esta informação, é realmente um sinal chocante que interpela os crentes para a necessidade de mudança de abordagem.
    Reportam-se, depois, nomes de igrejas vendidas e a finalidade para que foram adaptadas. 
    Alguns exemplos:
    – Igreja Dominicana de Maastricht, um grandioso templo gótico, transformada em livraria;
    – Igreja de San Martino Matera, em Itália, transformada num hotel;
    – Igreja de Sankt Jacobus, em Utrecht, Holanda, transformada em residência;
    – Cervejaria Jopen, em Haarlem, na Holanda, era uma igreja;
    – Pub Pitcher & Piano, em Nottingham, em Inglaterra, era uma igreja;
    – Uma igreja, em Northumberland, Inglaterra, transformada em residência;
    – O Restaurante Olivier, em Utrecht, na Holanda, era uma igreja;
    – Igreja de São Pedro e São Paulo, em Vercelli, Itália, transformada em depósito;
    – Igreja de Nª Senhora das Neves, em Portichetto di Luisago, Itália, transformada em Oficina;
    – Igreja de São Gregório, em Salerno, Itália, transformada em Museu Virtual;
    – Igreja de Santa Luzia, em Montescaglioso, Itália, transformada em Centro Desportivo;
    – Igreja de San Donato, em Barbaresco, Itália, transformada em Enoteca Regional;
    – Igreja de São Cosme e Damião da Ponte de Ferro, em Bolonha, transformada em Showroom de decoração visionária;
    – Em Denver, Colorado, USA, uma grandiosa igreja foi transformada em “The Church Nigthclub; – em New Jersey, USA, uma igreja foi transformada em loja da rede Dunkin Donuts… etc…etc…
    2. Este fenómeno de encerramento de igrejas e sua adaptação para fins comerciais não será inteiramente estranho entre nós, se tivermos em conta as diversas expulsões de Ordens religiosas e o encerramento de conventos; mas, relativamente a igrejas só conheço o caso da igreja de São Tiago, do século XII, em Óbidos, reconvertida em livraria; informam-me, porém, que há alguns casos em Lisboa e no país, que não pude confirmar. 
    Só que a diferença entre estes casos e os citados na reportagem é que estes são esporádicos e raros, enquanto os outros são sistemáticos e progressivos. 
    Este encerramento de igrejas começa, naturalmente, pelo afastamento e desinteresse em relação à prática religiosa. 
    E isso observa-se, hoje, um pouco por toda a parte, talvez mais para Sul do que para Norte, mas geral e à vista de quem o quiser ver. 
    E já ninguém estranha isso.
    Correlativo com este fenómeno e que pode ter, com ele, alguma relação causal, há um outro que não será menos chocante: pessoas com responsabilidade institucional continuarem a agir como se nada fosse, sem nada mudarem nem inovarem na sua abordagem da realidade, à espera que a onda de laicização passe e tudo regresse ao anterior estado de coisas… 
    Espero que não seja o regresso da síndrome de Constantinopla. 
    Toda a gente sabe que as grandes instituições têm dificuldade em reconhecer os seus desvios da realidade, porque vivem muito fechadas sobre si mesmas e prestam pouca atenção à evolução da realidade que as envolve. 
    Julgam-se autossuficientes. 
    É por isso que precisam de uma descentralização progressiva no seu modo de funcionar para que as iniciativas locais possam germinar mais adaptadas. 
    De qualquer modo, essa dificuldade não as justifica nem muda a realidade, que está aí, diante dos olhos, mesmo que se não queira ver, como um aviso de mudança cultural com data marcada…
Ruínas de capela particular na Lage ─ Vila Verde.